segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Utopia #3 - Ensino igual para todos!? Não, obrigada.

Eu não desejo uma escola igual para todos. Não desejo que todos aprendam Inglês aos 3 anos. Não desejo que todos cantem na perfeição na festa de Natal. Não desejo que todos aprendam a cortar, a pintar e a desenhar ao mesmo tempo. Não desejo que leiam em simultâneo e em voz alta o mesmo texto. Não desejo que todos reconheçam e vivam a Natureza da mesma maneira. Não desejo que papagueiem a tabuada ou o nome dos rios a uma só voz. Não desejo que todos cortem a meta em primeiro lugar. Não desejo nada disto, até porque acho que isto não existe no mundo real. Existe no papel, com metas específicas para tudo.
O que eu desejo é que respeitem o ritmo, as experiências e as vivências que cada criança traz quando chega ao Jardim de Infância ou à Escola. Que a incentivem a partilhar o que sabe, a respeitar e a ouvir o outro. Que a instiguem a questionar o que não compreende. Que a preparem para a resolução de problemas. Que a façam imaginar e sonhar. Que a deixem fantasiar e brincar. Muito. Que a ouçam. Que a criança tenha um papel ativo no seu próprio desenvolvimento. Que a façam compreender a vida em sociedade e o motivo de existirem regras (regras gerais, não regras para tudo e mais alguma coisa). Que lhe ensinem a liberdade. Que a orientem para a descoberta de si mesma, para a descoberta do mundo e para o respeito pelo meio ambiente. Que valorizem o ensino pela Arte e para a Arte. Que compreendam que ela tem preferências e gostos próprios. Desejo que a respeitem como pessoa que é.
Gostava mesmo que a escola em Portugal fosse assim. Assim sim, para todos. Uma escola com oportunidade para todos, sim. Com um método de ensino transmissivo e igual para todos, não.
É difícil encontrar uma escola que defenda os valores que, para mim, são importantes. É difícil encontrá-la na minha área de residência e a a preços suportáveis. Mas tenho de tentar. A alternativa é criar uma de raiz... Pois, parece-me utopia!

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

A viagem na carrinha do pai Pirata

O Índio Pirata, com quase 2 anos, não frequentava a creche; enquanto os pais iam trabalhar, o pequeno Pirata ficava com a Carmo, uma senhora com uma imagem muito delicada e uma pessoa muito doce. Era muito paciente, muito meiga e tinha um jeito inato para cuidar de crianças. Não eram poucas as vezes que eram vistos a passear: ora eram vistos na estação a ver passar os comboios, ora eram vistos a comer uma torrada no café da esquina ou, simplesmente, a dar uma volta ao quarteirão logo pela manhã. Por vezes, também eram vistos no parque em correrias e brincadeiras. O Índio Pirata chegava ao final do dia cansado de tanta brincadeira e as nódoas estampadas na sua roupa espelhavam bem o quanto ele tinha liberdade para se divertir. 
Antes de iniciar os dias com a Carmo, o pai Pirata levava o pequeno Índio numa carrinha especial. Criaram, com esta pequena viagem matinal, uma rotina só deles em que a mãe Índia era excluída. O transporte escolhido foi uma carrinha branca antiga e alta com umas escadas na porta traseira. O Índio Pirata sempre que via passar carrinhas semelhantes gritava pela carrinha do pai e quando o via chegar, ao final do dia, sorria com orgulho. Era a carrinha dos dois.
Era o argumento de ir na carrinha do pai que acalmava o Índio Pirata quando as birras matinais espreitavam. Era na mesma carrinha, com a cadeira do Índio no banco da frente, que o pai lavava os vidros com água do pára brisas. Era à porta grande e pesada desta carrinha que a mãe Índia, em dias em que descia as escadas para ajudar o pai Pirata com os sacos, se despedia dos dois. Era nesta pequena viagem que os dois se divertiam a ouvir música e criavam rotinas a dois. Só dos dois. E à noite, antes de dormirem, conversavam sobre a primeira viagem do dia, como se todos os dias acontecessem coisas diferentes e tivessem novidades para contar.
A mãe Índia desconfiava das peripécias que eles contavam, desconfiava até que eles as inventavam. Umas vezes era a Gata de saltos altos, carregada com os sacos das compras, que ralhava com eles porque iam muito depressa. Outras, era o cão perna longa que se vestia de polícia sinaleiro e os mandava parar só para ouvir a música que eles ouviam de manhã. Algumas vezes, era o pombo que viveu na varanda Este que lhes pedia boleia. Outras ainda, era a desculpa de o comboio ter estacionado na Rua dos Inventores. Até o pato do tio Carlos lhes aparecia para tomar banho com a água do pára-brisas da carrinha. Tudo servia de desculpa para justificar os seus atrasos. A verdade é que eles todos os dias se divertiam, todos os dias tinham uma novidade; nunca saberemos se as histórias que contavam eram verdadeiras ou falsas. É e será sempre um segredo entre o pai, o filho e a carrinha. A carrinha que os conduzia neste percurso era especial, muito especial, não abria a boca para contar nada do que se passava nas viagens matinais. Quase que se pode afirmar que as aventuras matinais eram a três.
Um dia, a carrinha branca, já velhinha, deixou de conseguir fazer a viagem matinal. Estava cansada, não suportava tanta emoção e tanto passeio logo de manhã. Decidiu que iria viver junto ao mar, mudar de visual, descansar e fazer caminhadas curtas. Combinaram, no entanto, que continuariam a viajar juntos 1 vez por semana, com as peripécias e alegria do costume. A frequência com que viajavam na carrinha diminuiu, mas o carinho que sentiam por ela perdurou.
A carrinha branca depois de ter mudado de visual e de ter ido viver para a beira mar:


