quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Dois presentes, com 2 e 5 anos respetivamente, embrulhados em bolas de sabão

Já passou 1 mês, mas tenho de escrever sobre a festa de aniversários dos meus amores pequeninos.
No dia 27 de Setembro comemorámos o aniversário do meu filho e o da minha sobrinha. Em Setembro, ele fez dois anos, ela cinco. Decidimos fazer uma festa para os dois porque, em conjunto, foi possível realizar uma festa à medida dos nossos sonhos. Alugámos um espaço num colégio porque nos pareceu adequado para as crianças, afinal a festa é para elas. Um espaço ao ar livre com relva, escorregas e brinquedos diversos, nomeadamente, bicicletas, bolas e cozinhas. Se chovesse tínhamos uma sala grande à disposição, mas não choveu.
Iniciámos um mealheiro há um ano atrás e foi assim que pagámos o aluguer do espaço. Já iniciámos o do próximo ano. Parecendo que não, ajuda muito.
Os temas foram definidos: A Violeta (foi ela que escolheu) e os Piratas (a mãe dele, eu portanto, é que escolheu). Comprámos elementos decorativos com pormenores a condizer com os temas. Fizemos duas grandes mesas, cada uma com o seu tema. Comprámos salgados caseiros, nós e familiares fizemos os doces (eu, que sou a "rainha" da cozinha, fui incumbida de fazer a gelatina... como sabem, é muito difícil fazer gelatina, requer talento e paciência, é um trabalho complexo, daí terem delegado esta responsabilidade na minha pessoa), comprámos bebidas e alguns doces, fizemos sandes de queijo/fiambre/tomate cherry, cortámos frutas. Eu e o pai do Índio Pirata fizemos um barco de Pirata no qual colocámos as frutas. Eu idealizei a coisa - leia-se pesquisei na Internet - o pai executou. Alguém tem de ser o cérebro da operação, certo?  
Os dois aniversariantes foram as primeiras crianças a chegar à festa, estavam felizes da vida. Ele porque viu naquele espaço a hipótese de correr, brincar e explorar. Ela porque sentiu orgulho em poder receber os amigos naquele espaço. E pela brincadeira que o mesmo proporcionou, claro. 
As crianças correram e brincaram. Os adultos conversaram e, sem saírem do sítio de conversa, observavam os pequenos, já que o espaço, apesar de amplo, permita o contacto visual com toda a gente. Foi muito bom. Uns sentados em cadeiras, outros na relva. Uns de copo na mão, outros de rissol na boca. Outros de rabo para o ar a levantar o bebé que caiu. Miúdos a correr, miúdos a andar de bicicleta, miúdos a lutar pelos brinquedos da cozinha, miúdos a descer o escorrega, miúdos a brincar aos detetives, miúdos de espada na mão e de bola no pé, miúdos a fazer birras. Enfim, o normal. Brincadeiras livres, sem animação programada, brincadeiras à medida de cada um, já que cada um brincou como quis. Entre grandes e pequenos eram quase 100 pessoas. Foram 3/4 horas de festa pura.
O momento alto foi o de cantar os Parabéns. Antes da cantoria propriamente dita, oferecemos bolas de sabão e gaitas de papel (não sei como é que aquilo se chama) às crianças. Passados poucos minutos, tínhamos uma paisagem de bolas de sabão iluminada por um candeeiro de sol; bolas grandes, bolas pequenas, umas  lá em cima, outras pela altura dos nossos joelhos, uma bela paisagem. Segundos depois, tínhamos uma banda filarmónica desafinada a apitar, com ritmos e tons diferentes, imperfeitos e desafinados, dirigida pelos aspirantes a músicos. O brilho nos olhos e a euforia das crianças valeu a pena, valeu pelo esforço de procurar o presente ideal para oferecer aos convidados (na verdade, eu sabia o que queria, são coisas comuns em festas de crianças, mas tinha de encontrar coisas à medida do orçamento que tinha definido). Eu, que dias antes me perguntava por que raio, agora, se oferecem prendas aos convidados, rendi-me. Decidi que não daria doces a ninguém e foi o melhor que fiz. A minha querida irmã alinhou nos doces e, depois, andou a pedinchar gaitas. Gaita da miúda, eu bem que a avisei.
Depois, duas mesas pequenas no meio da relva, cada uma com um bolo (diferentes por fora, iguais por dentro). O cantar os parabéns duas vezes, a dois amores, pela comemoração do nascimento de cada um. Nasceram-nos dois presentes há 2 e 5 anos, respetivamente. Dia 27 de Setembro de 2015 comemoraram juntos, embrulhados em bolas de sabão, os seus aniversários. E nós fomos ainda mais felizes, porque, com estas pequenas grandes experiências/vivências, esperamos que eles construam boas memórias.
Parabéns meus amores! Marcamos encontro na festa do próximo ano que, se for em conjunto, será em Outubro.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

