sexta-feira, 7 de agosto de 2015

O Índio Pirata foi de férias

O Índio Pirata rumou a sul do seu país para uma semana de férias com os seus pais no final de Julho. Já tinha estado naquele distrito há cerca de 1 ano, mas é bem possível que não se lembre muito bem dos acontecimentos. 
A rotina diária das férias (bolas, até de férias há uma rotina, ainda que muito flexível) começava por acordarmos quando o galo Índio dava o grito de alvorada "Quero leitito". Passava por ter pequenos almoços tranquilos e sem pressas com pão quente que o pai ia buscar logo de manhã, por ir beber café na esplanada, por idas à praia até às 11h/11h30, por regressos a casa para dormidas e almoços sem pressas, por retomar as brincadeiras de praia às 17h, por passeios no carrinho, por regressos a casa sem stress. Os dias terminavam quando o sono chegava, por vezes, com passeios na rua que o faziam adormecer no carrinho.
Tínhamos 2 supermercados perto de casa, estávamos a 1 minuto a pé da praia e só pegámos no carro 1 dia para ir ao nosso amado concelho de Lagos.
Ele adorou a praia, as brincadeiras na água e com a água. Molhava as mãos na água salgada e levava-as à boca. Divertiu-se com a areia e comeu-a. Apanhou pedras à beira mar e não foram poucas as vezes que as tentou ingerir (não posso jurar que não tenha engolido alguma). Ele fez a sua primeira amiga de Verão, não sei se foi uma amizade colorida, ele não nos contou pormenores. Chama-se Júlia, vive na Suiça e tem quase o dobro da idade dele, mas daqui a uns anos a diferença de idades não se nota. Ele hesitou os pulos na água que habitualmente gosta, talvez por a água estar gelada, mas quando a via entrar na água lá corria para a beira mar como que a enfrentar o inimigo, só para se armar em forte. Comprámos-lhe uma pequena piscina que para um não era assim tão pequena, mas para dois tornou-se minúscula. No próximo ano teremos de ter em consideração eventuais amizades. Ele chegava à praia e lá vinha ela ter com ele e ele, de vez em quando, perguntava por ela. No último dia brincou num daqueles barcos que alugam na praia e saltou à corda (daquelas que estão na areia a delimitar zonas).
Andou muitos dias sem fralda, fez muito xixi no chão e até cocó. Também fez cocó no bacio, mas, sinceramente, acho que ainda não está preparado. Ou sou eu que não estou, não sei.
Ele andou descalço e nu pela casa. Subiu e desceu cadeiras e sofás. Comeu kiwi que se fartou e disse que era verde, já à melancia não achou tanta graça. Os seus brinquedos preferidos foram, um daqueles carrinhos de supermercado que nós pedimos emprestado para levar as compras no dia em que chegámos e que só devolvemos no último dia (desculpem lá senhores, mas o miúdo elegeu o vosso carro como o seu brinquedo preferido de férias), um garrafão de água vazio e o cesto das molas com as respetivas. A loucura. Comeu quase tudo sozinho e era habitual ver sopa por todo o lado e o chão todo sujo. O normal, portanto. Ajudou a lavar e a cortar as alfaces. Sempre que o mandámos pôr qualquer coisa no lixo, ele cumpriu. Rebolou muito no chão da sala. E o pai também.
No dia em que fomos a Lagos, brincou com a prima. Tomou duche numa espécie de chafariz/lago que há no centro da cidade. Almoçámos fora e viu as sapateiras e companhia que estavam no aquário do restaurante. Fomos os três, pela primeira vez, ao bar que costumamos ir sempre que passamos férias em Lagos. Foi tão bom estar lá com ele. A última vez que estivemos lá eu estava grávida, enjoada das unhas dos pés às pontas dos cabelos.
Regressámos a casa com algumas peripécias pelo caminho, mas felizes pelos dias de férias que tivemos e com pena de ter sido apenas 1 semana. O carro avariou, o miúdo teve febre no dia em que regressámos, apareceram-lhe borbulhas nas pernas e nos braços, fomos ao médico e o resultado foi um diagnóstico de amigdalite viral e desconhecimento acerca da origem das borbulhas (calor, alergia a alguma alimento, eventualmente), mas já andamos por aí a passear.
Agora, quando ouve algum barulho estranho ou uma conversa com um tom diferente pergunta "O que foi?". Está um cusco, é o que é. Continua a perguntar frequentemente "O que é ito?". Pergunta pela Júlia e pela Matilde. Fala mais, constrói mais frases. E eu, olho para as fotografias das férias do ano passado e comparo-as com as deste ano e vejo claramente o que ele cresceu: Está mais autónomo, está mais papagaio, está mais alto, faz-nos mais companhia, já tem opinião sobre o que quer e o que não quer. Do ano passado para este começou a andar, a falar, a embirrar. E nós continuamos a olhar para ele, a olhar para o que ele já faz, a olhar um para o outro e a sorrir, com aquele sorriso meio nervoso e orgulhoso igual ao que esboçávamos nos primeiros dias da sua existência.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Olá Agosto de 2015

