segunda-feira, 23 de maio de 2016

A brincar é que a gente (pequena) se entende #10 - Dias nossos

Na sexta feira, ao final da tarde, antes de uma saída a dois, foi dia de metermos uma banheira e um alguidar com água morna na varanda da avó. Estava um dia de verão. Ele e a prima a chapinhar e a "mergulhar". Ele sem fralda, ela de cuecas. Eles a brincar com a água, eu a limpar o chão com a esfregona. Depois, hora de banho a dois. A loucura. A avó chegou: enquanto uma limpa um, a outra termina o banho do outro. Dar-lhes o jantar. Dar-lhes um beijo. Sair para jantar... a medo.
Dormir a primeira noite sem a mãe. Dormir a primeira noite sem o filho. Várias mensagens enviadas à avó para saber se estava tudo bem. Jantar a dois. Cumplicidades. Pensar e falar nele várias vezes. Chegar a casa às 2 da manhã, adormecer às 3 e acordar às 6h30 (sentir a falta daquela "pessoinha" despertou-me a esta hora). Enviar nova mensagem à avó. Receber uma mensagem que nos informa que o miúdo estava acordado. Tomar o pequeno almoço rapidamente. Ir buscá-lo. Encontrá-lo bem. Receber um abraço. Ouvir "voltaste, mamã", mas sem o ar dramático habitual. Ouvir o meu bebé dizer que queria ficar na casa da avó. Respirar de alívio. Sair de casa da avó. Ir à estação ver os comboios de perto e ir ao parque às 9 da manhã. Adormecer às 11h e acordar às 14h. Almoçar tardiamente.
Há quase 1 ano tentámos a primeira noite sem ele, mas às 2 da manhã estava na casa da minha mãe para dormir com ele. Desta vez consegui, mas ainda não foi tranquilo. Vamos com calma.
Fim de semana caseiro e tranquilo. Com brincadeiras inventadas: salta a rolha - ele e o pai inventaram esta brincadeira. Gritam "salta a rolha"; atiram a rolha; andam à procura dela pela casa; chamam-me, orgulhosos, para assistir. Uma ida ao parque com o pai enquanto a mãe ficou a terminar as limpezas (para quando um sistema autónomo que nos limpe a casa?). O relato de uma perseguição aos dragões. Terminar o fim de semana com mergulhos na banheira, com a casa de banho cheia de água e um miúdo feliz da vida.
Para eles brincar é natural... E para nós, às vezes, também.

Imagem retirada daqui

Olá segunda feira: Cada semana que passa tornas-te mais difícil para mim. E eu nem tinha muita aversão à segunda feira...

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Pessoas que me inspiram #2 -Quem foi o professor que mais vos influenciou?

É a questão colocada numa publicação na página de facebook da Raiz Editora:


