segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Reflexões profundas (ou não) #33 - Férias antes das férias

Ela está em contagem decrescente para ir de férias: faltam 3 semanas. Está estafada, farta da rotina, cansada de sapatos e de roupas apertadas e engomadas. Por vezes, jura que é capaz de partir o telemóvel só porque o intrometido tem a mania de tocar à hora marcada. Para agravar este quadro, a sua colega foi de férias e ela tem de fazer horas extraordinárias. As ordinárias das horas pesam-lhe. O sócio do seu companheiro-amigo-namorado também foi de férias e o dito chega a casa quando o miúdo já dorme. A casa continua sem se arrumar. A empregada foi de férias mesmo antes de ser admitida. Brinquedos e livros saltam das prateleiras sem ninguém perceber o motivo. Roupa suja multiplica-se. E, sabe-se lá porquê, as pessoas que habitam a mesma casa que ela têm de comer todos os dias. Mas a tia do miúdo ofereceu-se (leia-se exigiu) para ir buscar o miúdo à escola, para lhe dar banho e para lhe dar o jantar toda a semana. Se isto não são "férias antes das férias", não sei o que serão.
Só um pedido dela, que pedir não custa: férias depois das férias, também se arranjam? Sim, ela sabe que vai precisar, é uma visionária.

E com tudo isto, o miúdo da minha vida vai andar feliz da sua porque vai estar com a prima todos os dias. A prima é, definitivamente, um dos grandes amores da sua vida. O outro sou eu... acho eu.  

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Frase para o (meu) mês de Agosto: deixem-me da mão, calem-se todos, que eu quero ser mãe só por intuição

Deixem-me ser mãe só por intuição. Deixem-me despir as teorias que eu própria vesti, convencida de que me assentam bem. Deixem de me gritar as (pseudo) teorias em dialectos que não compreendo, talvez eu não tenha grande vocação para a interpretação. Deixem de publicitar boas práticas embrulhadas em palavras caras, porque o meu orçamento não me permite adquiri-las. Deixem-me deitar fora os meus preconceitos, não os vou dar a ninguém já que a ninguém fazem falta. Deixem-me da mão. Deixem-me ser mãe só por intuição.

É difícil contrariar o que me é natural desde sempre, contrariar a minha experiência de vida, contrariar tudo o que vivi e tudo o que fez de mim o que sou. Mas cheguei à conclusão que também não é fácil navegar contra a minha essência. E que esta até pode ter aspetos razoáveis. Nesta coisa que é a prática quotidiana da maternidade é impossível fazer tudo certo, já o sei há muito. Sempre o soube. Mas há momentos em que as coisas menos certas se sucedem, como um extenso comboio que passa à nossa frente, que nos impede de passar para o outro lado da linha, com uma locomotiva seguida de uma carruagem, e de outra, e de outra, com aquela música de fundo a toda a velocidade, sem hipótese de parar, só com o destino como alvo. Até que, de repente, ouves aquele apito sonoro e imponente, os teus alarmes internos disparam, arregalas os olhos e fixas o olhar no outro lado da linha, mesmo com o comboio a passar a todo o vapor. Porque sabes e porque sentes que é para ali que deves ir: para o outro lado da linha. Assim sendo, às vezes fazes tudo errado, mas consciente do que (para ti) é certo. Então, começas a caminhar no sentido inverso ao do comboio, desvias-te dos maus caminhos que se apresentam e voltas ao teu lado da linha, ao lugar certo (para ti). Foi a tua essência que to disse. E aos alarmes internos que disparam e que te repreendem chamas de "minha intuição". E se assim o é, deixem-me da mão, calem-se todos, que eu quero ser mãe só por intuição. E aquela frase de que "não andamos aqui só a ver passar os comboios" faz todo o sentido. Apanhamos os que nos levam a destinos desejados e ignoramos os demais.


Imagem retirada da Internet: fonte desconhecida

Há teorias interessantes, há exemplos inspiradores, há relatos motivadores. Mas também há teorias extenuantes, rebuscadas, desinteressantes. E eu estou numa fase em que já não consigo aceitar, nem sequer ouvir, tudo o que têm para me dizer. O que eu preciso é de me ouvir mais, já que denoto um conflito entre o que a atribulação dos dias e vivências passadas me levam a fazer e o que eu quero fazer; entre o que sou e o que fizeram que eu seja (consciente de que a essência que me calhou não é feita apenas de virtudes nem herdei só defeitos). Para isto preciso de silêncio. É só isto.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Olá Agosto de 2017

Agosto é, por excelência, um mês de comemorações. É festeiro. É rebelde. É forte. É desobediente. É boémio. É descontraído. É livre. É meu. É, literalmente, o meu mês. Espero que me reserve dias de praia, dias de piqueniques, passeios, aniversários, início de férias.
E nos últimos dias deste mês esperam-me: uma viagem de barco, uma ilha, um passadiço como este, um mergulho no meu mar (um de cada vez), uma casa pequena, uma família junta.  

Imagem retirada da Internet (fonte desconhecida)

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Olá e Adeus meu querido mês de Julho de 2017

Despedi-me de Junho com tanta pressa que acabei por me esquecer de cumprimentar Julho. E agora que já estou com os pés em Agosto é que me deu para as lamechices Julinas - costumamos falar em festa Junina, mas permito-me adaptar o léxico das lamechices aos meses de que falo.
Julho, não foste propriamente um mês maravilhoso, mas já me habituei que não o sejas. Não reclamo nem lamento. Foco-me apenas no bem que me trazes e aproveito os rochedos sinuosos que plantas à minha frente para treinar a elasticidade, a força e o equilíbrio. Escalo o paredão, por vezes sem corda nem grande proteção, e quando chego ao cume decido se passo para a outra margem descendo vertiginosamente ou em modo de "suspensão". Sempre apreciando as vistas.