24 meses de ti e o mundo que eu não sou capaz de te explicar

Filho, fizeste 2 anos e há coisas que, apesar de não conterem a alegria e a felicidade da celebração desta data, tenho de escrever. Temo não ser capaz de as explicar com palavras adequadas à tua idade. Preciso de escrever para, depois, definir como te transmitir o que não sou capaz de, agora, te explicar.
No seguimento da carta que te escrevi há 2 anos e uns dias (ver aqui), tenho a dizer-te que também existem mundos que eu não queria que conhecesses. Existem mundos que me amedrontam. Que me fazem sentir pequenina. Que me envergonham. Que me fazem dar passos para trás como de murros no estômago se tratassem. Que não me permitem conter as lágrimas que teimam em cair-me dos olhos, olhos estes que anseiam ver outro mundo para ti. Que me fazem suster a respiração, como se uma nuvem empoeirada pairasse sobre mim. Existem mundos que eu queria mudar. Por ti, por mim, por nós. Eu não queria escrever sobre eles porque preferia que não existissem. Mas existem. Existem mundos que eu não consigo compreender e, consequentemente, não sou capaz de te explicar. O meu ignorante raciocínio não consegue compreender as explicações apregoadas por alguns.
Mas, sabes filho, existem coisas que julgo ser capaz. Talvez eu seja capaz de te mostrar que, por outro lado, existe um mundo composto de gente, de seres humanos fortes e genuínos, mais emocionais do que racionais, capazes de ir mais além. Talvez eu seja capaz de te ensinar que, com convicção, com determinação e com amor, há muitas coisas que podemos mudar. Talvez eu seja capaz de te fazer acreditar - acreditar em ti, no mundo, nas pessoas. Acreditar sempre. Tenho mesmo de ser capaz. Por ti, por mim, por nós.

