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quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Dois presentes, com 2 e 5 anos respetivamente, embrulhados em bolas de sabão

Já passou 1 mês, mas tenho de escrever sobre a festa de aniversários dos meus amores pequeninos.
No dia 27 de Setembro comemorámos o aniversário do meu filho e o da minha sobrinha. Em Setembro, ele fez dois anos, ela cinco. Decidimos fazer uma festa para os dois porque, em conjunto, foi possível realizar uma festa à medida dos nossos sonhos. Alugámos um espaço num colégio porque nos pareceu adequado para as crianças, afinal a festa é para elas. Um espaço ao ar livre com relva, escorregas e brinquedos diversos, nomeadamente, bicicletas, bolas e cozinhas. Se chovesse tínhamos uma sala grande à disposição, mas não choveu.
Iniciámos um mealheiro há um ano atrás e foi assim que pagámos o aluguer do espaço. Já iniciámos o do próximo ano. Parecendo que não, ajuda muito.
Os temas foram definidos: A Violeta (foi ela que escolheu) e os Piratas (a mãe dele, eu portanto, é que escolheu). Comprámos elementos decorativos com pormenores a condizer com os temas. Fizemos duas grandes mesas, cada uma com o seu tema. Comprámos salgados caseiros, nós e familiares fizemos os doces (eu, que sou a "rainha" da cozinha, fui incumbida de fazer a gelatina... como sabem, é muito difícil fazer gelatina, requer talento e paciência, é um trabalho complexo, daí terem delegado esta responsabilidade na minha pessoa), comprámos bebidas e alguns doces, fizemos sandes de queijo/fiambre/tomate cherry, cortámos frutas. Eu e o pai do Índio Pirata fizemos um barco de Pirata no qual colocámos as frutas. Eu idealizei a coisa - leia-se pesquisei na Internet - o pai executou. Alguém tem de ser o cérebro da operação, certo?  
Os dois aniversariantes foram as primeiras crianças a chegar à festa, estavam felizes da vida. Ele porque viu naquele espaço a hipótese de correr, brincar e explorar. Ela porque sentiu orgulho em poder receber os amigos naquele espaço. E pela brincadeira que o mesmo proporcionou, claro. 
As crianças correram e brincaram. Os adultos conversaram e, sem saírem do sítio de conversa, observavam os pequenos, já que o espaço, apesar de amplo, permita o contacto visual com toda a gente. Foi muito bom. Uns sentados em cadeiras, outros na relva. Uns de copo na mão, outros de rissol na boca. Outros de rabo para o ar a levantar o bebé que caiu. Miúdos a correr, miúdos a andar de bicicleta, miúdos a lutar pelos brinquedos da cozinha, miúdos a descer o escorrega, miúdos a brincar aos detetives, miúdos de espada na mão e de bola no pé, miúdos a fazer birras. Enfim, o normal. Brincadeiras livres, sem animação programada, brincadeiras à medida de cada um, já que cada um brincou como quis. Entre grandes e pequenos eram quase 100 pessoas. Foram 3/4 horas de festa pura.
O momento alto foi o de cantar os Parabéns. Antes da cantoria propriamente dita, oferecemos bolas de sabão e gaitas de papel (não sei como é que aquilo se chama) às crianças. Passados poucos minutos, tínhamos uma paisagem de bolas de sabão iluminada por um candeeiro de sol; bolas grandes, bolas pequenas, umas  lá em cima, outras pela altura dos nossos joelhos, uma bela paisagem. Segundos depois, tínhamos uma banda filarmónica desafinada a apitar, com ritmos e tons diferentes, imperfeitos e desafinados, dirigida pelos aspirantes a músicos. O brilho nos olhos e a euforia das crianças valeu a pena, valeu pelo esforço de procurar o presente ideal para oferecer aos convidados (na verdade, eu sabia o que queria, são coisas comuns em festas de crianças, mas tinha de encontrar coisas à medida do orçamento que tinha definido). Eu, que dias antes me perguntava por que raio, agora, se oferecem prendas aos convidados, rendi-me. Decidi que não daria doces a ninguém e foi o melhor que fiz. A minha querida irmã alinhou nos doces e, depois, andou a pedinchar gaitas. Gaita da miúda, eu bem que a avisei.
Depois, duas mesas pequenas no meio da relva, cada uma com um bolo (diferentes por fora, iguais por dentro). O cantar os parabéns duas vezes, a dois amores, pela comemoração do nascimento de cada um. Nasceram-nos dois presentes há 2 e 5 anos, respetivamente. Dia 27 de Setembro de 2015 comemoraram juntos, embrulhados em bolas de sabão, os seus aniversários. E nós fomos ainda mais felizes, porque, com estas pequenas grandes experiências/vivências, esperamos que eles construam boas memórias.
Parabéns meus amores! Marcamos encontro na festa do próximo ano que, se for em conjunto, será em Outubro.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

24 meses de ti e o mundo que eu não sou capaz de te explicar

Filho, fizeste 2 anos e há coisas que, apesar de não conterem a alegria e a felicidade da celebração desta data, tenho de escrever. Temo não ser capaz de as explicar com palavras adequadas à tua idade. Preciso de escrever para, depois, definir como te transmitir o que não sou capaz de, agora, te explicar.
No seguimento da carta que te escrevi há 2 anos e uns dias (ver aqui), tenho a dizer-te que também existem mundos que eu não queria que conhecesses. Existem mundos que me amedrontam. Que me fazem sentir pequenina. Que me envergonham. Que me fazem dar passos para trás como de murros no estômago se tratassem. Que não me permitem conter as lágrimas que teimam em cair-me dos olhos, olhos estes que anseiam ver outro mundo para ti. Que me fazem suster a respiração, como se uma nuvem empoeirada pairasse sobre mim. Existem mundos que eu queria mudar. Por ti, por mim, por nós. Eu não queria escrever sobre eles porque preferia que não existissem. Mas existem. Existem mundos que eu não consigo compreender e, consequentemente, não sou capaz de te explicar. O meu ignorante raciocínio não consegue compreender as explicações apregoadas por alguns.
Mas, sabes filho, existem coisas que julgo ser capaz. Talvez eu seja capaz de te mostrar que, por outro lado, existe um mundo composto de gente, de seres humanos fortes e genuínos, mais emocionais do que racionais, capazes de ir mais além. Talvez eu seja capaz de te ensinar que, com convicção, com determinação e com amor, há muitas coisas que podemos mudar. Talvez eu seja capaz de te fazer acreditar - acreditar em ti, no mundo, nas pessoas. Acreditar sempre. Tenho mesmo de ser capaz. Por ti, por mim, por nós.

Há gentes do passado que fizeram descobertas grandiosas e gentes do presente que fazem a ciência evoluir a cada segundo. Ou não, já nem sei o que é evolução.
As gentes do passado descobriram e aperfeiçoaram meios de transporte que nos permitem percorrer o nosso mundo mais facilmente. Noutros tempos, a construção de uma canoa tinha como objetivo atravessar o rio para o outro lado. Hoje, com aviões a percorrer os céus e a deixar um rasto de giz (aquele risco branco que se vê cá de baixo, que me faz pedir desejos e ter esperança, não sei se sou só eu a fazer isto), continua a existir gente a ansiar pela canoa que atravessa o rio, camuflando o medo, enfrentado a morte e a acreditar. Em simultâneo, há gente convicta de que existem pessoas de cá e pessoas de lá, como se o "lá" e o "cá" não se situassem no mesmo mundo. No nosso. Como é que eu te explico isto?
Antepassados nossos descobriram e aperfeiçoaram as telecomunicações para nos tornarmos mais próximos, ainda que distantes fisicamente. Hoje em dia, as mensagens já não são enviadas pelo pombo-correio, mas continuam a existir pedidos de ajuda que não chegam ao recetor. Ou então, é o recetor que finge que os mesmos vêm numa língua não universal e que, por isso, podem ser ignorados. Como se uma mão a acenar no meio de um mar imenso não significasse um pedido de ajuda. Cá e lá. É linguagem universal, não há que enganar.
Descobriram a arma, vê só a "grande descoberta". Acredito que nos primórdios com vista a sobrevivência: caça e defesa. Hoje, consigo encontrar grupos e sub-grupos de armas na Internet, leis que legislam a utilização das mesmas. Mas não vejo o silêncio e a inércia punidos nesses livros de verdades absolutas. Do lado de cá do rio, com transportes evoluídos e com formas de comunicar inovadoras, em vez de se esticar o braço há quem baixe a cabeça e vire as costas. Há quem não vire as costas, há quem seja "corajoso", há quem olhe para o lado de lá e grite para as gentes da canoa "volta para trás", "o mundo é de todos, mas os todos de que falamos são só alguns". Esta prepotência também é uma arma. Mas a sua utilização não é punida. Como é que eu te explico isto?
Mas, sabes filho, também há os que lançam cordas para os que caem da canoa se agarrarem. Os que "entram mar adentro" para puxar a canoa carregada de medo e de esperança. Os que põem a emoção na força que usam e ignoram a reflexão e os motivos dos que não se vergam para puxar a corda. Eu quero ser dos que puxam a corda.
Um dia destes, sentiremos (na pele) os abraços virtuais enviados através de uma caixa com fios e luzes, chegados do outro lado do mundo e ficaremos felizes. Mas se o vizinho do lado precisar de um abraço, não sabemos como o fazer. Como é que eu te explico isto?

