quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Grandes livros para pequenos leitores #19 - O livro negro das cores

Este livro permite aprender e transmitir a inclusão, simular realidades, criar empatia, "experimentar" a cegueira, refletir sobre este filme
Lembro-me de ter encontrado este livro na livraria Bulhosa (mais uma vez esta livraria, trabalhava lá perto, era o passeio da hora de almoço) e de o querer comprar imediatamente. O valor era superior ao plafond disponível e, na altura, contentei-me com a oportunidade de folheá-lo e de imaginar o que faria com ele em contexto escolar (isto aconteceu nos meus tempos áureos de estudante, estudante de 30 e poucos anos).
Mais tarde, fiz um trabalho em que referi este livro e a minha sugestão de atividades foi muito óbvia: vendar os olhos das crianças; ler o texto em voz alta ao mesmo tempo que as crianças folheiam as páginas desta relíquia; orientá-las para a descoberta das texturas, promovendo assim a associação do texto lido às texturas impressas no livro; estimular a imaginação levando-as a cenários hipotéticos. A história associa as cores a determinados cheiros, logo, efetuar a leitura com a possibilidade de as crianças experimentarem o aroma associado a cada cor descrita no livro seria uma mais valia. Seria perfeito se cada aluno tivesse o seu livro e a atividade/experiência fosse realizada com todos os alunos ao mesmo tempo.
Outras hipóteses: disponibilizar objetos, propor o manuseamento dos mesmos de olhos vendados, pedir às crianças para os descreverem, bem como a sua função; propor a deslocação na sala de aula com os olhos vendados de um determinado lugar a outro seguindo as instruções dadas pelo professor/pelos colegas; sentar as crianças em roda com os olhos vendados, apresentar uma sequência de sons - um carro a chegar, um comboio a apitar, a chuva a cair - e pedir para descreverem o lugar para onde são "levados" pelos sons; registar todas as dificuldades que as crianças vão sentindo. No final, em grande grupo, debater os obstáculos encontrados e as dificuldades sentidas e recolher ideias para melhorar o quotidiano de pessoas com deficiência visual. Tudo isto aconteceria no campo da simulação e da manipulação de realidades, mas poderia ser um ótimo ponto de partida para a compreensão das dificuldades que alguns sentem, para a inclusão, para o respeito pelo outro, para a aprendizagem da empatia. Este livro é maravilhoso por tudo o que pode representar, foi amor à primeira vista, à segunda, à terceira... É impossível ficar indiferente: um livro tão poético, que consegue transmitir a realidade (de alguns) com uma sensibilidade ímpar.


O Livro negro das cores é da Bruaá Editora, texto de Menena Cottin e ilustração de Rosana Faria. 

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Quero Ver (ou já vi): Helen Keller e o milagre Anne Sullivan

Há uma semana consegui um par de horas de "folga". Com algum barulho de fundo (as reclamações do miúdo), mas livre das habituais tarefas (banho, jantar, deitar) e com poucas interrupções. O sofá e o comando foram meus durante aquele tempo. O pai comandou o barco - vou reivindicar mais folgas como esta.
Procurei o documentário "o começo da vida" no youtube, enganei-me e coloquei na pesquisa "o milagre da vida". Nas 1001 opções listadas, apareceu-me este filme: 