Há gentes do passado que fizeram descobertas grandiosas e gentes do presente que fazem a ciência evoluir a cada segundo. Ou não, já nem sei o que é evolução.
As gentes do passado descobriram e aperfeiçoaram meios de transporte que nos permitem percorrer o nosso mundo mais facilmente. Noutros tempos, a construção de uma canoa tinha como objetivo atravessar o rio para o outro lado. Hoje, com aviões a percorrer os céus e a deixar um rasto de giz (aquele risco branco que se vê cá de baixo, que me faz pedir desejos e ter esperança, não sei se sou só eu a fazer isto), continua a existir gente a ansiar pela canoa que atravessa o rio, camuflando o medo, enfrentado a morte e a acreditar. Em simultâneo, há gente convicta de que existem pessoas de cá e pessoas de lá, como se o "lá" e o "cá" não se situassem no mesmo mundo. No nosso. Como é que eu te explico isto?
Antepassados nossos descobriram e aperfeiçoaram as telecomunicações para nos tornarmos mais próximos, ainda que distantes fisicamente. Hoje em dia, as mensagens já não são enviadas pelo pombo-correio, mas continuam a existir pedidos de ajuda que não chegam ao recetor. Ou então, é o recetor que finge que os mesmos vêm numa língua não universal e que, por isso, podem ser ignorados. Como se uma mão a acenar no meio de um mar imenso não significasse um pedido de ajuda. Cá e lá. É linguagem universal, não há que enganar.
Descobriram a arma, vê só a "grande descoberta". Acredito que nos primórdios com vista a sobrevivência: caça e defesa. Hoje, consigo encontrar grupos e sub-grupos de armas na Internet, leis que legislam a utilização das mesmas. Mas não vejo o silêncio e a inércia punidos nesses livros de verdades absolutas. Do lado de cá do rio, com transportes evoluídos e com formas de comunicar inovadoras, em vez de se esticar o braço há quem baixe a cabeça e vire as costas. Há quem não vire as costas, há quem seja "corajoso", há quem olhe para o lado de lá e grite para as gentes da canoa "volta para trás", "o mundo é de todos, mas os todos de que falamos são só alguns". Esta prepotência também é uma arma. Mas a sua utilização não é punida. Como é que eu te explico isto?
Mas, sabes filho, também há os que lançam cordas para os que caem da canoa se agarrarem. Os que "entram mar adentro" para puxar a canoa carregada de medo e de esperança. Os que põem a emoção na força que usam e ignoram a reflexão e os motivos dos que não se vergam para puxar a corda. Eu quero ser dos que puxam a corda.
Um dia destes, sentiremos (na pele) os abraços virtuais enviados através de uma caixa com fios e luzes, chegados do outro lado do mundo e ficaremos felizes. Mas se o vizinho do lado precisar de um abraço, não sabemos como o fazer. Como é que eu te explico isto?

Filho, estamos a viver uma crise. A mim, parece-me a crise dos valores, dos direitos e dos deveres humanos, mas chamam-lhe a crise dos refugiados. É adequado, na medida em que é a crise dos que têm de deixar a única casa que conheceram para fugir da guerra, à procura de uma vida melhor. Dos que se atiram para dentro de barcos sem condições nenhumas porque tentam sobreviver. Dos que tentam derrubar barreiras físicas e humanas porque não querem morrer. Dos que procuram refúgio. Dos que procuram um porto seguro. Há mães que atiram os filhos para o desconhecido com esperança de os salvarem, correndo o risco de os perderem para sempre. Há crianças, filho, há crianças como tu que morrem nesta caminhada. Há quem se aproveite. Como é que eu te explico isto?
Neste mundo, que eu gostava que não existisse, também há os que morrem de fome e que não têm condições básicas de higiene nem cuidados básicos de saúde. Há crianças que são forçadas a trabalhar quando deviam lutar pelo baloiço do parque infantil que frequentas. Há crianças que, em vez de serem protegidas pelo simples motivo de serem crianças, pessoas e o amanhã, são maltratadas. E isto acontece em muitos sítios deste mundo (Cá e lá) que eu, por vezes, não sou capaz de te explicar.
Os que defendem que não se deve esticar a mão para puxar a canoa, cheia de gente de lá, têm argumentos. Muitos. Entoados com convicção. Mas eu não consigo compreendê-los, logo não consigo aceitá-los ou explicá-los. Um dia destes tentarei escrever sobre esses motivos, mas não para tos explicar. Não sou capaz.