Filho, estamos a viver uma crise. A mim, parece-me a crise dos valores, dos direitos e dos deveres humanos, mas chamam-lhe a crise dos refugiados. É adequado, na medida em que é a crise dos que têm de deixar a única casa que conheceram para fugir da guerra, à procura de uma vida melhor. Dos que se atiram para dentro de barcos sem condições nenhumas porque tentam sobreviver. Dos que tentam derrubar barreiras físicas e humanas porque não querem morrer. Dos que procuram refúgio. Dos que procuram um porto seguro. Há mães que atiram os filhos para o desconhecido com esperança de os salvarem, correndo o risco de os perderem para sempre. Há crianças, filho, há crianças como tu que morrem nesta caminhada. Há quem se aproveite. Como é que eu te explico isto?
Neste mundo, que eu gostava que não existisse, também há os que morrem de fome e que não têm condições básicas de higiene nem cuidados básicos de saúde. Há crianças que são forçadas a trabalhar quando deviam lutar pelo baloiço do parque infantil que frequentas. Há crianças que, em vez de serem protegidas pelo simples motivo de serem crianças, pessoas e o amanhã, são maltratadas. E isto acontece em muitos sítios deste mundo (Cá e lá) que eu, por vezes, não sou capaz de te explicar.
Os que defendem que não se deve esticar a mão para puxar a canoa, cheia de gente de lá, têm argumentos. Muitos. Entoados com convicção. Mas eu não consigo compreendê-los, logo não consigo aceitá-los ou explicá-los. Um dia destes tentarei escrever sobre esses motivos, mas não para tos explicar. Não sou capaz.


Créditos de imagem: Bernardo P. Carvalho

Filho, a canoa traz gente de diferentes classes sociais, com diferentes convicções, com diferentes objetivos... Mas traz gente.
Fizeste 2 anos, meu grande amor pequenino, e o meu presente é explicar-te que podemos mudar estes mundos que eu, por vezes, não sou capaz de te explicar. Nem que seja uma pequena parte, tão pequena que é quase invisível. Felizmente, há muitos outros a mudar pequenas partes. Todos juntos faremos algo que se veja - melhor ainda, algo que se sinta. Acredita, filho. Eu acredito. Por ti, por mim, por nós
Eu acredito que, se consigo descobrir novos trilhos através dos teus pequenos passos, se consigo experimentar texturas através das tuas pequenas mãos, se consigo ver a beleza de olhar para o céu e desejar boa noite à lua quando me dizes que lá fora está escuro, se consigo ouvir os cães a ladrar e os pássaros a cantar no meio da confusão só porque tu me dizes "Olha, o cão!", "Olha, o passarinho!", se consigo reaprender a saborear alimentos só porque tu me perguntas "O qué ito?", também sou capaz de mudar alguma coisa. Por ti, por mim, por nós. Pelo mundo que eu, às vezes, não sou capaz de te explicar.
Menos explicações e mais ações que, espero, sejam um exemplo, é o meu presente de 2.º aniversário.
Parabéns filho, parabéns por ti, por mim, por nós e por estes 2 anos.

Carta escrita ao meu filho por ocasião do seu 2.º aniversário.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Um dos muitos fundamentalismos da maternidade - a minha experiência

Gosto tanto quando dizem, peremptoriamente, que a amamentação ajuda/melhora a vinculação entre a mãe e o bebé. Em que situações? Pergunto.
Naquelas em que a mãe se encolhe com dores? Ou naquelas em que a mãe deseja que aquele momento único (leia-se tormento repetido) termine? Ah, já sei, deve ser naquela situação em que o bebé chora desalmadamente porque não consegue mamar. Preciso de rever urgentemente o que é isso da vinculação. E não, não é para justificar o facto de não ter amamentado, porque, em primeiro lugar, não tenho nada para justificar, em segundo, amamentei.
As mesmas pessoas dizem que o facto de o bebé procurar o olhar da mãe durante a amamentação e ela corresponder é sinal de que se está a estabelecer a vinculação entre os dois. É tudo muito bonito, mas lembro-me tão bem de o meu filho comer a primeira papa no biberão e olhar-me nos olhos, demoradamente, como nunca o tinha feito até ali (no momento da alimentação). É que quando eu estava a amamentar, a posição em que ele estava não permitia um contacto visual tão direto como quando lhe dava o biberão. Talvez não tenha aprendido a amamentar, pode ser isso, mas a verdade é esta.
Nos primeiros tempos foi doloroso, ele procurava desenrascar-se, eu também. Era aflitivo saber que ele estava com fome, que eu tinha leite e que não conseguia satisfazer-lhe esta necessidade. Foi duro e fez-me questionar várias vezes se estava a fazer o melhor para os dois. Lá fui insistindo e as coisas melhoraram. Por outro lado, quando ele estava desconfortável eu encostava-o ao meu peito, olhava para os seus grandes olhos brilhantes e sorria enquanto conversava calmamente com ele, colocava a minha mão em concha no seu pequeno rosto, massajava-o, cantava-lhe baixinho, conversava com ele, dizia-lhe que o amava. Amava-o. E ele acalmava, mais tarde começou a sorrir como forma de resposta à minha conversa, depois a palrar e por aí adiante. Acho que em tudo isto é que se estabelece a vinculação. Acho, sinceramente, que não é no acto de amamentar que a vinculação se estabelece, mas se a amamentação correr sobre rodas desde o primeiro dia, deve ajudar. Não foi o meu caso.
Outro argumento é o do aumento das defesas. Tendo amamentado por opção e acreditando em alguns benefícios, tenho a dizer, por experiência própria, que nem sempre é como dizem. Isto, ao contrário do que alguns dizem veemente, não é matemática. Amamentei em exclusivo até aos seis meses, o primeiro leite artificial que o meu filho bebeu foi aos 13, no entanto teve bronquiolite, dermatite seborreica/crosta láctea até aos olhos, otite. Se podia ter mais chatices destas e de outras se não amamentasse!? Talvez, não sei. Mas não foi porque amamentei que ficou imune. Apesar de escrever isto continuo a favor da amamentação, mas sobretudo sou a favor da opção de escolha: quem quer/quem pode, amamenta; quem não quer/não pode, não amamenta. Simples.
O que me irrita nas opiniões acerca da maternidade são as posições extremistas que se assumem em relação aos temas, como de uma guerra se tratasse. Também ouve quem me olhasse de esguelha e com espanto porque o miúdo aos 12 meses ainda mamava. E que me dissesse que deveria parar de amamentar para ele ser mais independente. Ouvi de tudo e qualquer uma das posições me irrita.
Se tiver outro filho, será que amamentarei? Tal como da primeira vez, eu gostava, no entanto, farei o que fiz da primeira vez; se conseguir, se isso não puser em causa o meu bem estar físico e psicológico e, consequentemente, o do bebé, amamentarei; caso contrário, seguirei outra opção. Tentarei impor um limite, porque os primeiros tempos não são fáceis, pelo menos para mim, a este nível, não foram, e procurarei respeitar esse limite. Eu gostava, mas na equação de uma eventual nova amamentação (eventual porque ainda não sei se terei um segundo filho, quanto mais uma segunda experiência de amamentação), tem a variável filho mais velho que também precisa de mim. E, confesso, amamentar é cansativo, requer disponibilidade, não há horas marcadas para o bebé mamar, não há hipótese de delegar, se o bebé não tiver o peso dentro dos parâmetros normais pode ser uma preocupação, até porque não há Conta-Kms (neste caso Conta-mL) para se verificar a quantidade de leite que o bebé mamou. Devíamos vir equipadas com esta opção, mas a natureza não nos dotou de tal equipamento. Assim sendo, se tiver um segundo filho, tentarei não stressar muito e viver bem com a opção que tome, sem culpas.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Mais uma verdade absoluta que era verde... veio um burro e comeu-a

