sexta-feira, 9 de março de 2018

Eu, mãe e encarregada de educação, à conversa com o/a (imaginário/a) futuro/a professor/a do meu filho ou...com a professora que eu podia ter sido

Começo por te dizer que não quero intrometer-me no teu trabalho. Não me leves a mal por redigir sugestões -  julgo que não te sentirás ameaçada, creio que acreditas em ti e nas tuas convicções. Desculpa se, em algum momento, for incorreta. Não é essa a minha intenção. Redijo esta carta como mãe de um futuro aluno teu, apenas isso. Sou importante na vida do miúdo e quero saber o que se passa no percurso escolar dele, mas eu sou a mãe. O/A professor/a és tu. Acredito que és capaz de fazer muito mais do que te vou pedir. Mas também sei que há quem não o seja (por medo, até). Preciso de saber com o que posso contar. Tenho esse direito como mãe, da mesma maneira que tu tens os teus direitos como professor/a, nomeadamente o meu respeito pelo teu trabalho.

Se a escola em que trabalhas está entre as 230 que puderam testar, através de projetos-piloto, as mudanças propostas pelo Ministério da Educação no âmbito da flexibilidade curricular, é para ti que escrevo. Se não está, também é para ti. Porque acredito que em qualquer uma das situações, tu podes muito.

Conversa com os Encarregados de Educação e explica-lhes que a Educação está a mudar. E que essa mudança é necessária e é para um bem comum: o futuro. Ainda nem todos se aperceberam desta realidade, mas acho que a necessidade de mudança já reside em todos nós - de maneiras diferentes, é certo. Fala-lhes dos teus receios e das práticas, inerentes a essa mudança, que pretendes implementar. Pergunta-lhes se estão dispostos a ajudar. Diz-lhes que és tu quem gere as tuas aulas (não é possível agradar a todos), mas que precisas do apoio de todos.
Podes pedir a cada um para escrever aquela que acha que será a maior dificuldade do filho. Podes pedir sugestões de melhoria a implementar na turma/na escola. Podes pedir a cada um uma prática a manter (se for caso disso). Dá-lhes tempo para pensarem nas respostas. 
Com a análise das respostas consegues conhecer um pouco melhor o grupo de pais que tens. Se puderes e se te fizer sentido, implementa uma ou mais ações de melhoria, em conjunto.
Lembra-te que recebeste formação para ser professor/a, mas nenhum de nós a recebeu para ser encarregado/a de educação - eu ainda estou a definir o meu papel nesta relação, quero participar sem ser intrusiva.
Sei que alguns encarregados de educação conseguem ser intragáveis. No meu trabalho, que nada tem a ver com Educação, também os encontro - não neste papel, existem em todo o lado, não é nada pessoal.

Não tenhas medo de alterar a organização da tua sala de aula, de a adaptares ao tipo de atividades que queres desenvolver: em "U", em pequenos grupos, todos à volta da mesma mesa? Por mim, podes experimentar e mudar consoante as necessidades do teu grupo. Se me pedires ajuda para colocar as mesas na rua para que os miúdos observem e desenhem a paisagem (ou parte dela) que têm à disposição, eu ajudo.

Não tenhas medo de ir para a rua falar de plantas, de seres vivos e não vivos, do movimento aparente do sol, das fases da lua, das espécies... Não tenhas medo que eles dispersem. Define e transmite as regras antes de ires para a rua: hoje a ida para a rua tem este ou aquele objetivo ou a nossa saída é livre, depois falaremos acerca do que cada um escolheu fazer. Assim, dás voz aos teus alunos.
Haverão dias em que a dispersão, que por vezes te assusta, pode permitir a recolha de muito material para trabalhares no futuro: se apanharem pedras, fala-lhes de rochas; se andarem de baloiço, fala-lhes de roldanas e de molas; se brincarem na areia, orienta-os para a pesagem da mesma; se encontrarem uma "Joaninha", fala-lhes de insetos... Não te preocupes, eu não vou reclamar se o miúdo chegar a casa com a roupa encardida ou se ele me disser que brinca muito todos os dias.
E se chegares à sala de aula e não explicares formalmente para que serve um compasso e optares por lançares o desafio "para que serve isto?" - vou adorar. (Contaram-me que uma escola fez isto, adorei a ideia do ensino pela descoberta; colocaram vários compassos no chão e questionaram, "isto serve para quê?"; houve exploração, discussão e conclusão). .