Créditos de imagem: Bernardo P. Carvalho

Filho, a canoa traz gente de diferentes classes sociais, com diferentes convicções, com diferentes objetivos... Mas traz gente.
Fizeste 2 anos, meu grande amor pequenino, e o meu presente é explicar-te que podemos mudar estes mundos que eu, por vezes, não sou capaz de te explicar. Nem que seja uma pequena parte, tão pequena que é quase invisível. Felizmente, há muitos outros a mudar pequenas partes. Todos juntos faremos algo que se veja - melhor ainda, algo que se sinta. Acredita, filho. Eu acredito. Por ti, por mim, por nós
Eu acredito que, se consigo descobrir novos trilhos através dos teus pequenos passos, se consigo experimentar texturas através das tuas pequenas mãos, se consigo ver a beleza de olhar para o céu e desejar boa noite à lua quando me dizes que lá fora está escuro, se consigo ouvir os cães a ladrar e os pássaros a cantar no meio da confusão só porque tu me dizes "Olha, o cão!", "Olha, o passarinho!", se consigo reaprender a saborear alimentos só porque tu me perguntas "O qué ito?", também sou capaz de mudar alguma coisa. Por ti, por mim, por nós. Pelo mundo que eu, às vezes, não sou capaz de te explicar.
Menos explicações e mais ações que, espero, sejam um exemplo, é o meu presente de 2.º aniversário.
Parabéns filho, parabéns por ti, por mim, por nós e por estes 2 anos.

Carta escrita ao meu filho por ocasião do seu 2.º aniversário.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Nos últimos dias...

- O meu amor pequenino, depois de uma semana em que esteve constipado e mais chatinho, voltou com o seu bom humor. Tenta dizer-me alguma coisa, eu não percebo e ele diz "a mãe não sabe". Tenho de arranjar um bloco para escrever tudo que me provoca gargalhadas.
- O parque continua a ser um dos nossos sítios preferidos. Esta semana, brincou na areia com 3 ou 4 crianças pacificamente. Uma vez ou outra lá exteriorizou (levantando a mão) o facto de lhe tirarem alguma coisa das mãos. Eu expliquei-lhe calmamente que todos podem brincar, que não é necessário bater, que pode pedir a pá ou o ancinho emprestados e emprestar. A Luísa emprestou-lhe a pá e o balde, elogiei a atitude dela, pisquei-lhe o olho (a ele) e correu tudo bem. Num dos momentos em que levantou a mão afastei-o do grupo calmamente e expliquei-lhe que os meninos ficam tristes se ele lhes bater. Ele voltou ao grupo. Correu bem.
- No dia anterior tínhamos andado pelo parque de bola no pé e na mão, os miúdos mais crescidos tiraram-lhe a bola. Faz parte. Por momentos não intervim, queria ver como se desenrascava. Os miúdos passavam a bola de um para o outro e ele corria para tentar apanhá-la. Numa das vezes conseguiu.
- No parque, brinca com a areia, apanha bolotas e folhas. Rasga as folhas em pedaços pequenos e simula que faz um bolo. Observa e tenta agarrar as formigas que caminham pelas árvores. Diz formiga corretamente, ao contrário da mãe que dizia "fanica".
- Cruza os braços, franze o sobreolho e diz "estou zangado". Pelo menos já verbaliza, o que é bom.
- Ao ver a lua no céu, diz "Olha mãe, a lua. Encontrámos". Eu digo "encontrámos" efusivamente. No caminho até casa, a lua esconde-se e ele tenta encontrá-la.
- Num dos dias em que estava a chuviscar, quando chegámos à porta de casa, saímos do carro, olhámos para o céu e sentimos a água no rosto. Experimentámos a chuva.
- Há umas duas semanas, na nossa cama, em que as rajadas de vento faziam abanar a janela do quarto de forma barulhenta, ele encostou-se a mim, como que a aninhar-se. Abracei-o, senti que estava com receio por não saber que barulho era aquele. Depois disse-lhe baixinho que era o vento. Disse-lhe, simulando o barulho do vento, que lá fora ele soprava com muita força; que as árvores estavam a abanar e as folhas a cair. Disse-lhe para não ter medo, era apenas o vento. Quando nos levantámos fomos à janela ver as árvores a abanar e, depois, abrimos a janela e sentimos o vento. Uns dias depois recordei-lhe este episódio. Ontem, ele disse-me "estava muito vento, as árvores a abanar, as folhas a cair e a mamã abraçou". Ele reteve que eu o abracei. Eu quero que ele retenha que o abraçarei sempre que precisar. 