Filho, tens uma cama nova montada no teu quarto à espera que te decidas. 
Não podemos dizer que é muito grande, apesar dos 90 cm por 200 cm contra os 60 cm por 120 cm do berço. Não podemos dizer que é alta demais. Não podemos dizer que vais sentir uma grande diferença entre o berço e a nova cama. Não podemos dizer que te vais perder no meio dos lençóis e do edredão tão grandes. Não podemos dizer que vais poder rodopiar tal ponteiro do relógio em dias em que o tempo passa muito depressa. Não podemos dizer que agora é que vais ter uma almofada do tamanho da nossa. A única novidade é que tens uma cama nova montada no teu quarto à espera que te decidas. Tudo o resto tu tens/fazes na nossa cama. Pois, e eu nem sou das que dizia "dormir na minha cama, nem pensar" porque achava que isso de não dormires na nossa cama era tão natural que nem requeria discussão. Toma lá mais uma verdade absoluta que era verde... veio um burro e comeu-a.
Deixa-me lá elucidar-te de como tudo isto aconteceu. Assim que nasceste, ainda no hospital, dormiste na minha cama, mas também dormiste no berço minúsculo temporário colocado estrategicamente ao lado da minha cama. Logo na primeira noite, depois de uma cesariana, para acalmar as supostas cólicas, a Enfermeira colocou-te em cima do meu peito. Uma sensação boa de estarmos ali, novamente só os dois, aninhados. A dificuldade chegou quando me tentei mexer, quando me quis levantar e, consequentemente, colocar-te no berço que estava ao lado da minha cama; remendada de fresco, sem capacidade para grandes manobras, lá consegui deitar-te ao meu lado, na minha cama. Acho que foi aí que tudo começou.
Em casa, nos primeiros dias, dormiste na alcofa da tua prima. Depois da 1ª consulta com a pediatra, em que esta nos disse que o bebé recém nascido dormir na cama dos pais aumenta o risco de morte súbita, apesar da vontade, nem pensei duas vezes; dormias na alcofa, no berço, ao colo, mas nem pensar que dormias na nossa cama. Não vivia a pensar na síndrome de morte súbita, mas tinha os meus medos. Acordava várias vezes para verificar se respiravas; deitava-te sempre de barriga para cima; a roupa da cama nunca ultrapassava os ombros; controlava a temperatura do quarto, não queria um quarto com uma temperatura muito elevada. Dormi de óculos e de luz acesa até completares 3 meses de vida, precisava de te ver assim que abrisse os olhos (a elevada miopia que tenho é o motivo de não ver um burro à frente, quanto mais um recém nascido), não podia perder tempo à procura dos óculos e do interruptor do candeeiro para ver se estava tudo bem. Depois, lá decidi comprar uma luz de presença e deixar os óculos em repouso (num ponto estratégico, debaixo de um dos cantos da almofada, para não os partir). Amamentei até teres 13 meses, mais coisa menos coisa, e lá para os 7/8 meses comecei a amamentar-te deitada, na nossa cama. Foi um descanso, adormecias e lá ficavas tranquilo; e eu deixei-me embalar pela nova rotina e pelo descanso que ela me proporcionava. Lá fomos adormecendo e ficando, de noite para noite, mesmo depois de a amamentação ter terminado, até agora.
A pediatra "deu-te" ordem de despejo do nosso quarto quando tinhas 6 meses. Eu, em pensamento, chamei-lhe louca. Como é que podia deixar um bebé de 6 meses sozinho num quarto situado ali mesmo ao lado? Desde então, ela pergunta sempre como é o teu sono. Ela sabe que ainda estás no nosso quarto, sempre demonstrei, inclusive, aversão à ordem de despejo aos 6 meses. O que ela não sabe é que ainda estás na nossa cama (nunca perguntou e eu nunca lhe disse), um dia conto-lhe.
Para já, para já o que te quero contar é que tens uma cama nova montada no teu quarto à espera que te decidas. Quando quiseres meu amor, estou pronta. Já sei que tu é que tens de estar pronto, não eu. Mas reforço a ideia, eu estou pronta.

Imagem retirada de Pinterest

Cá está o Burro do conto "Os Músicos de Bremen" depois de comer mais uma verdade absoluta. O raio do Burro, para além de tudo, ainda me goza.
Gosto tanto desta história. E Tu, filho, também. Olhamos para o livro e dizemos: o burro; em cima do burro está o cão; em cima do cão está o gato; em cima do gato está o galo. Coisas nossas. Um dia falo desta história, desta e de outras dos Irmãos Grimm.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

15 de Outubro: Dia Nacional para a Sensibilização da Perda Gestacional

A Associação Projecto Artémis quer fazer do dia 15 de Outubro o dia Nacional para a Sensibilização da Perda Gestacional. Foi precisamente no dia 15 de Outubro de 2012 que fiquei a saber que o coração do bebé sonho que trazia comigo parou.

Poucas semanas depois de me descobrir grávida pela primeira vez, deixei de ter vontade de escrever no diário que tinha iniciado. Os nomes de que gostava deixaram de me soar bem: apesar de estar no início da caminhada, já existiam nomes preferidos; de um momento para o outro nenhum destes nomes me fazia sentido. Elegendo um só nome de cada Género, Pedro e Helena eram os meus preferidos. O pai naquela altura ainda não tinha opinado muito sobre o tema, tínhamos tanto tempo para fazer listas de nomes e para decidir... Às vezes penso que era menina. Apesar de nenhum dos nomes me soar bem naquela altura, deixei de gostar do nome Helena (ainda antes de saber o desfecho da história), não o imaginava numa filha minha, ainda que temporariamente. Hoje, como antes, gosto muito do nome. Às vezes também penso que aquele bebé era menino: lembrei-me nesta altura (sabe-se lá porquê) de um boneco que a minha mãe me ofereceu quando eu já tinha 20 e tal anos, como que a apelar ao meu instinto maternal e a gritar desesperadamente que queria ser avó - até meias comprou para o boneco, talvez a Psicologia consiga explicar (eu não). Era um boneco com o tronco de pano, braços e pernas de borracha e rosto de porcelana, com um rosto de recém nascido muito realista. Inicialmente olhei para ela de lado, mas aceitei o boneco, passou a fazer parte da mobília lá de casa, comecei a gostar dele. Chamei-lhe Pedro - há muito que gosto deste nome. Um dia partiu-se, fiquei com pena, claro. Não era um boneco da minha infância, mas gostava dele como fosse. 
Dias ou semanas depois de me dizerem que o coração do meu bebé tinha parado, lembrei-me desta história (não são situações comparáveis, claro; foi uma lembrança que fui buscar). Ao meu bebé eu nunca chamei Pedro. Naquele momento de tristeza, não sabia se a vida me daria oportunidade de ter um Pedro ou uma Helena, ou se já ma tinha tirado. Aquele bebé nunca foi a Helena nem o Pedro. Podia ter sido, mas não foi. Aquele bebé, apesar de não ter um nome, foi o meu primeiro bebé.