Créditos de imagem: Wishªcolor

Filho, tu fizeste muitas viagens com o teu pai na carrinha branca de que fala o texto. Este era, efetivamente, um momento dos dois, eu não ia convosco de manhã. É claro que a parte dos animais é invenção minha, no entanto, a água nos vidros, a música e a euforia com que faziam aquela viagem são reais.
Fazendo a analogia com a carrinha do texto, lembra-te que as pessoas, por vezes, deixam de nos poder ajudar/apoiar/acompanhar. Por vezes, não nos podem valer. O importante é que nos valeram, nem que tenha sido uma única vez. O importante é que reconheçamos e sejamos gratos por isso. Ninguém deixa de ser importante para nós só porque deixa de nos ser útil.
Hoje, fazes 23 meses. Parabéns, Índio Pirata da mãe.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Nos últimos dias...

- O meu filho já convida amigos para jantar. Agora teima em levar o Pirata e o Peter Pan para a mesa, faz-me pôr uma colher de sopa numa tigela pequena e dá comer aos amigos. Se decido que terminou a brincadeira (a bagunça), ele chora. Muito. Com lágrimas e tudo. 
Começaram por ser amigos do banho, passaram a comer connosco à mesa e, agora, já dormem na nossa cama. O que é que se segue?
- Do alto do nosso terceiro andar, pela janela do quarto, descobre que o carro da tia está lá em baixo e grita "Olha, popó da tia". Como é que é possível ele reconhecer o carro da tia? Lembro-me de ir passear com o meu afilhado, ele era pequenino, olhava para os símbolos e dizia-me as marcas dos carros. Já eu, com esta idade, tenho de pensar bem qual é a marca do carro da minha irmã. E da minha mãe. E de qualquer pessoa. Sei qual é a marca do nosso e é uma sorte.
- Adora ver garagens. Fica eufórico quando vê aquela porta grande e imponente a abrir, quando vê os carros saírem lá de dentro. Relativamente a algumas garagens, diz que os carros sobem a rampa e vão para a estrada.
- Vamos ao parque, empoleira-se no escorrega grande e chama pela prima e pela tia. Depois diz que não estão cá, que estão em Lisboa.
- Nos últimos dias o pai retira-o da cadeira que está na carrinha e coloca-o ao volante. Ele mexe nos botões do rádio, no volante, nos piscas, nos botões do pára brisas e buzina. É uma festa.
- Pergunta repetidamente: Como chamas? Eu digo o meu primeiro nome, ele diz o segundo.
- Não quer ir para casa, por ele estávamos sempre na rua. Culpa minha.
- Fala ao telefone com o avô, diz que ele tem bigode.
- Anda louco com os comboios, adora ir vê-los à estação.
- Eu ando louca com ele, adoro-o! Cada vez mais.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