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Grandes livros para pequenos leitores #4 - O mundo num segundo

TÍTULO: O MUNDO NUM SEGUNDO

Tenho de falar sobre este livro. Foi sugerido por uma professora quando, eu e um colega, apresentámos o projeto que queríamos implementar na Escola onde estagiámos - um projeto acerca do mundo. Foi um dos pontos de partida para explicar a noite e o dia e a diferença de horário em diferentes países. Fez-me correr atrás dele de livraria em livraria, estava esgotado. Pesquisámos na Internet e encontrámos o vídeo que nos fez (a nós e às crianças) falar dos temas referidos anteriormente. Este livro fala de diferentes sítios do nosso planeta e de algumas das coisas que podem acontecer ao mesmo tempo, dependendo apenas do sítio em que estamos/de que falamos. Usámos  este vídeo.
Partindo deste vídeo, alcançámos respostas em conjunto, realizámos atividades, simulámos realidades, ouvimos experiências, tirámos conclusões. Gostei muito do projeto em geral e desta parte em particular.


Se tiverem um candeeiro de secretária com braço regulável coloquem-no num ponto de uma mesa e chamem-lhe sol. À frente, coloquem um globo com um boneco de plasticina fixo em Portugal, por exemplo, virado para a lâmpada (sol). Nesse momento, será dia em Portugal, na medida em que este país é iluminado pela "lâmpada-sol". E do outro lado? E se começarem a rodar o globo, o que acontece a Portugal? Enquanto os meninos que vivem em Portugal estão na escola, o que farão os que estão do outro lado do globo? Que países encontramos do lado de lá? E a partir daqui, falem sobre o que quiserem, tendo sempre em consideração a idade das crianças envolvidas e as respostas que elas vão dando. A experiência de vida das crianças, muitas vezes refletida nas respostas que dão, na minha opinião, é que devem condicionar a evolução das atividades e as questões que se colocam. É por isso que eu não concordo com a definição de objetivos específicos para tudo e mais alguma coisa na área da Educação. Por vezes, as crianças permitem-nos ir muito mais além do que planeámos, não devemos ter medo disso. O inverso também pode acontecer, há que respeitar e saber contornar.
Este livro foi editado pelo encantado "Planeta Tangerina". É um livro de Isabel Minhós Martins e Bernardo P. Carvalho. A Editora Planeta Tangerina é um mundo e para ver todos os seus encantos um segundo é pouco.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Um dos muitos fundamentalismos da maternidade - a minha experiência