No dia 4 de Outubro, com 8 semanas de gestação, a médica não ouviu os batimentos cardíacos no ritmo que era suposto. O tempo de gestação real podia não ser este e ela pediu-nos para regressarmos à consulta dentro de 8/10 dias, aproximadamente. Saí da consulta com o ritmo cardíaco acelerado, com medo, mas com esperança. Desassossegada.
No dia 15 de Outubro confrontei-me com o facto de o coração do bebé ter, definitivamente, parado. Foi o arrancarem-me definitivamente o sonho e a felicidade de ter aquele bebé. Acho que foi o pior dia da minha vida. A médica que fez a ecografia a dizer que é normal acontecer. As lágrimas a cair apesar das tentativas de guardá-las só para mim; não queria aquelas lágrimas, não por aquele motivo. A espera para entrar na consulta e falar com a minha médica. A enfermeira a chamar-me mãe. Mãe de um vazio, mãe de uma mão cheia de nada, mãe de coisíssima nenhuma. Não era mãe, nem estava no caminho para sê-lo, muito pelo contrário: estava a fazer o caminho inverso contra a minha vontade, sem saber se algum dia viria a ser mãe. Mas sentia-me mãe. A revolta por um lado, a tristeza por outro.
Num dia sentia vida, luz, felicidade e esperança dentro de mim. No outro, não sentia nada. Com a agravante do corpo não expulsar o que tanto desejara e ter de ser eu a decidir como o iria fazer. Dia 20 de Outubro, o derradeiro dia e o que mais me custou. Fui eu que decidi tomar a medicação, fui eu que fiz o que o meu corpo recusou fazer. O contar às pessoas que não estava grávida. A culpa por ter engravidado tarde. O medo de não conseguir voltar a fazê-lo. O desejo de ter um bebé, ter um bebé naquele momento. O choro que me acompanhou muitos dias. A tristeza que eu nem tentei disfarçar. A fragilidade. A espera pelo sinal do corpo. As idas ao médico. A luz verde para engravidar. O não ter engravidado no primeiro mês. O não ter engravidado no segundo mês. O teste positivo no terceiro mês. A alegria e o medo de mãos dadas a conviver como se se completassem. O contar a algumas pessoas que estava novamente grávida - a duas delas escrevi várias mensagens em folhas A4, na última lia-se que eu estava grávida. A emoção por tudo e por nada. A fé de que tudo correria bem. O vomitar nos primeiros seis meses de gravidez. Os enjoos durante toda a gravidez. O não gostar de estar grávida nos primeiros meses. O desejar não estar grávida. A culpa por sentir isto. O estado de graça que chegou no sexto mês. A alegria de ter o meu filho. O amor e a felicidade por ele nascer. Nascer de mim e para mim. Perdi um bebé imaginado nos mais doces sonhos no dia 15 de Outubro de 2012. Ganhei um bebé de sonho no dia 27 de Setembro de 2013, um bebé que tem um nome composto, do qual Pedro faz parte. Habitualmente não o chamamos de Pedro, mas ele é Pedro porque a vida me deu esta oportunidade. É o "meu Pedro" e ao contrário do esperado, já que toda a gente o conhece pelo segundo nome, este é o seu primeiro nome. Porque Pedro nasceu em mim antes de qualquer outro nome.

Imagem retirada daqui.

São momentos difíceis, são marcas que ficam, são sonhos que se desfazem. Sei que a minha história não é das mais dolorosas. Nessa altura descobri histórias reais de pessoas que tentaram engravidar anos e anos sem sucesso. Pessoas que depois de tantas tentativas, engravidaram para logo depois perderam os seus bebés sonho.  Uma vez, duas vezes, três vezes. Que dor. Que impotência. É uma realidade, existe, acontece mais vezes do que pensamos. Sensibilizar também é preparar para a intervenção. Assinei esta Petição.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Foi assim que aconteceu #4 - O mundo à tua espera

No dia 24 de Setembro de 2013, quando faltavam 3 dias para nasceres, eu escrevi:

"Filho, tens um mundo imenso à tua espera. Para além das muitas pessoas que te esperam, tens vários mundos para conhecer, vários enigmas para desvendares, várias opções entre as quais podes escolher.
Eu quero mostrar-te tudo, quero fazer com que aprendas o mundo, quero que reconheças e diferencies as coisas boas das coisas más, quero orientar-te, quero apoiar-te, quero repreender-te quando for necessário, quero acompanhar-te, quero aplaudir-te e quero, sobretudo, respeitar-te e amar-te.
O mundo tem tantas coisas, tantas coisas, que nem que eu quisesse as conseguiria descrever - umas porque não me lembro delas, outras porque não as conheço.
No entanto, existem alguns “mundos” que faço questão de te falar, desde já:
Quero mostrar-te o mundo dos brinquedos, para que aprendas que brincar é importante; Quero mostrar-te o mundo das palavras, para que possas comunicar; quero mostrar-te o mundo dos livros, para que possas escolher os que mais te interessam; quero mostrar-te o mundo dos sentidos, de maneira a conseguires tirar o máximo proveito deles; quero mostrar-te o globo, para teres uma noção da imensidão do mundo e para escolheres o que dele queres descobrir; quero mostrar-te o mundo familiar, para que saibas e sintas que tens uma família e para aprenderes que existem outros modelos de família; quero que descubras o mundo da fantasia, para que a distingas da realidade; quero que descubras o mundo dos sonhos, para que aprendas que podes alcançá-los; quero falar-te do mundo dos amigos que, quando verdadeiros, são o melhor que podemos ter; quero que conheças o mundo das profissões para fazeres as tuas opções conscientemente; quero suscitar o teu interesse pela arte, no entanto o que vais apreciar é uma opção só tua; quero ter experiências gastronómicas contigo para decidires o que gostas; quero falar-te do mundo das emoções, para que saibas que não há qualquer problema em demonstrá-las; quero falar-te do mundo das desilusões, para que saibas que existem e para estares preparado quando te deparares com alguma; quero mostrar-te o mundo da natureza - o mar, a serra e o campo – para veres o quão perfeito é; quero mostrar-te o mundo dos animais e das árvores, para saberes identificá-los.
Quero mostrar-te tanta, tanta coisa. Estás preparado? Eu também não. Vamo-nos preparando ao longo dos anos. Temos a vida inteira: eu, para te mostrar muitos mundos já meus conhecidos; tu para me fazeres descobrir novos mundos.
Para já, para já, tens aqui o mundo maternal, cheio de amor, à tua espera!"

domingo, 27 de setembro de 2015

Hoje fazes 2 anos e eu não tenho pena

Hoje fazes 2 anos e eu não tenho pena. 
Não tenho pena de não te der dado colo mais vezes. De não te ter mimado e abraçado sempre que me apeteceu ou sempre que me pediste. De não ter passado a minha mão no teu rosto para te acalmar sempre que te vi mais agitado ou incomodado. De não te ter beijado quando te magoaste. De não ter passado o dia inteiro contigo ao colo quando o teu primeiro dente rompeu e tu fizeste a primeira febre. De não te ficado contigo a tempo inteiro até aos 8/9 meses e a meio tempo até aos 13. De não te ter deitado mais vezes na minha cama e de não te ter dado mais colo para não te habituar mal. De não ter ido ao parque contigo mais vezes. De não ter deixado a casa por arrumar para sair e brincar contigo. De não te ter mostrado muitas coisas que fazem parte da natureza, tais como os animais e as árvores, calmamente. De não ter ido contigo pela primeira vez à piscina e à praia. De não ter conversado mais contigo quando apenas palravas. De não te ter dado a mão quando deste os primeiros passos. De não ter corrido a levantar-te quando deste a primeira queda mais aparatosa. De não te ter incentivado a ultrapassares os teus limites e apoiado as tuas novas experiências. De não te ter ensinado a pedir ajuda quando precisas. De não ter estado contigo quando comeste a primeira sopa, a primeira papa, as primeiras frutas. De não ter proporcionado o teu primeiro desenho. Eu não tenho pena porque fiz tudo isto (e mais do que isto). Muitas destas coisas continuo a fazer e muitas outras farei (assim o desejo).
Eu olho para as fotografias de quando eras recém nascido e sinto saudades. O tempo passa depressa, é verdade. Depressa descobri que não posso voltar atrás. Devemos aproveitar bem todas as fases dos nossos filhos, concordo. Por vezes sentimos culpa. Mas, talvez por ter ouvido tudo isto tantas vezes antes de ser mãe, eu aproveitei-te bem. Eu vivi-te. Vivi cada segundo desta experiência que é ser tua mãe e tu seres meu filho. E aos dois anos desta viagem, eu não sinto pena. Saudades ou nostalgia sim, pena não. E só peço que continue assim, porque passe o tempo depressa ou devagar, eu quero aproveitar-te, quero viver-te e não quero sentir pena.
Tu, bebé de amor, ensinaste-me isto: A viver mais e melhor todos os dias.
Com todo o meu amor, desejo, como sempre, que tenhas um terceiro ano de vida feliz, muito feliz!
Tu és, simplesmente, a melhor coisa do mundo.
Obrigada mundo por me teres dado este filho!

