sexta-feira, 27 de maio de 2016

Falar de ti

Queria subir ao cimo de uma árvore bem alta; uma que me fizesse chegar ao céu. 
Queria segredar ao ouvido dos que o habitam os meus desejos para ti. 
Queria dizer-lhes o quão maravilhosa és; descrever-lhes a menina especial que nasceu em ti no dia em que nasceste para o mundo. O mundo, depois desse dia, passou a ser um sítio melhor.
Queria explicar aos habitantes do mundo que não se podem retirar às crianças as oportunidades que lhes são devidas. E que tu és uma criança. 
Queria também dizer-lhes que agora é hora de fantasiar e brincar. A falsidade de outros, pesados em idade e em maus sentimentos, não te pode afetar. 
Queria dizer-lhes que o teu sorriso é a única arma que tens; serve apenas para travar desavenças. E é também o barómetro da tua felicidade. E da nossa, que te adoramos.
Queria pedir-lhes para olharem para ti, para olharem para esses teus olhos cheios de brilho, por vezes nublados por coisas que te são alheias, e que descrevessem a luz que carregas e a beleza que habita em ti. Se conseguirem, claro. Há coisas que são difíceis de passar para palavras. Mas podem ser sentidas. 
Queria que reconhecessem os momentos em que transformas o cinzento de um mau dia no amarelo de um dia feliz. 
Queria que reparassem como as cores do arco íris tatuam o teu percurso. O teu e o dos que caminham ao teu lado. 
Queria dizer-lhes que não é suposto existir outra hipótese senão a de seres verdadeiramente feliz.

Imagem retirada do pinterest

Mas, depois, penso que não é necessário dizer nada disto a ninguém. Tudo o que tu és é tão visível que só não vê quem não quer.
Não duvides, minha pequena gigante, que és amada pelos que devem amar-te verdadeiramente. Tu, com o teu jeito de ser, fazes com que isso aconteça naturalmente. 

terça-feira, 24 de maio de 2016

Quero Ver (ou já vi): O começo da vida

Porque acredito que "se mudarmos o início da história, mudamos a história toda". Porque acredito na mudança. Porque acredito em oportunidades. Porque acredito em recomeços. Porque acredito que a infância é o futuro. Porque acredito que todas as crianças merecem o melhor... Porque acredito que conseguimos fazer melhor.


Amigos imaginários: O Bitá e o Tomás

O primeiro foi o Bitá. Ao início, dado o nome invulgar, não percebi bem a que se referia. Lá compreendi, porque ele foi claro na explicação, que o Bitá é um amigo do trabalho dele. 
- E o que é que vocês fazem no trabalho?
- Trabalhamos com os pucadores*. 
Ele leva, inclusive, para a Ama uma construção de lego que ele designa como computador. Ele não me vê trabalhar ao computador, apesar de o fazer, mas o marido da Ama arranja computadores. Já lhe perguntei se ele queria convidar o Bitá para ir lá a casa. Respondeu que não. Ontem perguntou-me se eu queria ver o Bitá. Depois disse-me "ele está aqui". Escusado será dizer que não estava ali ninguém.
Há dias, houve uma nova contratação na empresa em que o meu filho trabalha e ele ganhou mais um amigo: o Tomás (este amigo sempre tem um nome comum, desta vez não o confundi com um ovni). A empresa alargou a sua área de actuação e agora também apanha dragões. Apanhámos Dragões castanhos - diz-me. Ele nem sabe bem que cor é esta, mas quem sou eu para o contrariar. 
E é isto. Para já, para já, e com tantas empresas a reduzir pessoal, a do meu filho anda a fazer contratações e a alargar o leque de clientes e áreas de atuação. Só pode ser um bom pronúncio. 

A propósito deste tema e falando mais seriamente, encontrei este artigo. E retirei deste algumas ideias do que deve ser a nossa atitude perante a existência de um amigo imaginário. Sim, ele existe mesmo. É normal aparecer por volta dos 3 anos e manter-se até aos 6. Não prejudica e parece que até pode ser um excelente fator protetor, emocional e psicológico. O miúdo arranjou logo dois, possivelmente a pensar que eu preciso de um... Estou a brincar, mas por vezes dava-me jeito um amigo destes: Quem é que comeu o gelado? E o chocolate? Já comeste a embalem de bolachas que comprei há meia hora? EU?? Não! O Bitá comeu o gelado, o Tomás o chocolate e os dois, não satisfeitos, atiraram-se às bolachas.