Imagem retirada daqui

sexta-feira, 28 de julho de 2017

À conversa com o meu filho #18 - Mais conversas esquecidas, mas mais animadas


Conversa I
- Gostas de vinho? - perguntou à Ama.
- Não gosto muito. - respondeu-lhe ela.
- A minha mãe e o meu pai gostam. Quando for grande também vou gostar...

Conversa II
 - Wã, gôn e sons afins. - Repete o miúdo enquanto vê a história de Os Três Porquinhos em chinês.
Já escrevi que não aguento os Porcos, não já!?

Conversa III
- Peço-lhe para estar quieto enquanto lhe corto as unhas. Não fica quieto. Zango-me e reclamo.
- Não quero que te zangues, mãe. Estás feliz? - pergunta-me enquanto me dá um beijo e me abraça.
Sacana!

Conversa IV
- Mamãzita e papazinho - é assim que nos trata nos últimos dias.
(Era assim. Esta fase, entretanto, já passou)

Conversa V
- Passámos uns dias fora e encontrámos uns amigos. Um dos casais tem uma filha que foi elogiada da seguinte forma: Pareces uma sereia! (Isto já foi em Abril).
Vá lá, não lhe chamar sereia, gata com rabo de baleia (Musical Capitão Miau Miau).

Conversa VI
- Filho, andas a preparar surpresas para a festa do dia da mãe?
- É segredo, não podemos dizer às mães. Nem a ti.
Ninguém me mandou perguntar.
(Isto foi em Maio... claro, o dia da mãe é sempre em Maio)

Conversa VII
- O pai pede-me queijo, eu reclamo que tenho pouco... O miúdo grita da casa de banho: temos de partilhar.

Conversa VIII
- Quando alguma coisa não lhe agrada, ele diz alto a seguinte frase: Ai mãe do Céu.

Conversa IX
- Filho, sabes que, para mim, és a pessoa mais importante do mundo?
- Ele olha-me nos olhos fixamente.
- Sim, és.
- A sério!? - pergunta-me espantado.
Filho, já to disse tantas vezes... Já percebi que nunca é demais dizê-lo.

Conversa X
- Mãe, quando fores pequenina vais para a minha barriga?
- Não filho, a mãe já foi pequenina. Estive na barriga da minha mãe, que é a tua avó, tal como tu estiveste na minha.
- Como?
- O pai pôs uma semente na barriga da mãe.
- Como? Pela boca? Comeste a semente?
... (tive de lhe contar a história verdadeira).

Conversa XI
Saímos da serra e lá no alto estava a lua, ainda tímida e escondida, mas a querer mostrar-se. Chegámos a casa e lá estava ela novamente, já mais descarada e nítida.
Ele perguntou-me: Mãe porque é que a lua anda? E lembrei-me desta conversa com a miúda e desta história dedicada a ela.
Se estivesse em casa com o miúdo, na modalidade de ensino doméstico, por exemplo, seria este o tipo de questões que aproveitaria para trabalhar com ele as mais diversas áreas.

À conversa com o meu filho #17 - Conversas esquecidas na pasta dos rascunhos

Encontrei este rascunho esquecido.

- Mãe, não te quero perder.
- Filho, não me vais perder...
- E ao pai?
- Também não, meu amor.
- Uma vez perdi o pai. (Teve um pesadelo em que perdia o pai, ainda não o esqueceu).

Há umas semanas perguntou ao pai se eu ia morrer. (Madeira, madeira, madeira). Depois, seguiu-se a seguinte conversa:
- Mãe não quero que morras. Vais morrer?
- Só daqui a muito tempo, quando for muito velhinha. e quando tu também fores muito velhinho.
- Daqui a umas semanas? - perguntou ele.
- Não filho, ainda falta muito tempo para ser velhinha.
- Não mãe, tu já foste velhinha. E eu também.
- Então isso significa que vamos voltar a ser meninos os dois, filho?
- Tu vais ser menina, mãe. (se tu o dizes, filho, eu acredito).
Arrependi-me desta conversa, pelo menos com este discurso. Ele não tem noção o que é daqui a muito tempo, nem o que é ser muito velhinha/o, nem quanto tempo vou demorar a ficar velhinha. Ele tem uma avó velhinha, mais velha do que as outras, mas não sabe quanto tempo é que ela levou para chegar ao estatuto de "muito velhinha".
No final tentei tranquilizá-lo, disse-lhe que estarei sempre por perto; que se não estiver, mesmo que seja por pouco tempo, as pessoas que gostam dele estarão disponíveis para para cuidar dele e para o ajudar; falámos das pessoas que gostam dele e que lhe são próximas. Acrescentei ainda que, mesmo estando por perto, se necessitar de ajuda, há gente disponível para me ajudar.
Dias depois voltou à carga: Mãe, não quero que vás para o céu como o teu pai... Mais um agradecimento à querida tia por falar de "realidade" com o miúdo.

Não quero morrer cedo, não quero morrer nova, acredito que a maioria das pessoas não quer. Quero viver bem, com saúde física e psicológica. Não quero viver vazia de recordações, não quero esquecer o que vivi, não quero deixar de me lembrar da pessoa que sou. Confesso que um dos meus medos é "desaparecer" cedo, antes de o ver crescido, formado no curso da vida que ele escolher, adulto realizado, velho, amigo, saudável, feliz. Há medos que ganham tamanho depois de sermos mães, este é um deles.