Se algum aluno mostrar interesse por algum assunto que não dominas, não te apavores. Não tens de saber tudo. Pergunta a opinião a outros alunos. Regista as ideias que são apresentadas. Chama-lhe Tempestade de Ideias e esquematiza o que julgam saber sobre o tema.
Depois, lança o desafio: vamos descobrir mais sobre isto? Formem grupos. Definam o que querem saber. Definam tarefas: quem pesquisa na internet; quem recorta imagens de revistas; quem procura um livro sobre o assunto; quem entrevista alguém (na escola, um vizinho, o sr. do talho, a tia...). Já pensaste nas áreas que podem ser trabalhadas com este tipo de atividade?
Cada grupo trabalha no sentido de cumprir a tarefa pela qual é responsável. Cada grupo apresenta, aos colegas, as respostas/descobertas/dúvidas que vão surgindo.
Em grande grupo, definam como vão apresentar os resultados/as respostas/as descobertas finais: numa cartolina, num filme, uma entrevista, uma peça de teatro? Iniciem um projeto e apresentem-no aos Encarregados de Educação. Ou a outra sala. Todos aprendem mais.

Se me disseres que não vais usar os livros escolares, definidos pela escola em que lecionas, seguindo a ordem de páginas ou o programa definido, abraço-te - desculpa o abuso. Se me disseres que o Livro de textos será construído pelos alunos com a tua orientação, abraço-te dez vezes. Não sei se gostas de abraços. Eu não gosto muito de abraços (só de algumas pessoas), mas entusiasmei-me com esta ideia.

Não mandes trabalhos de casa diariamente, eu gosto de aproveitar os finais dos dias com outras coisas. E isto sou eu, que consigo ir buscar o miúdo cedo. Já pensaste nos pais que chegam tarde?

Não desistas do meu filho nas maiores dificuldades. É nesse momento que ele precisa mais de ti. E eu também. 

Quando o meu filho ficar muito elétrico, tenta perceber se está cansado, se tem sono. Ele exterioriza o cansaço assim. Pergunta-me o que quiseres para o conheceres melhor.

Se achares que o meu filho precisa de uma festa, de um abraço, de um beijo ou de colo, sente-te à vontade para o fazeres. Se o fizeres com outra criança que precisa, não sintas que tens a obrigação de o fazer com todos. Sabes melhor do que eu que não precisam todos das mesmas coisas ao mesmo tempo.

Ainda não sei se o meu filho vai conseguir memorizar com facilidade conceitos impostos. Mas peço-te que tentes perceber se sente dificuldades. Quero dizer-te que estou disposta a discutir e a dar continuidade a alguma estratégia que implementes no teu espaço e no teu tempo, estou disponível para encontrar contigo uma alternativa. 

Se achares que o meu filho age mal muitas vezes, fala comigo. E com ele, claro. Diz-me em que situações o faz. A educação do meu filho, apesar de existirem por aí umas circulares que dizem o contrário, não é só da minha responsabilidade. Quando tu o chamas à razão, quando o orientas para o cumprimento de algumas regras, quando lhe dás o teu exemplo, também estás a educá-lo. E eu agradeço-te por isso. Nem imaginas o quanto.

Se pretenderes criar uma nova área no vosso espaço, pede-me ajuda. Não tenho jeito para expressão plástica, nem muito tempo. Mas se fores concreta, eu chego lá e estou disponível. 

Acho mesmo que a profissão que abraçaste é a base para um futuro melhor, acho que o poder que tens nas mãos vai muito além de políticas implementadas e obsoletas e interesses desajustados. Tens o poder de fazer coisas bonitas, de ajudar pessoas a ser e a fazer melhor. Ainda que pequeninas em tamanho, são pessoas grandes pelas oportunidades que nos dão: são uma oportunidade para o mundo. Tens a capacidade de mostrar, de fazer descobrir, de fazer sorrir, de fazer aprender, de fazer ensinar, de fazer partilhar. E também tens a oportunidade de receber: tudo isto e muito mais.


Carta inacabada...

Sem comentários:

Enviar um comentário

Deixa aqui o teu comentário ou sugestão.