Espelho, espelho meu, há algum mês mais bonito do que o meu?

Créditos de imagem: M.O.D

Adeus meu querido mês de Julho

A minha avó paterna fazia anos em Julho e foi em Julho que morreu. Não sei se gosto deste mês ou não, causa-me sempre sentimentos antagónicos. Mas sei que o nascimento dela se comemora em Julho, o que por si só o torna especial.
Este ano, fomos de férias em Julho. Comemorou-se o aniversário de 3 crianças conhecidas e o nosso 7º aniversário.
Julho, despedimo-nos de ti com saudades dos dias sem horas definidas para nada, dos passeios, das manhãs e das tardes de praia, da liberdade a que nos permitimos quando estamos de férias. Encontramo-nos em 2016!

segunda-feira, 27 de julho de 2015

O pombo que vivia na nossa varanda

O Índio Pirata vivia num terceiro andar de um prédio sem elevador com os seus pais, o pai Pirata e a mãe Índia. A sua casa tinha duas varandas, uma virada a Este e outra a Oeste. A varanda virada a Este dava para as traseiras do prédio onde viviam e para os quintais dos vizinhos do outro prédio. Era habitual ver os pombos, que cirandavam pelos telhados, pousarem no parapeito desta varanda. Do lado Oeste era normal ouvirem-se os passarinhos cantar logo pela manhã e as árvores a abanar quando estava muito vento.
Um belo dia, o pai Pirata achou que seria interessante colocar na varanda Este uma cadeira de palha para se sentar a beber uma "água fresquinha" ao final do dia, quando chegasse do trabalho. Num outro dia, não tão belo, em que a mãe Índia não aguentava tanta coisa desarrumada, o pai Pirata, cansado de a ouvir refilar, decidiu arrumar a lenha debaixo da dita cadeira. Na verdade, o pai Pirata montou o lar perfeito para um dos pombos que rondavam aquela zona. O pombo começou por pousar no parapeito da varanda mais vezes do que o habitual. Depois, foi ocupando a cadeira. Por fim, foi ficando para dormir adotando a varanda como o seu verdadeiro lar. Ninguém tinha direito a ir àquela varanda porque o Sr. Pombo julgava-se senhor e dono da mesma, parecia até que tinha celebrado um contrato de aluguer em que uma das cláusulas era não ser incomodado.
O Índio Pirata delirava com o pombo que vivia na sua varanda, apesar de se encolher quando a ave levantava voo. Era quase como se fosse o seu animal de estimação, no entanto, visto através do vidro da janela. Quando chegava a casa perguntava pelo pombo. Em dias em que as birras se apoderavam do Índio Pirata à hora de jantar, os pais falavam-lhe do pombo e levavam-no à procura do animal através do vidro da janela da varanda, afastando-o assim das suas crises existenciais (birras). E resultava. Na rua, quando via pombos, gritava e corria atrás deles, ainda que se encolhesse quando os animas voavam muito perto dele. O pombo, não chateando muito, não deixava a família Índio-Pirata utilizar a varanda. Esta estava sempre suja.
Foi então, que os pais decidiram que queriam a sua varanda de volta. Acharam também que o pombo, ainda pequenino, devia estar junto dos seus pais, era muito novo para viver sozinho. Por isso, resolveram retirar da varanda todos os objetos que o tinham cativado a viver ali, nomeadamente a lenha e a cadeira. O pai Pirata retirou o material da varanda e esperou que o pombo desaparecesse, o Índio Pirata continuou a perguntar pelo pombo e a mãe Índia sabia que aquela "ordem de despejo subtil", apesar de ser justa e necessária, iria demorar alguns dias a concretizar-se. E assim foi, o pombo foi aparecendo, meio confuso como se lhe tivessem assaltado a casa, questionando se se teria enganado na varanda. No entanto, como via o Índio Pirata sabia que estava no sítio certo e insistia em aparecer e ficar na sua varanda. Os pais do pombo estavam felizes porque, no meio destas dúvidas, o pombo ia e vinha da varanda Este à casa dos seus pais com regularidade.
Os pais do Índio Pirata explicaram-lhe os motivos pelos quais o pombo tinha deixado de viver na sua varanda e disseram-lhe que, apesar disso, ele e o pombo podiam continuar a ser amigos, desde que quisessem. E assim foi. O pombo passou a viver no conforto de uma casa cuidada pelos seus pais, rodeado de mimos e atenção. O Índio Pirata e os pais puderam, finalmente, começar a utilizar a sua varanda do lado Este. O pombo todos os dias vinha espreitar o menino por entre o vidro da janela da varanda. Os dois riam-se, cúmplices, como se se estivessem a cumprimentar. Continuaram a ser amigos por muitos e muitos anos. Quando o Índio Pirata, já adulto, comprou a sua casa, o pombo foi convidado a conhecê-la e não eram poucas as vezes que o visitava. Pousava no parapeito da sua varanda, também ela localizada no lado Este, e ali ficava à espera que o Índio Pirata lhe sorrisse. Ele sorria-lhe, o pombo retribuía e levantava voo.