De todo o amor que tu tens (Maria), metade foi ele que te deu

Durante o fim de semana passado, cada vez que o meu bebé chamava pelo pai, eu lembrava-me da Maria. Quando eles foram andar de bicicleta, eu lembrei-me da Maria. Quando riram à gargalhada, eu lembrei-me da Maria. Quando nos deitámos os três na cama a fazer cócegas uns aos outros e a brincar ao esconde-esconde, eu lembrei-me da Maria. Quando fomos passear os três, eu lembrei-me da Maria. É que a pequena Maria perdeu de forma trágica o seu melhor amigo. O pai. Um pai louco por ela que já deixa saudades. 
Eu sinto que é injusto que a Maria, tendo um pai tão louco por ela como ele, não possa olhar para ele procurando incentivo quando tiver medo de avançar. Que não possa correr para os braços dele depois de um dia de escola. Que não possa adormecer no ombro dele quando o sono demorar a chegar. Que não possa gritar pelo pai quando algum monstro lhe aparecer em pesadelo. Que não tenha oportunidade de descobrir que, afinal, ele é que é o Pai Natal. Que não mergulhe no mar sob o olhar atento dele. Que não possa chorar ao colo dele quando alguém a magoar. Que não sopre as velas dos bolos de aniversário com o sorriso dele orgulhoso dela. Que não cresça ao mesmo tempo que ele envelhece. Que não possa ouvir da boca dele o quanto ele a ama.
É triste, é injusto e eu não tenho palavras para descrever isto. Não posso dizer que era amiga próxima do pai da Maria, mas conhecia-o e lamento. Muito. A opinião acerca da pessoa que ele era é unânime: ele era um miúdo excecional, bom pai, bom filho, bom marido, bom irmão, bom familiar, bom amigo. Deixa saudades e um vazio imenso e indescritível. Era uma grande pessoa.
Ele não vai ver como a Maria vai superar os obstáculos da vida, mas ela vai vencê-los. Não vai ver como ela vai fintar a tristeza quanto esta teimar em cumprimentá-la, mas ela será uma menina feliz cheia de luz. Não vai ver como será a sua infância e a sua adolescência, mas ela será uma bela mulher, com boa índole e com um percurso de vida cheio de felicidade. Estas são algumas das coisas que eu desejo para a pequena Maria.

Acredito que como diz Maria Gadú na sua "Dona Cila":

"De todo o amor que tu tens (Maria)
Metade foi ele que te deu
Salvando a tua alma da vida
Sorrindo e fazendo o teu eu

Se ele quis (talvez ele não quisesse) partir e ir embora
Olhará para ti (Maria) de onde estiver..."

Adaptado e dedicado à Maria. Felicidades pequena Maria! Até sempre pai da Maria!

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Eu tenho uma tia-irmã e ela faz anos hoje!

Eu tenho uma tia-irmã e ela faz anos hoje. Ela é irmã da minha mãe. Tem menos 1 ano do que eu. Chegámos a viver juntas. Andámos, até uma certa idade, nas mesmas escolas. Eu defendia-a dos matulões (um tinha a alcunha de ratinho, vejam só o tão forte que eu era para enfrentar um... ratinho). Somos diferentes, mas descobrimos muitas coisas da infância e da adolescência juntas. Tivemos muitas zangas na infância, deixávamos mesmo de nos falar. Nunca mais nos deixámos de falar desde o dia em que a minha bisavó (avó dela) morreu, desde o dia em que a minha tia-irmã bateu à porta da minha casa para me dar a notícia com lágrimas nos olhos e voz trémula. Acho que aprendemos nesse dia que tínhamos de aproveitar mais a nossa amizade. Fizemos muitas viagens de comboio em que fingíamos falar Inglês, Chinês e Alemão (um cruzamentos destas 3 línguas, vá). Fizemos muitas viagens de comboio em que cantávamos (uma das músicas, e disso eu lembro-me, era a Cinderela do Carlos Paião). Conhecemos muitos sítios juntas (fomos a muitas excursões). Brincámos juntas tantas vezes, tantas, tantas. Dormimos muitas vezes naqueles compartimentos dos comboios da CP que faziam o percurso Barreiro-Algarve. Simulámos que cada uma de nós vivia em determinada divisão da casa e criámos muitas brincadeiras à volta disso. Passámos férias grandes e pequenas juntas. Começámos a namorar (a sério) na mesma altura. Crescemos e não nos separámos. Fomos e somos confidentes. Não deixámos de nos preocupar uma com a outra. Eu sou madrinha do filho dela. Ela é madrinha do meu filho. Eu gosto mesmo muito dela. Ela faz parte das minhas pessoas. É verdade, eu que não sou nada de possessividades, tenho pessoas... no coração. Que lamechas que eu estou. Parabéns tia-irmã, nem é preciso escrever o bem que te desejo, está implícito no que continuamos a ser uma para outra. 