O nome Helen Keller soava-me familiar, a imagem captou a minha atenção e acabei por pressionar o play quase involuntariamente. O filme começou e eu não o larguei mais, foi um daqueles encontros felizes e inesperados que nos prendem ao ecrã. O filme é forte, é complexo, é emotivo, é bonito. É intenso. É tanta coisa e ainda consegue ser uma lição.
É baseado na história verídica de Helen Keller que ficou cega, surda e muda antes dos dois anos de idade. Retrata o período da sua vida em que os pais, desesperados pela incapacidade que sentem em relação à sua educação e perante o comportamento agressivo da filha, procuram ajuda externa numa professora, que também ela foi cega. E aqui começa a montanha russa de sensações, emoções e questões.
Os pais que permitem que a filha faça tudo devido à sua condição. Os pais que sentem pena da filha. Os pais que não conseguem, sozinhos, estabelecer comunicação de forma eficaz com a filha. Os pais que premeiam com doces o comportamento agressivo da filha. Os pais que amam a filha.
Uma professora que chega decidida em pôr a pequena a comunicar, nem que para isso tenha de enfrentar e desafiar os pais, pondo em causa o seu desempenho. Que lhes pede/exige para ficar sozinha com a criança de 6/7 anos, sem permitir sequer visitas. Que questiona os seus métodos ou a ausência deles. Que me parece focada/obcecada num objetivo. Que põe em causa muitas correntes pedagógicas/ideias educacionais que tanto defendemos hoje. Uma professora que ama aquela criança.
Dou por mim a assentir o comportamento da professora no momento em que a criança lhe bate e ela retribui da mesma maneira; logo eu que tento excluir a palmada da educação que dou ao meu filho; logo eu que até repito a frase mais do que feita "comportamento gera comportamento". Dou por mim a não julgar a professora quando esta condiciona a proximidade entre filha e pais (ela considera que eles são um travão ao seu desenvolvimento); logo eu que defendo tanto que a escola e a família devem ter uma relação de proximidade. Tudo aquilo me parecia um tratamento de choque, com o qual eu discordo, no entanto os resultados surgem e a empatia com a professora aumenta. No final, fico com a certeza de que aquela professora amou muito Helen: acompanhou-a até ao fim dos seus dias. Não me parece que falar de métodos pedagógicos seja o mais importante quando se vê este filme, no imediato não pensei nisso, mas mais tarde sim, confrontei o que defendo com o que vi, consciente das adversidades da situação e do contexto.
É um filme de emoções fortes, que nos arranca lágrimas com muita facilidade, mexe connosco, põe em causa as nossas (as minhas, neste caso) convicções e espelha a capacidade que podemos ter para amar o próximo. Educar não será tarefa fácil para ninguém, mas só alguns conseguirão educar em determinados contextos. Claro que os tempos são outros, sabem-se mais coisas (às vezes), existem outros apoios (para alguns), a tecnologia evoluiu bastante, mas em jeito de conclusão só me ocorre pensar que todas as crianças (com ou sem deficiências; com ou sem dificuldades, financeiras incluídas; com ou sem limitações) deviam experimentar uma dedicação (por parte de educadores e professores) semelhante. E não, não estou a escrever que não existe, estou apenas a escrever que nem todos têm a possibilidade de experimentar isto. Nem todos necessitarão de uma dedicação igual à que Helen necessitou, mas todos necessitam de alguma.
Conheço um jovem que não pode frequentar a escola devido a uma doença oncológica; a escola em que ele está matriculado ainda não encontrou uma solução para ele fazer este ano letivo; estamos prestes a terminar o 1.º período; isto nos dias de hoje em que conseguimos, em tempo real, saber se está a chover no outro lado do mundo. Uma adolescente, com problemas cognitivos diagnosticados, tem apenas 1 hora de terapia da fala por semana. Um bebé de 19 meses que removeu um tumor parcialmente e que não vê; não conheço esta mãe, mas quando se fala da sua história tenho sempre vontade de a abraçar; sei que ela precisa de muito mais do que o meu abraço. Aposto que há professores  e técnicos no desemprego (e no ativo) capazes de se dedicarem a estes tipos de casos... Mas já sei, é tudo mais complexo do que estas simples e insignificantes palavras proferidas por quem não percebe nada do sistema, por quem não compreende a complexidade de pôr em prática a Intervenção Precoce em pleno, por quem não entende as equipas multidisciplinares. Sou uma básica, também já sei, não consigo alcançar tanta complexidade. Voltando ao filme, vale muito a pena.

Helen Keller pareceu-me familiar devido ao Centro Helen Keller: "a primeira escola portuguesa a integrar alunos com deficiência visual, fortemente ligada à evolução da Educação Especial no nosso país".

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Reflexões profundas (ou não) #29 - o crescimento: o meu enquanto mãe compradora, não o do miúdo

Nos últimos anos, quando entro numa loja (real ou virtual) o percurso principal é sempre o da secção de criança. A semana passada entrei numa loja online e comprei um vestido para mim - 12,50€ com 50% de desconto incluído; sou a rainha das promoções; em alguns sites só compro quando há promoções de 50%) . Atrelado ao vestido ainda veio uma fronha para o miúdo, mas só isso. Estou crescida, um dias destes ainda começo a sair à noite.

Ainda a propósito de roupas, ofereceram-lhe um conjunto de roupa, no aniversário, de uma marca que nunca comprei na vida. Uma camisa muito grande, com um padrão que não gostei muito, no valor de 49€!! Pensei de imediato trocá-la por umas 10 camisolas de algodão para o Inverno, vinha mesmo a calhar... Isso era se fosse numa das lojas em que costumo comprar roupa, naquela deu para duas e ainda tive de pagar a diferença -  ainda perguntei se podia converter aquele valor num "cartão oferta", para utilizar nos saldos, mas não foram na minha conversa. Ainda me falta (crescer) um bocadinho "assim" para compreender estas coisas (€). No entanto, ao nível do aproveitamento de promoções, o meu desempenho tem melhorado bastante. 

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Reflexões profundas (ou não) #28 - Árvore de Natal antes do dia de São Martinho?

Minha querida irmã, que fizeste a árvore de Natal antes do dia de São Martinho e que começaste a falar em presentes 2 meses antes do Natal, vamos ver quem é a última a desmanchar a dita árvore? Quem é que vai fazer render mais o peixe, quem é? Fevereiro? Março? Junho? Não me desafies. Estou preparada para a deixar na sala até ao Natal de 2017.
E mais: reza a história que o pai Natal deixa os presentes na árvore de Natal, no sapatinho, na chaminé, onde quer que seja, na noite de 24 para 25 de Dezembro. Não é suposto ires comprar os presentes com a tua miúda e quereres que ela acredite que o Pai Natal existe. O miúdo ontem chegou lá a casa com a conversa de que o Pai Natal trará o quartel dos bombeiros do Mickey; perguntei-lhe como é que ele sabia tal coisa; respondeu-me que a prima, num dos diálogos sérios e estridentes que têm às eufóricas segundas feiras (quando ele a vai buscar à escola), lhe contou. Agradecia que não estragasses a história do Pai Natal que enfiei na cabeça do miúdo o ano passado, na medida em que me deu algum trabalho. Mais um pouco e tenho de justificar que a prima foi eleita Elfa Ajudante do Pai Natal e que tem acesso a informação privilegiada e ultra secreta. Ou então suborná-la para que ela não lhe conte nada.
E para ajudar a festa, a minha mãe diz-me que a miúda já é crescida, que já não acredita no Pai Natal. A miúda acabou de fazer 6 anos, ainda o ano passado acreditava. Qual é o vosso problema? Não se lembram de tentar fazer este tipo de coisas?


quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Quando for grande quero uma escola que faça assim / A brincar é que a gente (pequena) se entende #16 - brincadeiras para fazer em casa

Vamos tentar fazer um barco de papel. Vou orientá-lo para a observação, para a descrição do que observa, para a experimentação.


Quantas cores pode ter um dia?


Pois, não deixo que comas isto... São corantes, filho.


Vamos fazer um cavalo marinho. Depois explico porquê.


Carimbos!!Quando eu era estudante, uma professora pediu-nos para realizarmos um trabalho com carimbos de batata e para elaborarmos um relatório com uma reflexão pessoal: não gosto de estragar comida para realizar trabalhos manuais, detesto estragar comida, muito menos por isto; choca-me que o façam nas escolas, há tantas alternativas - escrevi.


Fizemos o ano passado no dia de Natal, numa caixa de sapatos. Fizemos mais pontos de tinta e com mais variedade de cores numa folha A4 preta, colocámos dentro da caixa vários berlindes, tapámos a caixa, agitámos a caixa, retirámos a tampa e... Surpresa! Desta forma (no vídeo), exige uma maior atenção e concentração.


Gostei muito de encontrar este The Dad Lab

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Às vezes não sou a mãe que ambiciono ser

Às vezes não sou a mãe que ambiciono ser. Nem ele o filho calmo e tranquilo que eu necessito que ele seja. Ele consegue acordar às 6h30m mesmo quando se deitou mais tarde do que o habitual na noite anterior. Ele consegue falar muito alto quando eu lhe peço para falar baixo. Ele tem energia para começar a martelar antes das 7 da manhã - vivemos num prédio, não o posso deixar fazer tal proeza. Consegue desobedecer a todas as instruções que lhe dou e a todos os pedidos que lhe faço. Consegue dizer-me que quer comer e que não quer comer 60 vezes em 30 segundos. Consegue chorar muito alto. Consegue desarrumar o quarto dele, o meu, a sala e a cozinha quase à velocidade da luz. Consegue pedir-me colo depois de me zangar. Consegue morder-me (novidade boa!). Consegue dizer que não gosta de mim... Nem sempre consegue tudo isto, menos ainda no mesmo dia, mas no fim de semana passado conseguiu. 
E eu... eu não consigo ver que estamos muito tempo só os dois, que não tenho tempo para brincar com ele como tinha, que estou a deixá-lo ver muita televisão (até aos dois anos, em casa, era muito raro ver televisão; agora sinto que precisamos de reduzir), que os nossos fins de semana têm sido medonhos, que ele tem saudades de ter o pai em casa mais tempo (vai ter no próximo fim de semana), que as rotinas se alteraram, que estou mais cansada e menos tolerante. Que chorei à frente dele quando ele estava a lamuriar: ele engoliu a lamuria; as lágrimas que estavam  à porta, recolheram-se intimidadas; abriu as janelas dos olhos e perguntou-me com um grande espanto, estás a chorar!? Sim filho, a mãe também chora. Depois abraçou-me. E no final do dia disse-me que eu era a melhor mãe do mundo. Eu também costumo dizer que ele é o melhor filho do mundo, que é a minha pessoa preferida, mas este fim de semana não me lembro de o ter dito.

Vou parar com as lamurias (as minhas) e interiorizar que é só uma fase. Logo, logo estará tudo mais equilibrado.

Apesar desta minha reflexão, de reconhecer alguns aspetos que quero mudar e de compreender que ele está a passar por várias mudanças/adaptações, não posso deixar de impor as regras que acho (mesmo) necessárias. Tento compreende-lo e ajudá-lo (ao mesmo tempo que procuro compreender-me e ajudar-me), mas há coisas que não posso (nem quero) permitir. É mais difícil, dá mais trabalho, mas sinto que é assim que o devo fazer. Se é certo ou errado? Para mim, por agora, é o certo.

Filho, digo-te muitas vezes que gosto sempre de ti, mesmo quando estou zangada. Este sempre de que falo é o "sempre" mais verdadeiro da minha existência, é um "sempre" por inteiro (e olha que eu fujo a sete pés do sempre e do nunca, do "para sempre" e do "nunca mais"). Um dia destes, disse-te que estava zangada contigo. Tu respondeste-me: não faz mal eu gosto sempre de ti. Acredito nisto, mini pessoa do meu coração, até quando dizes o contrário.