Créditos de imagem: Wishªcolor

P.S. Vou já avisando que o animal que está no braço do Pirata é um Pombo. Está é mascarado de Papagaio Pirata Maluco.

Filho, existiu mesmo um pombo que viveu, durante uns tempos, na nossa varanda e tu gargalhavas quando o vias. Desculpa a distorção da realidade, mas não sei se ele era pequenino, nem sei se voltou a viver com os pais. Achámos que a justificação dada com estes argumentos era mais fácil de entender. Precisávamos mesmo da nossa varanda e um pombo não é animal que possamos ter em casa. A mensagem que te quero transmitir é a do valor da amizade. Se for verdadeira manter-se-á para sempre. Preserva os amigos.
Pessoalmente, não gosto de pássaros em casa, acho que eles nasceram para ter o céu como limite, para voarem, para serem livres. Quanto a ti, desejamos que ganhes asas e alcances os teus próprios limites. E que o céu não te limite.
Parabéns pelo teu 22º mês de vida e um beijo da tua mãe.

domingo, 26 de julho de 2015

Grandes livros para pequenos leitores #2 - Avós

TÍTULO: AVÓS

Conheci este livro quando estagiei com crianças do 1º ano do 1º ciclo do Ensino Básico, numa atividade semanal em que uma criança levava 1 livro para apresentar aos colegas. Como o próprio nome indica, fala de avós e do encanto que a velhice pode ter. Fala de cumplicidade e de amor.
É um livro de Chema Heras com ilustração de Rosa Osuna, da Editora Kalandraka.


Este livro pode ser um belo presente para netos ou para avós. Para assinalar esta data especial, ou não. Qualquer dia é um bom dia para oferecer e/ou receber um livro. Pode ser lido em voz alta e em família.
Os avós que aqui são retratados não são iguais aos de todas as crianças - não são iguais aos meus, por exemplo. Assim, em contexto escolar, acho que o dinamizador de uma atividade que envolva este livro deve ter isso em consideração. Pode pedir às crianças que descrevam alguns episódios divertidos que tenham vivido com os seus avós, sejam eles casados ou separados, vivam eles em Portugal ou na China, sejam eles pessoas da cidade ou do campo. Para além destas diferenças, algumas crianças podem não ter avós. Neste caso, pode pedir às crianças que falem/descrevam outra figura (familiar ou não) de quem gostem muito. Será na diversidade das experiências partilhadas que estará o ganho. E no riso resultante da descrição de momentos divertidos que estará a felicidade. Feliz vida para todos os avós. 

Avós: Os meus e os teus.