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

A brincar é que a gente (pequena) se entende #5 - Caça ao tesouro/Descobrir o jardim

SENTIDO DE ORIENTAÇÃO: QUANDO ELE QUER IR PARA UM LADO E EU PARA OUTRO
Vou muitas vezes ao parque com o catraio. Já o escrevi antes. 
Anteontem fui buscá-lo já com o parque infantil marcado no GPS (no meu). Chegámos ao Jardim, perguntei-lhe de que lado fica o portão do parque, deixei-o guiar-me, deixei-o correr à minha frente. Ignorou a minha questão, fez pisca e virou para o lado contrário. O coreto chamou por ele e ele, ignorando as minhas vontades, foi atrás dele. Quis subir as escadas do coreto, abrir as portas do coreto, correr à volta dele. Eu, de vez em quando, lá lhe perguntava se queria ir ao parque, mas ele ignorava-me. A dada altura perguntou-me pela porta de entrada, baralhou-se com o facto de andar à volta daquele palco. Eu respondi que tinha de tentar encontrá-la (vamos lá procurá-la, disse-lhe). Lá a encontrou, lá subiu e desceu as escadas várias vezes. Juntaram-se a ele duas meninas que fingiram estar num concerto. Ele lá correu, imitando-as e rindo. Rindo à gargalhada. Agora é isto, infiltra-se nas brincadeiras de miúdos mais crescidos, imita-os e ri como se eles estivessem a fazer ou a dizer alguma coisa com muita piada.
Saímos do coreto. Eu, com muita confiança de que iríamos para o parque, ele com vontade de correr. Correu em direção ao lago, depois em direção ao bebedouro, sentou-se no degrau, subiu para o banco de pedra. Só depois é que fomos para o parque porque, confesso, o peguei ao colo. 
Gosto que ele tenha opção de escolha, que experimente brincadeiras novas, que explore o meio em que estamos, que experimente alternativas, que não seja sempre orientado/ou guiado por nós. Só tenho de aprender a aceitar que ele tem um papel ativo no que respeita a decidir para onde vamos. Talvez eu quisesse mesmo ir ao parque, andar de baloiço, descer o escorrega, correr e cair. Mas, se essa era a minha vontade, tinha ido ao parque sozinha... Eu não digo que gosto mais do parque agora do que quando era pequena!?

Andar ou correr no jardim, andar à procura de um determinado sítio que está no jardim (o parque, a igreja, o coreto, o café, por exemplo), fazer uma corrida, perguntar-lhe para que lado fica isto ou aquilo e dar-lhe oportunidade de descobri-lo são formas de ele desenvolver o sentido de orientação. É que se for genético, a avaliar pelo meu (ou a falta dele), é bom começar a treiná-lo já.

Imagem retirada da Internet: fonte desconhecida

SUGESTÃO DE ATIVIDADE:
Com crianças mais velhas, podemos imprimir um mapa do jardim/sítio em questão (retiramos da Internet, do Google Earth, por exemplo). Assinalamos um percurso com um marcador de cor forte, com o ponto de partida e com o ponto de chegada assinalados com um círculo. Dependendo da idade, podemos pedir para ser a criança a identificar, no local, o ponto de partida que assinalámos no mapa. Convém que existam marcos do espaço bem visíveis, tais como, o lago, o parque infantil, etc.
Para além do percurso que têm de fazer, podemos dar instruções de desafios adaptados à idade em determinados pontos - "apanha três folhas do chão e guarda-as no saco que te entregaram no início do jogo", para crianças que comecem a ter a noção do que o número representa, por exemplo.
O percurso pode ser feito com dois grupos, com dois percursos diferentes, mas semelhantes em dimensão e em número e dificuldade dos desafios, de maneira a ver qual é o grupo que chega em primeiro lugar ao ponto de chegada. Ou não, depende da idade dos elementos de cada grupo.
Podemos aumentar o grau de dificuldade, deixando pistas em alguns pontos assinalados no mapa (por exemplo, segue em frente, vira à direita, descobre os paus de giz que estão perto do banco de madeira verde/faz um desenho no chão).
Podemos criar uma história em torno desta brincadeira. A imaginação de cada um é o limite e a idade e o desenvolvimento da(s) criança(s) também.
No ponto de chegada preparamos uma surpresa (um lanche para se fazer um pic-nic, um presente, um bilhete para ir ao cinema, uma ida à praia, etc.). Podemos chamar-lhe caça ao tesouro. É simples de preparar, toda a família pode participar e divertir-se.
Deixamos as crianças fazer a leitura do percurso assinalado no mapa, deixamos que se enganem, que recomecem, se for necessário. O importante é que se divirtam e que aproveitem os dias grandes para brincar na rua.