Gosto tanto quando dizem, peremptoriamente, que a amamentação ajuda/melhora a vinculação entre a mãe e o bebé. Em que situações? Pergunto.
Naquelas em que a mãe se encolhe com dores? Ou naquelas em que a mãe deseja que aquele momento único (leia-se tormento repetido) termine? Ah, já sei, deve ser naquela situação em que o bebé chora desalmadamente porque não consegue mamar. Preciso de rever urgentemente o que é isso da vinculação. E não, não é para justificar o facto de não ter amamentado, porque, em primeiro lugar, não tenho nada para justificar, em segundo, amamentei.
As mesmas pessoas dizem que o facto de o bebé procurar o olhar da mãe durante a amamentação e ela corresponder é sinal de que se está a estabelecer a vinculação entre os dois. É tudo muito bonito, mas lembro-me tão bem de o meu filho comer a primeira papa no biberão e olhar-me nos olhos, demoradamente, como nunca o tinha feito até ali (no momento da alimentação). É que quando eu estava a amamentar, a posição em que ele estava não permitia um contacto visual tão direto como quando lhe dava o biberão. Talvez não tenha aprendido a amamentar, pode ser isso, mas a verdade é esta.
Nos primeiros tempos foi doloroso, ele procurava desenrascar-se, eu também. Era aflitivo saber que ele estava com fome, que eu tinha leite e que não conseguia satisfazer-lhe esta necessidade. Foi duro e fez-me questionar várias vezes se estava a fazer o melhor para os dois. Lá fui insistindo e as coisas melhoraram. Por outro lado, quando ele estava desconfortável eu encostava-o ao meu peito, olhava para os seus grandes olhos brilhantes e sorria enquanto conversava calmamente com ele, colocava a minha mão em concha no seu pequeno rosto, massajava-o, cantava-lhe baixinho, conversava com ele, dizia-lhe que o amava. Amava-o. E ele acalmava, mais tarde começou a sorrir como forma de resposta à minha conversa, depois a palrar e por aí adiante. Acho que em tudo isto é que se estabelece a vinculação. Acho, sinceramente, que não é no acto de amamentar que a vinculação se estabelece, mas se a amamentação correr sobre rodas desde o primeiro dia, deve ajudar. Não foi o meu caso.
Outro argumento é o do aumento das defesas. Tendo amamentado por opção e acreditando em alguns benefícios, tenho a dizer, por experiência própria, que nem sempre é como dizem. Isto, ao contrário do que alguns dizem veemente, não é matemática. Amamentei em exclusivo até aos seis meses, o primeiro leite artificial que o meu filho bebeu foi aos 13, no entanto teve bronquiolite, dermatite seborreica/crosta láctea até aos olhos, otite. Se podia ter mais chatices destas e de outras se não amamentasse!? Talvez, não sei. Mas não foi porque amamentei que ficou imune. Apesar de escrever isto continuo a favor da amamentação, mas sobretudo sou a favor da opção de escolha: quem quer/quem pode, amamenta; quem não quer/não pode, não amamenta. Simples.
O que me irrita nas opiniões acerca da maternidade são as posições extremistas que se assumem em relação aos temas, como de uma guerra se tratasse. Também ouve quem me olhasse de esguelha e com espanto porque o miúdo aos 12 meses ainda mamava. E que me dissesse que deveria parar de amamentar para ele ser mais independente. Ouvi de tudo e qualquer uma das posições me irrita.
Se tiver outro filho, será que amamentarei? Tal como da primeira vez, eu gostava, no entanto, farei o que fiz da primeira vez; se conseguir, se isso não puser em causa o meu bem estar físico e psicológico e, consequentemente, o do bebé, amamentarei; caso contrário, seguirei outra opção. Tentarei impor um limite, porque os primeiros tempos não são fáceis, pelo menos para mim, a este nível, não foram, e procurarei respeitar esse limite. Eu gostava, mas na equação de uma eventual nova amamentação (eventual porque ainda não sei se terei um segundo filho, quanto mais uma segunda experiência de amamentação), tem a variável filho mais velho que também precisa de mim. E, confesso, amamentar é cansativo, requer disponibilidade, não há horas marcadas para o bebé mamar, não há hipótese de delegar, se o bebé não tiver o peso dentro dos parâmetros normais pode ser uma preocupação, até porque não há Conta-Kms (neste caso Conta-mL) para se verificar a quantidade de leite que o bebé mamou. Devíamos vir equipadas com esta opção, mas a natureza não nos dotou de tal equipamento. Assim sendo, se tiver um segundo filho, tentarei não stressar muito e viver bem com a opção que tome, sem culpas.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Mais uma verdade absoluta que era verde... veio um burro e comeu-a