Não me lembro de muitos dos professores que tive. A maioria não me marcou, até porque eu não tinha uma boa relação com a escola. Nunca fui boa aluna. Não gostava da escola. Não estudava. Achava que algumas das matérias eram muito básicas, outras não me interessavam. Tive alguns problemas de saúde que me levaram a faltar algumas semanas durante 4 anos consecutivos (visão no 2.º ano, operação no 3.º ano, acidente no 4.º ano, febre reumática no 5.º ano). Chumbei no 6.º ano e a justificação unânime foi a da ausência por períodos de tempo, relativamente longos, nos anos anteriores. Não me parece, sinceramente, que tenha sido esse o motivo. No 6.º ano faltava à escola para passear com amigas que não eram da minha turma, logo tinham horários diferentes do meu; foi a maneira que encontrei para estar com elas. Apesar das desconfianças da minha mãe, nunca andei com más companhias (talvez a má companhia fosse eu), nunca fumei,  nunca bebi, nem tinha namorado; faltava (às aulas, não à escola) porque qualquer coisa era melhor do que estar nas aulas. Lembro-me de detestar quando o meu pai me chamava a atenção pelo meu fraco desempenho escolar. E quem é que lhe chamava a atenção pelo seu fraco desempenho parental? Pensava eu - talvez seja injusto escrever isto, não sei se a culpa terá sido apenas dele, mas minha não terá sido com certeza. Aquele chumbo foi perdoado, mas não podia haver outro. Cheguei ao final do 2.º período do 8.º ano com 1 positiva (ou nenhuma, não tenho bem a certeza). A minha mãe chegou a casa, depois da reunião com a Diretora de Turma, com a minha sentença definida: sair da escola e ir trabalhar. Lembro-me bem desse dia, lembro-me do dia seguinte, lembro-me do medo e do peso daquela sentença e da mudança que isso teria na minha vida, lembro-me das conversas na escola no dia seguinte. Parece que fui o tema principal da reunião. Implorei para que a minha mãe não me tirasse da escola, prometi que recuperaria no 3.º período. Ninguém acreditava naquela recuperação, eu tinha andado a assobiar para o lado o ano inteiro, tinha 1 mês e pouco de aulas porque naquele ano a PGA (Prova Geral de Acesso) seria realizada naquela escola. A minha mãe acedeu ao meu pedido. Levantava-me às 5 da manhã para estudar e pôr matéria em dia. A maioria dos meus colegas faria apenas um teste, eu teria de fazer 2 a todas as disciplinas. Era difícil, mas eu meti na cabeça que tinha de tentar. Tentei, esforcei-me e consegui. Transitei para ano seguinte. Mas o meu problema com a escola continuava a existir. No 9.º ano repeti a "brincadeira" e não correu bem. Não tentei recuperar com o afinco do ano anterior. Chumbei. Saí da escola. Comecei a trabalhar. Fui proibida de visitar as minhas amigas de sempre (vivia num sítio e estudava noutro). Perdi, aos 14 anos (quase a fazer 15), as minhas raízes. Paguei caro por isso. Fui estudar à noite no local onde vivia. Fiz o 9.º ano. Resolvi tentar o 10.º ano. Toda a gente achava que eu não tinha queda para a escola, que eu não era capaz, que era pouco inteligente. A escola deixou de ser uma obrigação, a minha obrigação era trabalhar. Não faltava à escola. Fiz o 10.º, 11.º e 12.º anos à noite, a trabalhar, sem chumbar, com média de 15.
No 10.º ano tive uma professora de Geografia que me perguntou que área seguiria quando fosse para a faculdade. Nunca tinha pensado seriamente (talvez secretamente) avançar para uma licenciatura; acho que ninguém, até aquele momento, pensou que eu fosse capaz de tirar um curso superior; tinha sonhos, mas (julgo) não me achava capaz. Esta professora mudou o meu percurso com esta simples pergunta. Ela não questionou se eu pensava ir, ela apenas considerou que uma aluna como eu iria, naturalmente e garantidamente, para a faculdade. O meu percurso não foi fácil, não arrisquei quando devia ter arriscado. Quando terminei o 12.º ano entrei em Biologia, mas desisti porque não consegui conciliar escola e trabalho. Anos mais tarde, decidi tentar conciliar trabalho e faculdade (tudo em horário diurno), sabia que era difícil, mas a pergunta daquela professora nunca me saíra da cabeça. Tirei a licenciatura de 3 anos em 3 anos. Profissionalmente falando, ainda não alcancei o que desejo, mas pessoalmente, aquela professora mudou-me para sempre. Mudou o meu percurso, os meus objetivos, a imagem que tinha de mim. Ela não imagina até onde irá a sua influência. Nem eu. Mas acredito que um professor pode ser um marco fundamental na vida dos alunos (crianças e adultos).
Obrigada, professora Cristina.

Não tenho, propriamente, orgulho no meu percurso escolar; sei que paguei caro pelas minhas opções, mas também não sinto vergonha. É o meu percurso, foi o que vivi, faz parte do que sou. Se mudaria alguma coisa se voltasse atrás? Com certeza. Apesar de saber que foi o meu percurso que me trouxe até aqui, tentaria um trilho mais fácil.
Se leres isto um dia, filho, retém esta última parte: eu mudaria algumas das minhas opções. Lembra-te que a tua decisão de hoje influenciará o teu amanhã; pode não condicioná-lo ou defini-lo, mas que o influenciará, influenciará. Desejo que faças boas escolhas e que mesmo as menos boas te façam evoluir.

À conversa com o meu filho #5 - Mãe, tu dizes cada coisa!

Ele: Mãe, fica comigo. Não vás trabalhar.
Eu: Filho, hoje já é quinta feira, amanhã é sexta. E depois não vou trabalhar, vamos passear muito! Vem aí o Sábado. E o domingo!
Ele: Mas o sábado e o domingo não têm pés.


Tens razão, filho, mas podiam ter. Se tivessem, eu dizia-lhes: venham depressa, corram, o meu filho quer que cheguem rapidamente. E eu também.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

A minha pessoa preferida.