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

A viagem na carrinha do pai Pirata

O Índio Pirata, com quase 2 anos, não frequentava a creche; enquanto os pais iam trabalhar, o pequeno Pirata ficava com a Carmo, uma senhora com uma imagem muito delicada e uma pessoa muito doce. Era muito paciente, muito meiga e tinha um jeito inato para cuidar de crianças. Não eram poucas as vezes que eram vistos a passear: ora eram vistos na estação a ver passar os comboios, ora eram vistos a comer uma torrada no café da esquina ou, simplesmente, a dar uma volta ao quarteirão logo pela manhã. Por vezes, também eram vistos no parque em correrias e brincadeiras. O Índio Pirata chegava ao final do dia cansado de tanta brincadeira e as nódoas estampadas na sua roupa espelhavam bem o quanto ele tinha liberdade para se divertir. 
Antes de iniciar os dias com a Carmo, o pai Pirata levava o pequeno Índio numa carrinha especial. Criaram, com esta pequena viagem matinal, uma rotina só deles em que a mãe Índia era excluída. O transporte escolhido foi uma carrinha branca antiga e alta com umas escadas na porta traseira. O Índio Pirata sempre que via passar carrinhas semelhantes gritava pela carrinha do pai e quando o via chegar, ao final do dia, sorria com orgulho. Era a carrinha dos dois.
Era o argumento de ir na carrinha do pai que acalmava o Índio Pirata quando as birras matinais espreitavam. Era na mesma carrinha, com a cadeira do Índio no banco da frente, que o pai lavava os vidros com água do pára brisas. Era à porta grande e pesada desta carrinha que a mãe Índia, em dias em que descia as escadas para ajudar o pai Pirata com os sacos, se despedia dos dois. Era nesta pequena viagem que os dois se divertiam a ouvir música e criavam rotinas a dois. Só dos dois. E à noite, antes de dormirem, conversavam sobre a primeira viagem do dia, como se todos os dias acontecessem coisas diferentes e tivessem novidades para contar.
A mãe Índia desconfiava das peripécias que eles contavam, desconfiava até que eles as inventavam. Umas vezes era a Gata de saltos altos, carregada com os sacos das compras, que ralhava com eles porque iam muito depressa. Outras, era o cão perna longa que se vestia de polícia sinaleiro e os mandava parar só para ouvir a música que eles ouviam de manhã. Algumas vezes, era o pombo que viveu na varanda Este que lhes pedia boleia. Outras ainda, era a desculpa de o comboio ter estacionado na Rua dos Inventores. Até o pato do tio Carlos lhes aparecia para tomar banho com a água do pára-brisas da carrinha. Tudo servia de desculpa para justificar os seus atrasos. A verdade é que eles todos os dias se divertiam, todos os dias tinham uma novidade; nunca saberemos se as histórias que contavam eram verdadeiras ou falsas. É e será sempre um segredo entre o pai, o filho e a carrinha. A carrinha que os conduzia neste percurso era especial, muito especial, não abria a boca para contar nada do que se passava nas viagens matinais. Quase que se pode afirmar que as aventuras matinais eram a três.
Um dia, a carrinha branca, já velhinha, deixou de conseguir fazer a viagem matinal. Estava cansada, não suportava tanta emoção e tanto passeio logo de manhã. Decidiu que iria viver junto ao mar, mudar de visual, descansar e fazer caminhadas curtas. Combinaram, no entanto, que continuariam a viajar juntos 1 vez por semana, com as peripécias e alegria do costume. A frequência com que viajavam na carrinha diminuiu, mas o carinho que sentiam por ela perdurou.
A carrinha branca depois de ter mudado de visual e de ter ido viver para a beira mar:


Créditos de imagem: Wishªcolor

Filho, tu fizeste muitas viagens com o teu pai na carrinha branca de que fala o texto. Este era, efetivamente, um momento dos dois, eu não ia convosco de manhã. É claro que a parte dos animais é invenção minha, no entanto, a água nos vidros, a música e a euforia com que faziam aquela viagem são reais.
Fazendo a analogia com a carrinha do texto, lembra-te que as pessoas, por vezes, deixam de nos poder ajudar/apoiar/acompanhar. Por vezes, não nos podem valer. O importante é que nos valeram, nem que tenha sido uma única vez. O importante é que reconheçamos e sejamos gratos por isso. Ninguém deixa de ser importante para nós só porque deixa de nos ser útil.
Hoje, fazes 23 meses. Parabéns, Índio Pirata da mãe.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Nos últimos dias...

- O meu filho já convida amigos para jantar. Agora teima em levar o Pirata e o Peter Pan para a mesa, faz-me pôr uma colher de sopa numa tigela pequena e dá comer aos amigos. Se decido que terminou a brincadeira (a bagunça), ele chora. Muito. Com lágrimas e tudo. 
Começaram por ser amigos do banho, passaram a comer connosco à mesa e, agora, já dormem na nossa cama. O que é que se segue?
- Do alto do nosso terceiro andar, pela janela do quarto, descobre que o carro da tia está lá em baixo e grita "Olha, popó da tia". Como é que é possível ele reconhecer o carro da tia? Lembro-me de ir passear com o meu afilhado, ele era pequenino, olhava para os símbolos e dizia-me as marcas dos carros. Já eu, com esta idade, tenho de pensar bem qual é a marca do carro da minha irmã. E da minha mãe. E de qualquer pessoa. Sei qual é a marca do nosso e é uma sorte.
- Adora ver garagens. Fica eufórico quando vê aquela porta grande e imponente a abrir, quando vê os carros saírem lá de dentro. Relativamente a algumas garagens, diz que os carros sobem a rampa e vão para a estrada.
- Vamos ao parque, empoleira-se no escorrega grande e chama pela prima e pela tia. Depois diz que não estão cá, que estão em Lisboa.
- Nos últimos dias o pai retira-o da cadeira que está na carrinha e coloca-o ao volante. Ele mexe nos botões do rádio, no volante, nos piscas, nos botões do pára brisas e buzina. É uma festa.
- Pergunta repetidamente: Como chamas? Eu digo o meu primeiro nome, ele diz o segundo.
- Não quer ir para casa, por ele estávamos sempre na rua. Culpa minha.
- Fala ao telefone com o avô, diz que ele tem bigode.
- Anda louco com os comboios, adora ir vê-los à estação.
- Eu ando louca com ele, adoro-o! Cada vez mais.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

A brincar é que a gente (pequena) se entende #5 - Caça ao tesouro/Descobrir o jardim

SENTIDO DE ORIENTAÇÃO: QUANDO ELE QUER IR PARA UM LADO E EU PARA OUTRO
Vou muitas vezes ao parque com o catraio. Já o escrevi antes. 
Anteontem fui buscá-lo já com o parque infantil marcado no GPS (no meu). Chegámos ao Jardim, perguntei-lhe de que lado fica o portão do parque, deixei-o guiar-me, deixei-o correr à minha frente. Ignorou a minha questão, fez pisca e virou para o lado contrário. O coreto chamou por ele e ele, ignorando as minhas vontades, foi atrás dele. Quis subir as escadas do coreto, abrir as portas do coreto, correr à volta dele. Eu, de vez em quando, lá lhe perguntava se queria ir ao parque, mas ele ignorava-me. A dada altura perguntou-me pela porta de entrada, baralhou-se com o facto de andar à volta daquele palco. Eu respondi que tinha de tentar encontrá-la (vamos lá procurá-la, disse-lhe). Lá a encontrou, lá subiu e desceu as escadas várias vezes. Juntaram-se a ele duas meninas que fingiram estar num concerto. Ele lá correu, imitando-as e rindo. Rindo à gargalhada. Agora é isto, infiltra-se nas brincadeiras de miúdos mais crescidos, imita-os e ri como se eles estivessem a fazer ou a dizer alguma coisa com muita piada.
Saímos do coreto. Eu, com muita confiança de que iríamos para o parque, ele com vontade de correr. Correu em direção ao lago, depois em direção ao bebedouro, sentou-se no degrau, subiu para o banco de pedra. Só depois é que fomos para o parque porque, confesso, o peguei ao colo. 
Gosto que ele tenha opção de escolha, que experimente brincadeiras novas, que explore o meio em que estamos, que experimente alternativas, que não seja sempre orientado/ou guiado por nós. Só tenho de aprender a aceitar que ele tem um papel ativo no que respeita a decidir para onde vamos. Talvez eu quisesse mesmo ir ao parque, andar de baloiço, descer o escorrega, correr e cair. Mas, se essa era a minha vontade, tinha ido ao parque sozinha... Eu não digo que gosto mais do parque agora do que quando era pequena!?