Quando nasci os meus quatro avós ainda eram vivos. Tinha ainda uma bisavó materna. Lembro-me de ter orgulho em dizer que tinha quatro avós e uma bisavó. Era normal ter 4 avós, mas lembro-me de muitas amigos já terem perdido algum, de um lado ou de outro. Eu achava que tinha a maior riqueza do mundo porque tinha os quatro mais o bónus da bisavó. Tive maior proximidade com os avós maternos porque os meus pais separaram-se quando eu tinha 2/3 anos, mas tenho recordações boas dos avós paternos. Na verdade, as melhores recordações são as das duas avós, ambas divorciadas por motivo de desrespeito e de maus-tratos.
A minha avó materna foi mãe substituta, aquela que fazia a nossa comida preferida, aquela que corria para fazer um doce quando lhe dizíamos ao telefone que íamos visitá-la, aquela que nos cortava a fruta porque, coitadinhas de nós, nos podíamos cortar, aquela que zelava pelo nosso bem estar, aquela que nos dava colo e que estava sempre do nosso lado. Ainda hoje é assim. Ela viveu na nossa casa durante alguns anos e o instinto protetor, os mimos que nos dava a título gratuito sem pedir nada em troca são património da nossa formação moral e a melhor herança que podemos ter. Lembro-me de querer ficar com ela por me sentir livre, por me sentir criança de verdade, sem responsabilidades, livre de pressões.
A minha avó paterna era alta, muito alta para a época em que nasceu, tanto, que os sapatos eram feitos por encomenda. Era delicada. Tinha um olhar verde transparente, tão transparente que quase lhe líamos o pensamento através do olhar. Tinha uma beleza fora do normal e calhou-lhe um destino traiçoeiro. Eu gostava muito dela e sentia no seu olhar e no seu sorriso sincero e puro que ela também gostava de mim. Ela não esteve mais presente na minha vida porque o meu pai ausentou-se da minha vida por alguns períodos de tempo, ou eu ausentei-me da dele, não sei. Ela não esteve mais presente na minha vida porque não me conseguia alcançar, eu vivia longe e ela não podia caminhar na minha direção. Viveu muitos anos numa cadeira de rodas e dependente de todos. Tenho saudades dela, foi uma referência para mim. Lembro-me de as pessoas dizerem que me parecia com ela, mas não. Ela era tão mais bonita, tão mais singela e delicada do que eu. Dela, não herdei o mesmo cuidado e proteção que herdei da minha avó materna, mas herdei o amor e o carinho que me tinha.
Do meu avô materno, recordo-me que vendia gelados em mercados, que me oferecia um gelado de vez em quando, que, até uma certa idade, nos levava ao mercado na época de Natal e no aniversário para nos comprar roupa nova. Não me lembro de valores, mas lembro-me de traços da sua personalidade que eu não queria ter. Ele tratou mal a minha avó e eu tomava as dores dela como minhas.
Do meu avô paterno, lembro-me de o ir visitar à terra, da casinha modesta que tinha e de o ver andar de carroça puxada por um burro. Acho que a minha avó se apaixonou por ele quando o viu montado num cavalo branco. Ouvi esta história, mas não sei descrever bem como foi. A verdade é que, no final desta história que podia ter um final feliz, não foi amigo nem companheiro da minha avó.

Filho, infelizmente, já não tens avô materno. Mas tens duas bisavós. Desejo que construas boas recordações dos teus avós, tenho lutado por isso apesar de todas as dificuldades. Não tem sido fácil, aliás, é cada vez mais difícil.
Desejo que os teus avós te transmitam valores, que marquem a tua personalidade com mimos e risos, que te amem. Que te amem muito, mas que não minem a família nuclear que somos nós os três. Não permito maldades, não permito deturpações da realidade, não permito intrigas gratuitas, não permito obsessões, não permito falsas moralidades. Se for para te amarem, que te amem, sem interesses e sem cobranças. Porque o amor de verdade é assim, mas há pessoas que não o sabem.
Espero que descubras através dos teus avós, familiares e amigos o verdadeiro valor do amor simples e despretensioso. No fim de tudo isto, é o que importa. Desejo que construas boas memórias de vivências com os teus avós e que eles permitam que as guardes no coração. E que um dia, tal como eu, decidas em consciência quais são as tuas melhores recordações. É bom ter avós!