Filho, tens uma cama nova montada no teu quarto à espera que te decidas. 
Não podemos dizer que é muito grande, apesar dos 90 cm por 200 cm contra os 60 cm por 120 cm do berço. Não podemos dizer que é alta demais. Não podemos dizer que vais sentir uma grande diferença entre o berço e a nova cama. Não podemos dizer que te vais perder no meio dos lençóis e do edredão tão grandes. Não podemos dizer que vais poder rodopiar tal ponteiro do relógio em dias em que o tempo passa muito depressa. Não podemos dizer que agora é que vais ter uma almofada do tamanho da nossa. A única novidade é que tens uma cama nova montada no teu quarto à espera que te decidas. Tudo o resto tu tens/fazes na nossa cama. Pois, e eu nem sou das que dizia "dormir na minha cama, nem pensar" porque achava que isso de não dormires na nossa cama era tão natural que nem requeria discussão. Toma lá mais uma verdade absoluta que era verde... veio um burro e comeu-a.
Deixa-me lá elucidar-te de como tudo isto aconteceu. Assim que nasceste, ainda no hospital, dormiste na minha cama, mas também dormiste no berço minúsculo temporário colocado estrategicamente ao lado da minha cama. Logo na primeira noite, depois de uma cesariana, para acalmar as supostas cólicas, a Enfermeira colocou-te em cima do meu peito. Uma sensação boa de estarmos ali, novamente só os dois, aninhados. A dificuldade chegou quando me tentei mexer, quando me quis levantar e, consequentemente, colocar-te no berço que estava ao lado da minha cama; remendada de fresco, sem capacidade para grandes manobras, lá consegui deitar-te ao meu lado, na minha cama. Acho que foi aí que tudo começou.
Em casa, nos primeiros dias, dormiste na alcofa da tua prima. Depois da 1ª consulta com a pediatra, em que esta nos disse que o bebé recém nascido dormir na cama dos pais aumenta o risco de morte súbita, apesar da vontade, nem pensei duas vezes; dormias na alcofa, no berço, ao colo, mas nem pensar que dormias na nossa cama. Não vivia a pensar na síndrome de morte súbita, mas tinha os meus medos. Acordava várias vezes para verificar se respiravas; deitava-te sempre de barriga para cima; a roupa da cama nunca ultrapassava os ombros; controlava a temperatura do quarto, não queria um quarto com uma temperatura muito elevada. Dormi de óculos e de luz acesa até completares 3 meses de vida, precisava de te ver assim que abrisse os olhos (a elevada miopia que tenho é o motivo de não ver um burro à frente, quanto mais um recém nascido), não podia perder tempo à procura dos óculos e do interruptor do candeeiro para ver se estava tudo bem. Depois, lá decidi comprar uma luz de presença e deixar os óculos em repouso (num ponto estratégico, debaixo de um dos cantos da almofada, para não os partir). Amamentei até teres 13 meses, mais coisa menos coisa, e lá para os 7/8 meses comecei a amamentar-te deitada, na nossa cama. Foi um descanso, adormecias e lá ficavas tranquilo; e eu deixei-me embalar pela nova rotina e pelo descanso que ela me proporcionava. Lá fomos adormecendo e ficando, de noite para noite, mesmo depois de a amamentação ter terminado, até agora.
A pediatra "deu-te" ordem de despejo do nosso quarto quando tinhas 6 meses. Eu, em pensamento, chamei-lhe louca. Como é que podia deixar um bebé de 6 meses sozinho num quarto situado ali mesmo ao lado? Desde então, ela pergunta sempre como é o teu sono. Ela sabe que ainda estás no nosso quarto, sempre demonstrei, inclusive, aversão à ordem de despejo aos 6 meses. O que ela não sabe é que ainda estás na nossa cama (nunca perguntou e eu nunca lhe disse), um dia conto-lhe.
Para já, para já o que te quero contar é que tens uma cama nova montada no teu quarto à espera que te decidas. Quando quiseres meu amor, estou pronta. Já sei que tu é que tens de estar pronto, não eu. Mas reforço a ideia, eu estou pronta.

Imagem retirada de Pinterest

Cá está o Burro do conto "Os Músicos de Bremen" depois de comer mais uma verdade absoluta. O raio do Burro, para além de tudo, ainda me goza.
Gosto tanto desta história. E Tu, filho, também. Olhamos para o livro e dizemos: o burro; em cima do burro está o cão; em cima do cão está o gato; em cima do gato está o galo. Coisas nossas. Um dia falo desta história, desta e de outras dos Irmãos Grimm.