Andar ou correr no jardim, andar à procura de um determinado sítio que está no jardim (o parque, a igreja, o coreto, o café, por exemplo), fazer uma corrida, perguntar-lhe para que lado fica isto ou aquilo e dar-lhe oportunidade de descobri-lo são formas de ele desenvolver o sentido de orientação. É que se for genético, a avaliar pelo meu (ou a falta dele), é bom começar a treiná-lo já.

Imagem retirada da Internet: fonte desconhecida

SUGESTÃO DE ATIVIDADE:
Com crianças mais velhas, podemos imprimir um mapa do jardim/sítio em questão (retiramos da Internet, do Google Earth, por exemplo). Assinalamos um percurso com um marcador de cor forte, com o ponto de partida e com o ponto de chegada assinalados com um círculo. Dependendo da idade, podemos pedir para ser a criança a identificar, no local, o ponto de partida que assinalámos no mapa. Convém que existam marcos do espaço bem visíveis, tais como, o lago, o parque infantil, etc.
Para além do percurso que têm de fazer, podemos dar instruções de desafios adaptados à idade em determinados pontos - "apanha três folhas do chão e guarda-as no saco que te entregaram no início do jogo", para crianças que comecem a ter a noção do que o número representa, por exemplo.
O percurso pode ser feito com dois grupos, com dois percursos diferentes, mas semelhantes em dimensão e em número e dificuldade dos desafios, de maneira a ver qual é o grupo que chega em primeiro lugar ao ponto de chegada. Ou não, depende da idade dos elementos de cada grupo.
Podemos aumentar o grau de dificuldade, deixando pistas em alguns pontos assinalados no mapa (por exemplo, segue em frente, vira à direita, descobre os paus de giz que estão perto do banco de madeira verde/faz um desenho no chão).
Podemos criar uma história em torno desta brincadeira. A imaginação de cada um é o limite e a idade e o desenvolvimento da(s) criança(s) também.
No ponto de chegada preparamos uma surpresa (um lanche para se fazer um pic-nic, um presente, um bilhete para ir ao cinema, uma ida à praia, etc.). Podemos chamar-lhe caça ao tesouro. É simples de preparar, toda a família pode participar e divertir-se.
Deixamos as crianças fazer a leitura do percurso assinalado no mapa, deixamos que se enganem, que recomecem, se for necessário. O importante é que se divirtam e que aproveitem os dias grandes para brincar na rua.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Reflexões profundas (ou não) #7 - Autonomia, refeições e chão limpo

Dar-lhe o comer à boca até aos 18 anos dava-me menos trabalho do que deixá-lo comer sozinho. 
É tudo muito bonito quando falam em ajudarmos os nossos filhos (no meu caso é só um, mas a avaliar pelo chão no final de cada refeição, parece que são 4) a serem mais autónomos, mas eu ainda estou à espera de recuperar a minha autonomia no que respeita a manter o chão da cozinha limpo. E quando aquela cabecinha decide que não quer mais e atira o prato para o chão!? É fofinho, não é? Eu também achava, quando via imagens de episódios semelhantes na Internet.
Comecei a explicar-lhe que quando não quiser mais só tem de dizer, "mamã/papá não quero mais"; que, depois de ele nos dizer que não quer mais, um de nós retira o prato de cima da mesa e coloca-o no lava-loiça. Ele olha para mim com ar de quem está a pensar: Que graça é que isso tem?

Imagem retirada daqui

Também já passámos pela fase de o miúdo fazer do prato um chapéu. Não nos podemos queixar que não tenha imaginação. Só do chão sujo. E da mesa suja. E da roupa suja. E do cabelo sujo. 
Agora, falando de coisas sérias, lá em cima também é um desabafo sério, defendo que eles comecem a comer sozinhos desde cedo, desde que queiram e consigam, que experimentem a textura de diferentes alimentos, que tenham opção de escolha. Facilito-lhe essas possibilidades há bastante tempo. Mas isso não invalida que não reivindique o chão da cozinha limpo. Um dia, esse dia chegará.

sábado, 15 de agosto de 2015

Sábado de manhã...

... Com temperaturas que não são de Verão.
... Com o pai a tentar explicar ao filho, durante 30 minutos, que deve comer o queijo com pão. Ele exemplifica ao dar uma dentada no pão e depois no queijo. O miúdo lambe o pão, simulando que lhe dá uma dentada, e come o queijo. Depois, deixa de pedir o queijo e começa a pedir o prato que tem o queijo e, com o seu jeitinho, lá vai comendo o queijo e deixando o pão. O pai diz que a mamã também está a comer o queijo com pão. Depois, olha para para mim e sussurra "ela não é um bom exemplo". Eu adoro queijo. Sem pão. Não compreendo essa pressão de se comer sempre pão com queijo. 
... Com o miúdo a dizer-me que a pata do livro está crescida, que a rã tem areia nos pés e que a temos de varrer. A dizer que o senhor que se está a afogar deu um mergulho. Ele conta as histórias através da descrição das imagens dos livros. Gosto disto.
... Com um passeio de bicicleta a três. Há anos que não andava de bicicleta!
... Com um almoço fora, barato, no sítio do costume.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Ir à farmácia com o miúdo, nunca mais

Vou à farmácia com o miúdo comprar umas coisas que o pai pediu. Tiro uma senha prioritária, passo à frente das pessoas que, por isso, olham para mim de lado. As pessoas ainda não interiorizaram muito bem o que são senhas e caixas prioritárias. Sou o centro das atenções. O miúdo aponta para umas embalagens tipo roll on que estão num expositor e diz em voz alta PAI. Eu não ligo. O empregado atende-me com bastante simpatia, excessiva até. Ao pagar finto o raio do expositor com mais atenção... As embalagens são da marca D-u-r-e-x. Saio com pouca vontade de lá voltar.

Eu juro que não temos nenhuma destas embalagens lá em casa. Se tivéssemos estava justificada a exclamação do miúdo. Nunca mais vai comigo à farmácia, está decidido.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Barómetro de crescimento #5

Há 1 ano e meio/1 ano e 10 meses choravas quando tinhas fome, quando tinhas frio, quando querias colo, quando tinhas dores. Basicamente, choravas por tudo o que te incomodava. Dizem que as mães reconhecem todos os tipos de choro. Temo não ter reconhecido algum, por vezes, não te consegui acalmar à primeira, nem à segunda... O de fome era, efetivamente, inconfundível, mas em relação aos restantes, tenho algumas dúvidas.

Hoje tudo mudou, compreendo-te, sei bem o que queres e o que precisas. É simples, tu dizes, tu pedes (vá, a minha capacidade de interpretação também melhorou bastante):
- Mamã! Anda cá mãe!
- Quer colo.
- Está frio/Está quente.
- Quer água.
- Quer leitito/Quer queijo/Quer pão/Quer boachas/Quer carnicha/Quer pesso (pêssego)...
- Chocoate, quer! É suposto nem saberes o que isto é, entendido?
- Quer rua.
- Olha! O avião/Olha! A garagia (garagem).
- O que foi?
- Quer ir ao parque/Quer ir à rua.
- A basaqueta/bachaqueta (bicicleta).
- Quer o capacete/capachete.
- Quer brincar?
- O livro!? Do coelho.
- A Júlia?
...

Hoje, a dificuldade não é a interpretação, mas sim o meu poder de argumentação a alguns dos teus quereres. Ora vejamos um exemplo de um dos nossos últimos diálogos:

Eu: Filho, quantos anos fazes?
Ele: Dôs (dois).
Eu: Vamos fazer uma festa!?
Ele: A Matilde.
Eu: Queres que a Matilde venha à tua festa?
Ele: Aqui!!
Eu: Queres que ela venha aqui?
Ele: Siiiiiiim.
Eu: Mas a festa não é aqui.
Ele: Aquiiiii!!
Eu: Aqui em casa casa!? Mau! Já começas? Tu só viste a Matilde 1 vez.