Claro que é uma eleição óbvia, ninguém se espantará com o resultado da mesma. Olhando para o nome deste blogue é mais do que previsível. Que coisa tão desinteressante. Mas, ainda assim, vou passar para palavras parte do que sinto quando penso que és a minha pessoa preferida, meu amor. Meu filho.
És a minha pessoa preferida porque nenhuma outra conseguiu que um simples contemplar de rosto, debaixo de uma luz de presença discreta, tivesse um efeito rejuvenescedor e calmante. Porque, antes de ti, nunca tinha pensado que a subida de um escorrega ao contrário e uma descida apressada de barriga e de cabeça para baixo, contrariando as regras da maioria, fosse sinónimo de valentia e de orgulho - para mim. Porque, antes de ti, ninguém curou as minhas feridas com um simples beijinho - tal como tantas vezes te digo, tu também me dizes "O teu dói dói vai passar com o meu beijinho". Porque nunca equacionei faltar ao trabalho por alguém mo pedir; agora, tu pedes, e eu equaciono sempre se não será um bom dia para fazê-lo. Porque, até hoje, ninguém me disse que queria ir trabalhar comigo; foste o primeiro. Porque ninguém me fez chorar e emocionar com tanta facilidade como tu. Porque nunca amei ninguém com tanta certeza e de forma tão pura e desinteressada como te amo, minha "pessoinha". Porque ninguém me fez acordar tantas vezes durante a noite como tu sem que isso abalasse sentimentos (qualquer outra pessoa a acordar-me tantas vezes como tu teria as malas à porta na terceira noite... e estou a ser simpática). Porque ninguém me disse "Não te preocupes, eu vou resolver isso" com a tua convicção (emociono-me quando dizes isto, sou uma parva, é oficial). Porque nunca vi ninguém esperar por mim com a alegria com que tu me esperas. Porque nunca senti que tivesse sido o n.º 1 na vida de alguém como sou da tua. E ninguém foi o n.º 1 na minha vida como tu és. Porque nenhum beijo pela manhã teve o efeito que o teu tem (tu nem és muito amigo de beijos, mas de quando em vez surpreendes-me). Porque ninguém me perguntou "Estás zangada?" com o teu tom matreiro, simultaneamente solidário, e averiguador - com esta pergunta pretendes averiguar, quase sempre, se podes esticar a corda mais um bocadinho. Porque ninguém me fez ler a história dos 3 Porquinhos 365 vezes por ano. Porque ninguém me está gravado no coração como tu estás. Porque ninguém me fez ter tanta vontade de regressar a casa ao final do dia como tu fazes (se me atraso por algum motivo, começo logo a contar os minutos a menos que temos para nós, preciso de descontrair em relação a este assunto, reconheço). Porque nada nem ninguém se compara a ti. Tens um jeito que me cativa, um sorriso que me contagia, um olhar que reconheço e, para além de tudo, és meu filho. És especial. É por isto, e por muito mais, que és a minha pessoa preferida.

Com todo o amor que nunca imaginei existir,
A tua mãe.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

A brincar é que a gente (pequena) se entende #9 - Expressão Dramática: parar uma birra em 3 segundos (sem garantia, mas com algumas probabilidades de sucesso)

É fácil, simples e divertido. Há uns dias lembrei-me de simularmos em frente ao espelho da casa de banho algumas emoções através de expressões faciais - arranjo sempre coisas muito interessantes para fazer quando vejo que uma birra gigante está prestes a despertar. Ontem, foi esta a forma que encontrei quando a dita chegou porque não queria tomar banho com o pai (não, não era o miúdo, a birra é que não queria tomar banho; não confundamos as coisas).

- Começo por pedir-lhe para fazer uma cara triste; e ponho, também, a minha melhor cara triste.
- Logo a seguir, incentivo-o a fazer uma cara de susto. E exemplifico. Constato que nem é preciso esforçar-me muito.
- De seguida, "vestimos" o rosto zangado.
- Depois, peço-lhe para sorrir. Ele imita-me, esboça um sorriso amarelo, como quem diz "O que é que esta quer?".
- Por fim, peço-lhe para rirmos à gargalhada. Esta é mesmo a mais divertida e aquela em que ele alinha com mais facilidade.
E assim temos: a tristeza; o medo; a raiva; a alegria. Se pensarmos no filme Inside Out, que ainda não vi, falta-nos a repulsa.

Da primeira vez que fizemos este jogo, ele demonstrou algumas dificuldades em expressar a tristeza e a raiva - digo ar zangado, ainda não me refiro a todas as emoções com a denominação correta, é um jogo que vai evoluindo à medida que o vamos repetindo. À terceira, já foi ele que sugeriu as expressões que faríamos. A de rir à gargalhada é, claramente, a que ele mais gosta e a que mais repete, mas já vai sugerindo a cara zangada e a triste.

Imagem retirada da Internet

Outras brincadeiras para trabalhar as emoções:
- Ter imagens que reflitam emoções e pedir à criança que as identifique.
- Jogo "Adivinha a emoção": Expressar a emoção e pedir à criança que a adivinhe.
- Durante a leitura de uma história, chamar a atenção da criança para determinada emoção expressa na ilustração.

Falando da situação de ontem em concreto, a birra sentiu-se intimidada com esta brincadeira antes do banho, mas no final do mesmo demonstrou a força que tem e teimou em aparecer sem ninguém a convidar. Percebi que estava cansado, anda a dormir menos durante o dia e fica com sono mais cedo. Perguntei-lhe se estava cansado. Ele respondeu que não a quer. Pergunto-lhe, "não queres estar cansado?". Ele responde, a chorar, que não quer a birra (dramático, este miúdo). Digo-lhe que o vou ajudar. Ele concorda. Ele para de chorar. Para já, resultou.