Imagem retirada daqui

Só para que fique registado: a minha sobrinha também teve uma amiga imaginária, a Helena.

* Computadores

segunda-feira, 23 de maio de 2016

A brincar é que a gente (pequena) se entende #10 - Dias nossos

Na sexta feira, ao final da tarde, antes de uma saída a dois, foi dia de metermos uma banheira e um alguidar com água morna na varanda da avó. Estava um dia de verão. Ele e a prima a chapinhar e a "mergulhar". Ele sem fralda, ela de cuecas. Eles a brincar com a água, eu a limpar o chão com a esfregona. Depois, hora de banho a dois. A loucura. A avó chegou: enquanto uma limpa um, a outra termina o banho do outro. Dar-lhes o jantar. Dar-lhes um beijo. Sair para jantar... a medo.
Dormir a primeira noite sem a mãe. Dormir a primeira noite sem o filho. Várias mensagens enviadas à avó para saber se estava tudo bem. Jantar a dois. Cumplicidades. Pensar e falar nele várias vezes. Chegar a casa às 2 da manhã, adormecer às 3 e acordar às 6h30 (sentir a falta daquela "pessoinha" despertou-me a esta hora). Enviar nova mensagem à avó. Receber uma mensagem que nos informa que o miúdo estava acordado. Tomar o pequeno almoço rapidamente. Ir buscá-lo. Encontrá-lo bem. Receber um abraço. Ouvir "voltaste, mamã", mas sem o ar dramático habitual. Ouvir o meu bebé dizer que queria ficar na casa da avó. Respirar de alívio. Sair de casa da avó. Ir à estação ver os comboios de perto e ir ao parque às 9 da manhã. Adormecer às 11h e acordar às 14h. Almoçar tardiamente.
Há quase 1 ano tentámos a primeira noite sem ele, mas às 2 da manhã estava na casa da minha mãe para dormir com ele. Desta vez consegui, mas ainda não foi tranquilo. Vamos com calma.
Fim de semana caseiro e tranquilo. Com brincadeiras inventadas: salta a rolha - ele e o pai inventaram esta brincadeira. Gritam "salta a rolha"; atiram a rolha; andam à procura dela pela casa; chamam-me, orgulhosos, para assistir. Uma ida ao parque com o pai enquanto a mãe ficou a terminar as limpezas (para quando um sistema autónomo que nos limpe a casa?). O relato de uma perseguição aos dragões. Terminar o fim de semana com mergulhos na banheira, com a casa de banho cheia de água e um miúdo feliz da vida.
Para eles brincar é natural... E para nós, às vezes, também.

Imagem retirada daqui

Olá segunda feira: Cada semana que passa tornas-te mais difícil para mim. E eu nem tinha muita aversão à segunda feira...

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Pessoas que me inspiram #2 -Quem foi o professor que mais vos influenciou?

É a questão colocada numa publicação na página de facebook da Raiz Editora:


Não me lembro de muitos dos professores que tive. A maioria não me marcou, até porque eu não tinha uma boa relação com a escola. Nunca fui boa aluna. Não gostava da escola. Não estudava. Achava que algumas das matérias eram muito básicas, outras não me interessavam. Tive alguns problemas de saúde que me levaram a faltar algumas semanas durante 4 anos consecutivos (visão no 2.º ano, operação no 3.º ano, acidente no 4.º ano, febre reumática no 5.º ano). Chumbei no 6.º ano e a justificação unânime foi a da ausência por períodos de tempo, relativamente longos, nos anos anteriores. Não me parece, sinceramente, que tenha sido esse o motivo. No 6.º ano faltava à escola para passear com amigas que não eram da minha turma, logo tinham horários diferentes do meu; foi a maneira que encontrei para estar com elas. Apesar das desconfianças da minha mãe, nunca andei com más companhias (talvez a má companhia fosse eu), nunca fumei,  nunca bebi, nem tinha namorado; faltava (às aulas, não à escola) porque qualquer coisa era melhor do que estar nas aulas. Lembro-me de detestar quando o meu pai me chamava a atenção pelo meu fraco desempenho escolar. E quem é que lhe chamava a atenção pelo seu fraco desempenho parental? Pensava eu - talvez seja injusto escrever isto, não sei se a culpa terá sido apenas dele, mas minha não terá sido com certeza. Aquele chumbo foi perdoado, mas não podia haver outro. Cheguei ao final do 2.º período do 8.º ano com 1 positiva (ou nenhuma, não tenho bem a certeza). A minha mãe chegou a casa, depois da reunião com a Diretora de Turma, com a minha sentença definida: sair da escola e ir trabalhar. Lembro-me bem desse dia, lembro-me do dia seguinte, lembro-me do medo e do peso daquela sentença e da mudança que isso teria na minha vida, lembro-me das conversas na escola no dia seguinte. Parece que fui o tema principal da reunião. Implorei para que a minha mãe não me tirasse da escola, prometi que recuperaria no 3.º período. Ninguém acreditava naquela recuperação, eu tinha andado a assobiar para o lado o ano inteiro, tinha 1 mês e pouco de aulas porque naquele ano a PGA (Prova Geral de Acesso) seria realizada naquela escola. A minha mãe acedeu ao meu pedido. Levantava-me às 5 da manhã para estudar e pôr matéria em dia. A maioria dos meus colegas faria apenas um teste, eu teria de fazer 2 a todas as disciplinas. Era difícil, mas eu meti na cabeça que tinha de tentar. Tentei, esforcei-me e consegui. Transitei para ano seguinte. Mas o meu problema com a escola continuava a existir. No 9.º ano repeti a "brincadeira" e não correu bem. Não tentei recuperar com o afinco do ano anterior. Chumbei. Saí da escola. Comecei a trabalhar. Fui proibida de visitar as minhas amigas de sempre (vivia num sítio e estudava noutro). Perdi, aos 14 anos (quase a fazer 15), as minhas raízes. Paguei caro por isso. Fui estudar à noite no local onde vivia. Fiz o 9.º ano. Resolvi tentar o 10.º ano. Toda a gente achava que eu não tinha queda para a escola, que eu não era capaz, que era pouco inteligente. A escola deixou de ser uma obrigação, a minha obrigação era trabalhar. Não faltava à escola. Fiz o 10.º, 11.º e 12.º anos à noite, a trabalhar, sem chumbar, com média de 15.
No 10.º ano tive uma professora de Geografia que me perguntou que área seguiria quando fosse para a faculdade. Nunca tinha pensado seriamente (talvez secretamente) avançar para uma licenciatura; acho que ninguém, até aquele momento, pensou que eu fosse capaz de tirar um curso superior; tinha sonhos, mas (julgo) não me achava capaz. Esta professora mudou o meu percurso com esta simples pergunta. Ela não questionou se eu pensava ir, ela apenas considerou que uma aluna como eu iria, naturalmente e garantidamente, para a faculdade. O meu percurso não foi fácil, não arrisquei quando devia ter arriscado. Quando terminei o 12.º ano entrei em Biologia, mas desisti porque não consegui conciliar escola e trabalho. Anos mais tarde, decidi tentar conciliar trabalho e faculdade (tudo em horário diurno), sabia que era difícil, mas a pergunta daquela professora nunca me saíra da cabeça. Tirei a licenciatura de 3 anos em 3 anos. Profissionalmente falando, ainda não alcancei o que desejo, mas pessoalmente, aquela professora mudou-me para sempre. Mudou o meu percurso, os meus objetivos, a imagem que tinha de mim. Ela não imagina até onde irá a sua influência. Nem eu. Mas acredito que um professor pode ser um marco fundamental na vida dos alunos (crianças e adultos).
Obrigada, professora Cristina.

Não tenho, propriamente, orgulho no meu percurso escolar; sei que paguei caro pelas minhas opções, mas também não sinto vergonha. É o meu percurso, foi o que vivi, faz parte do que sou. Se mudaria alguma coisa se voltasse atrás? Com certeza. Apesar de saber que foi o meu percurso que me trouxe até aqui, tentaria um trilho mais fácil.
Se leres isto um dia, filho, retém esta última parte: eu mudaria algumas das minhas opções. Lembra-te que a tua decisão de hoje influenciará o teu amanhã; pode não condicioná-lo ou defini-lo, mas que o influenciará, influenciará. Desejo que faças boas escolhas e que mesmo as menos boas te façam evoluir.

À conversa com o meu filho #5 - Mãe, tu dizes cada coisa!

Ele: Mãe, fica comigo. Não vás trabalhar.
Eu: Filho, hoje já é quinta feira, amanhã é sexta. E depois não vou trabalhar, vamos passear muito! Vem aí o Sábado. E o domingo!
Ele: Mas o sábado e o domingo não têm pés.


Tens razão, filho, mas podiam ter. Se tivessem, eu dizia-lhes: venham depressa, corram, o meu filho quer que cheguem rapidamente. E eu também.