...Mas de vez em quando ele pergunta por ela. 

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

O Índio Pirata foi de férias

O Índio Pirata rumou a sul do seu país para uma semana de férias com os seus pais no final de Julho. Já tinha estado naquele distrito há cerca de 1 ano, mas é bem possível que não se lembre muito bem dos acontecimentos. 
A rotina diária das férias (bolas, até de férias há uma rotina, ainda que muito flexível) começava por acordarmos quando o galo Índio dava o grito de alvorada "Quero leitito". Passava por ter pequenos almoços tranquilos e sem pressas com pão quente que o pai ia buscar logo de manhã, por ir beber café na esplanada, por idas à praia até às 11h/11h30, por regressos a casa para dormidas e almoços sem pressas, por retomar as brincadeiras de praia às 17h, por passeios no carrinho, por regressos a casa sem stress. Os dias terminavam quando o sono chegava, por vezes, com passeios na rua que o faziam adormecer no carrinho.
Tínhamos 2 supermercados perto de casa, estávamos a 1 minuto a pé da praia e só pegámos no carro 1 dia para ir ao nosso amado concelho de Lagos.
Ele adorou a praia, as brincadeiras na água e com a água. Molhava as mãos na água salgada e levava-as à boca. Divertiu-se com a areia e comeu-a. Apanhou pedras à beira mar e não foram poucas as vezes que as tentou ingerir (não posso jurar que não tenha engolido alguma). Ele fez a sua primeira amiga de Verão, não sei se foi uma amizade colorida, ele não nos contou pormenores. Chama-se Júlia, vive na Suiça e tem quase o dobro da idade dele, mas daqui a uns anos a diferença de idades não se nota. Ele hesitou os pulos na água que habitualmente gosta, talvez por a água estar gelada, mas quando a via entrar na água lá corria para a beira mar como que a enfrentar o inimigo, só para se armar em forte. Comprámos-lhe uma pequena piscina que para um não era assim tão pequena, mas para dois tornou-se minúscula. No próximo ano teremos de ter em consideração eventuais amizades. Ele chegava à praia e lá vinha ela ter com ele e ele, de vez em quando, perguntava por ela. No último dia brincou num daqueles barcos que alugam na praia e saltou à corda (daquelas que estão na areia a delimitar zonas).
Andou muitos dias sem fralda, fez muito xixi no chão e até cocó. Também fez cocó no bacio, mas, sinceramente, acho que ainda não está preparado. Ou sou eu que não estou, não sei.
Ele andou descalço e nu pela casa. Subiu e desceu cadeiras e sofás. Comeu kiwi que se fartou e disse que era verde, já à melancia não achou tanta graça. Os seus brinquedos preferidos foram, um daqueles carrinhos de supermercado que nós pedimos emprestado para levar as compras no dia em que chegámos e que só devolvemos no último dia (desculpem lá senhores, mas o miúdo elegeu o vosso carro como o seu brinquedo preferido de férias), um garrafão de água vazio e o cesto das molas com as respetivas. A loucura. Comeu quase tudo sozinho e era habitual ver sopa por todo o lado e o chão todo sujo. O normal, portanto. Ajudou a lavar e a cortar as alfaces. Sempre que o mandámos pôr qualquer coisa no lixo, ele cumpriu. Rebolou muito no chão da sala. E o pai também.
No dia em que fomos a Lagos, brincou com a prima. Tomou duche numa espécie de chafariz/lago que há no centro da cidade. Almoçámos fora e viu as sapateiras e companhia que estavam no aquário do restaurante. Fomos os três, pela primeira vez, ao bar que costumamos ir sempre que passamos férias em Lagos. Foi tão bom estar lá com ele. A última vez que estivemos lá eu estava grávida, enjoada das unhas dos pés às pontas dos cabelos.
Regressámos a casa com algumas peripécias pelo caminho, mas felizes pelos dias de férias que tivemos e com pena de ter sido apenas 1 semana. O carro avariou, o miúdo teve febre no dia em que regressámos, apareceram-lhe borbulhas nas pernas e nos braços, fomos ao médico e o resultado foi um diagnóstico de amigdalite viral e desconhecimento acerca da origem das borbulhas (calor, alergia a alguma alimento, eventualmente), mas já andamos por aí a passear.
Agora, quando ouve algum barulho estranho ou uma conversa com um tom diferente pergunta "O que foi?". Está um cusco, é o que é. Continua a perguntar frequentemente "O que é ito?". Pergunta pela Júlia e pela Matilde. Fala mais, constrói mais frases. E eu, olho para as fotografias das férias do ano passado e comparo-as com as deste ano e vejo claramente o que ele cresceu: Está mais autónomo, está mais papagaio, está mais alto, faz-nos mais companhia, já tem opinião sobre o que quer e o que não quer. Do ano passado para este começou a andar, a falar, a embirrar. E nós continuamos a olhar para ele, a olhar para o que ele já faz, a olhar um para o outro e a sorrir, com aquele sorriso meio nervoso e orgulhoso igual ao que esboçávamos nos primeiros dias da sua existência.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

O pombo que vivia na nossa varanda

O Índio Pirata vivia num terceiro andar de um prédio sem elevador com os seus pais, o pai Pirata e a mãe Índia. A sua casa tinha duas varandas, uma virada a Este e outra a Oeste. A varanda virada a Este dava para as traseiras do prédio onde viviam e para os quintais dos vizinhos do outro prédio. Era habitual ver os pombos, que cirandavam pelos telhados, pousarem no parapeito desta varanda. Do lado Oeste era normal ouvirem-se os passarinhos cantar logo pela manhã e as árvores a abanar quando estava muito vento.
Um belo dia, o pai Pirata achou que seria interessante colocar na varanda Este uma cadeira de palha para se sentar a beber uma "água fresquinha" ao final do dia, quando chegasse do trabalho. Num outro dia, não tão belo, em que a mãe Índia não aguentava tanta coisa desarrumada, o pai Pirata, cansado de a ouvir refilar, decidiu arrumar a lenha debaixo da dita cadeira. Na verdade, o pai Pirata montou o lar perfeito para um dos pombos que rondavam aquela zona. O pombo começou por pousar no parapeito da varanda mais vezes do que o habitual. Depois, foi ocupando a cadeira. Por fim, foi ficando para dormir adotando a varanda como o seu verdadeiro lar. Ninguém tinha direito a ir àquela varanda porque o Sr. Pombo julgava-se senhor e dono da mesma, parecia até que tinha celebrado um contrato de aluguer em que uma das cláusulas era não ser incomodado.
O Índio Pirata delirava com o pombo que vivia na sua varanda, apesar de se encolher quando a ave levantava voo. Era quase como se fosse o seu animal de estimação, no entanto, visto através do vidro da janela. Quando chegava a casa perguntava pelo pombo. Em dias em que as birras se apoderavam do Índio Pirata à hora de jantar, os pais falavam-lhe do pombo e levavam-no à procura do animal através do vidro da janela da varanda, afastando-o assim das suas crises existenciais (birras). E resultava. Na rua, quando via pombos, gritava e corria atrás deles, ainda que se encolhesse quando os animas voavam muito perto dele. O pombo, não chateando muito, não deixava a família Índio-Pirata utilizar a varanda. Esta estava sempre suja.
Foi então, que os pais decidiram que queriam a sua varanda de volta. Acharam também que o pombo, ainda pequenino, devia estar junto dos seus pais, era muito novo para viver sozinho. Por isso, resolveram retirar da varanda todos os objetos que o tinham cativado a viver ali, nomeadamente a lenha e a cadeira. O pai Pirata retirou o material da varanda e esperou que o pombo desaparecesse, o Índio Pirata continuou a perguntar pelo pombo e a mãe Índia sabia que aquela "ordem de despejo subtil", apesar de ser justa e necessária, iria demorar alguns dias a concretizar-se. E assim foi, o pombo foi aparecendo, meio confuso como se lhe tivessem assaltado a casa, questionando se se teria enganado na varanda. No entanto, como via o Índio Pirata sabia que estava no sítio certo e insistia em aparecer e ficar na sua varanda. Os pais do pombo estavam felizes porque, no meio destas dúvidas, o pombo ia e vinha da varanda Este à casa dos seus pais com regularidade.
Os pais do Índio Pirata explicaram-lhe os motivos pelos quais o pombo tinha deixado de viver na sua varanda e disseram-lhe que, apesar disso, ele e o pombo podiam continuar a ser amigos, desde que quisessem. E assim foi. O pombo passou a viver no conforto de uma casa cuidada pelos seus pais, rodeado de mimos e atenção. O Índio Pirata e os pais puderam, finalmente, começar a utilizar a sua varanda do lado Este. O pombo todos os dias vinha espreitar o menino por entre o vidro da janela da varanda. Os dois riam-se, cúmplices, como se se estivessem a cumprimentar. Continuaram a ser amigos por muitos e muitos anos. Quando o Índio Pirata, já adulto, comprou a sua casa, o pombo foi convidado a conhecê-la e não eram poucas as vezes que o visitava. Pousava no parapeito da sua varanda, também ela localizada no lado Este, e ali ficava à espera que o Índio Pirata lhe sorrisse. Ele sorria-lhe, o pombo retribuía e levantava voo.

Créditos de imagem: Wishªcolor

P.S. Vou já avisando que o animal que está no braço do Pirata é um Pombo. Está é mascarado de Papagaio Pirata Maluco.

Filho, existiu mesmo um pombo que viveu, durante uns tempos, na nossa varanda e tu gargalhavas quando o vias. Desculpa a distorção da realidade, mas não sei se ele era pequenino, nem sei se voltou a viver com os pais. Achámos que a justificação dada com estes argumentos era mais fácil de entender. Precisávamos mesmo da nossa varanda e um pombo não é animal que possamos ter em casa. A mensagem que te quero transmitir é a do valor da amizade. Se for verdadeira manter-se-á para sempre. Preserva os amigos.
Pessoalmente, não gosto de pássaros em casa, acho que eles nasceram para ter o céu como limite, para voarem, para serem livres. Quanto a ti, desejamos que ganhes asas e alcances os teus próprios limites. E que o céu não te limite.
Parabéns pelo teu 22º mês de vida e um beijo da tua mãe.

domingo, 26 de julho de 2015

Avós: Os meus e os teus.

Quando nasci os meus quatro avós ainda eram vivos. Tinha ainda uma bisavó materna. Lembro-me de ter orgulho em dizer que tinha quatro avós e uma bisavó. Era normal ter 4 avós, mas lembro-me de muitas amigos já terem perdido algum, de um lado ou de outro. Eu achava que tinha a maior riqueza do mundo porque tinha os quatro mais o bónus da bisavó. Tive maior proximidade com os avós maternos porque os meus pais separaram-se quando eu tinha 2/3 anos, mas tenho recordações boas dos avós paternos. Na verdade, as melhores recordações são as das duas avós, ambas divorciadas por motivo de desrespeito e de maus-tratos.
A minha avó materna foi mãe substituta, aquela que fazia a nossa comida preferida, aquela que corria para fazer um doce quando lhe dizíamos ao telefone que íamos visitá-la, aquela que nos cortava a fruta porque, coitadinhas de nós, nos podíamos cortar, aquela que zelava pelo nosso bem estar, aquela que nos dava colo e que estava sempre do nosso lado. Ainda hoje é assim. Ela viveu na nossa casa durante alguns anos e o instinto protetor, os mimos que nos dava a título gratuito sem pedir nada em troca são património da nossa formação moral e a melhor herança que podemos ter. Lembro-me de querer ficar com ela por me sentir livre, por me sentir criança de verdade, sem responsabilidades, livre de pressões.
A minha avó paterna era alta, muito alta para a época em que nasceu, tanto, que os sapatos eram feitos por encomenda. Era delicada. Tinha um olhar verde transparente, tão transparente que quase lhe líamos o pensamento através do olhar. Tinha uma beleza fora do normal e calhou-lhe um destino traiçoeiro. Eu gostava muito dela e sentia no seu olhar e no seu sorriso sincero e puro que ela também gostava de mim. Ela não esteve mais presente na minha vida porque o meu pai ausentou-se da minha vida por alguns períodos de tempo, ou eu ausentei-me da dele, não sei. Ela não esteve mais presente na minha vida porque não me conseguia alcançar, eu vivia longe e ela não podia caminhar na minha direção. Viveu muitos anos numa cadeira de rodas e dependente de todos. Tenho saudades dela, foi uma referência para mim. Lembro-me de as pessoas dizerem que me parecia com ela, mas não. Ela era tão mais bonita, tão mais singela e delicada do que eu. Dela, não herdei o mesmo cuidado e proteção que herdei da minha avó materna, mas herdei o amor e o carinho que me tinha.
Do meu avô materno, recordo-me que vendia gelados em mercados, que me oferecia um gelado de vez em quando, que, até uma certa idade, nos levava ao mercado na época de Natal e no aniversário para nos comprar roupa nova. Não me lembro de valores, mas lembro-me de traços da sua personalidade que eu não queria ter. Ele tratou mal a minha avó e eu tomava as dores dela como minhas.
Do meu avô paterno, lembro-me de o ir visitar à terra, da casinha modesta que tinha e de o ver andar de carroça puxada por um burro. Acho que a minha avó se apaixonou por ele quando o viu montado num cavalo branco. Ouvi esta história, mas não sei descrever bem como foi. A verdade é que, no final desta história que podia ter um final feliz, não foi amigo nem companheiro da minha avó.

Filho, infelizmente, já não tens avô materno. Mas tens duas bisavós. Desejo que construas boas recordações dos teus avós, tenho lutado por isso apesar de todas as dificuldades. Não tem sido fácil, aliás, é cada vez mais difícil.
Desejo que os teus avós te transmitam valores, que marquem a tua personalidade com mimos e risos, que te amem. Que te amem muito, mas que não minem a família nuclear que somos nós os três. Não permito maldades, não permito deturpações da realidade, não permito intrigas gratuitas, não permito obsessões, não permito falsas moralidades. Se for para te amarem, que te amem, sem interesses e sem cobranças. Porque o amor de verdade é assim, mas há pessoas que não o sabem.
Espero que descubras através dos teus avós, familiares e amigos o verdadeiro valor do amor simples e despretensioso. No fim de tudo isto, é o que importa. Desejo que construas boas memórias de vivências com os teus avós e que eles permitam que as guardes no coração. E que um dia, tal como eu, decidas em consciência quais são as tuas melhores recordações. É bom ter avós!

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Barómetro de crescimento #4

Por vezes compro roupas online para ti. Costumava selecionar a opção "Bebé Rapaz" para visualizar as ofertas. Agora, já tenho de selecionar a opção "Rapaz".
Onde foste tu, bebé Rapaz? E tu Rapaz, vieste de onde!?

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Adeus fim de semana, férias à vista!

Uma ida à piscina. Uma conversa de corredor com uma prima do pai. Um almoço na casa da avó enquanto a mãe limpou a casa e o pai foi às compras. Alinhamento de direção do automóvel - o pai lá de casa diz que fui eu que desalinhei aquilo, este homem inventa com cada uma. Ir a Carcavelos. Um jardim. Um picnic. Um aniversário de uma menina linda que só conhecemos hoje. Rever um bebé que já tem 4 meses. Chutos na bola. Brincadeiras na relva. Conversas soltas. Deixar cair um saco e ficar tudo espalhado no chão; uma menina de patins que passa por nós e pergunta se queremos ajuda; respondemos que não; ela diz que insiste - baixou-se e ajudou-nos, que doce de miúda. Uma outra miúda  a dar pão aos patos. Desfile de pombos no jardim. Um parque diferente. Rir à gargalhada. Dar uma cabeçada no baloiço. Ver o Rio Tejo da janela do carro. Regressar a casa. Dormir. Acordar. Uma segunda feira que chega. Entrar em contagem decrescente para as férias. O fim de semana foi assim e assim estamos nós. Adeus fim de semana , férias à vista! 

sábado, 18 de julho de 2015

Reflexões profundas (ou não) #6 - Marcação de território

São só os gatos que marcam território? Tenho a dizer que, desconfio, está a ocorrer uma regressão ou uma mutação na espécie humana, é que o meu filho fez o mesmo lá em casa. Sofá, móvel e chão da sala já estão marcados.