terça-feira, 18 de abril de 2017

Jardim de Infância: a mudança

Era inevitável. Há muitas coisas com as quais discordo no Jardim de Infância (JI) que ele frequentava desde Setembro, mas a falta de um espaço exterior, as saídas reduzidas, o facto de estarem no mesmo espaço muitas horas (brincavam, comiam e dormiam na mesma sala) foram factores determinantes para a mudança.
O Jardim de Infância no qual o inscrevi há 2 anos, no qual ele entrou o ano passado mas do qual acabámos por desistir devido à mudança profissional do pai, não tem vagas neste momento nem garante tê-las em Setembro. Recomecei a procura: vasculhei páginas de facebook novamente; espiei recreios; ponderei esperar por Setembro; equacionei ele entrar num Jardim de Infância público, também em Setembro; fiz telefonemas; coloquei muitas questões; fiz contas, muitas contas; acordei muitas vezes durante a noite com a certeza de que a mudança teria de acontecer já. Em Março tomámos a decisão: amanhã ele começa uma nova etapa. E nós também.

Há 2 anos, o meu filho tinha 1 ano e meio e eu trabalhava há 4 ou 5 meses - estive desempregada até aos 13 meses de vida dele. Precisava de encontrar um local para ele ficar enquanto eu trabalhava. A minha mãe ficava com ele, mas ia deixar de ficar, por isso impunha-se a necessidade de encontrar uma alternativa. Visitei vários espaços:
1º - o que desistimos o ano passado.
2º - um com boas referências ao nível do pessoal, mas com uma mensalidade elevada e um espaço muito reduzido.
3º - tentei visitar o espaço que ele começou a frequentar em Setembro e foram peremptórios ao afirmar que só o visitaria se ele tivesse vaga. A pessoa que me abriu a porta foi antipática, brusca - péssimo cartão de visita. Talvez por este primeiro contacto, a decisão de ele frequentar aquele espaço nunca foi confortável para mim, mesmo conhecendo duas pessoas que trabalham lá.
4º - um colégio no meio do campo, com excelentes condições físicas, com espaços amplos e iluminados, um bom espaço exterior, que valoriza as diferentes expressões (motora, dramática, musical, plástica), uma horta, alimentação confeccionada nas instalações de acordo com as normas HCCP, pessoas atenciosas, simpáticas e disponíveis, com boas referências e com uma mensalidade elevada para nós (se comparar com a mensalidade de alguns colégios de Lisboa, por exemplo, não é elevada, mas para nós é).

Há 2 anos decidimos que ele ficaria com a Ama, uma pessoa da nossa confiança, até aos 3 anos de idade. O ano passado durante a minha digressão pelos Jardins de Infância este último colégio ficou de fora, nem o coloquei no leque de hipóteses, sabia que o colocaria na primeira opção, financeiramente não era possível. O pai só o conhecia através dos meus relatos. Este ano resgatei-o: fui visitá-lo novamente e desafiei o pai a fazer o mesmo. Ficou decidido que se era para mudá-lo aquele colégio era o escolhido. O miúdo foi connosco, no início ficou envergonhado, não nos quis deixar. Sem grande insistência para o deixarmos na sala, visitámos o espaço exterior e deixámos que explorasse os equipamentos. Regressámos à sala, ficámos com ele durante algum tempo e saímos.  Enquanto eu e o pai ficámos no corredor a conversar com a coordenadora, observei-o pelo vidro, vi-o rir com a educadora, vi como ela se colocou ao nível dele para brincar, observei a interação. Ele gostou de ali estar, se bem que reconheço que foi apenas a primeira visita, um período de tempo curto em que nos sentiu presentes. Desde esta visita até agora passou um mês e tal, ele de vez em quando relembra-a. Espero que seja uma decisão acertada. Muito acertada.

Vou deixar aqui um vídeo com algumas ideias que defendo. Há uma parte que refere que não adianta colocar os filhos no melhor JI quando isso implica que sejamos os últimos pais a ir buscá-los, porque tivemos de trabalhar mais horas para pagar a creche. Concordo. Nenhum de nós vai trabalhar mais horas para pagar o JI, no entanto vamos abdicar de algumas coisas. Confesso que me assustou o cenário de ter menos possibilidades de efetuarmos programas a três, mas desvalorizei, vamos continuar a fazer os nossos programas, possivelmente optando por opções mais económicas. Para nós o tempo que passamos juntos é muito importante, faz-nos falta, mas o tempo em que ele está no JI também. Precisamos de estar os três bem: nos momentos em que estamos juntos e nos momentos em que estamos separados.
Esta decisão foi tomada agora porque a situação profissional do pai tem vindo a melhorar e há perspectivas  de mais melhorias e porque eu fui (muito) ligeiramente aumentada. Vou pagar 3 vezes mais do que pagava (a mensalidade era baixa). Era muito confortável para nós conseguir juntar algum dinheiro (íamos conseguir fazê-lo a partir de agora), ou fazer uma viagem em família, ou passarmos fins de semana fora periodicamente, ou arranjar alguém que nos limpasse a casa de vez em quando... mas eu não o sentia bem durante as 8 horas que estava no JI... Posto isto, vamos mesmo optar por um dos JI com a mensalidade mais elevada.
Em paralelo vamos inscrevê-lo no JI Público. Não acredito que entre no que mais gostamos, mas se entrar logo se vê, logo se decide se o impomos a nova mudança num espaço de tempo tão curto ou se o mantemos nesta nova escola até ao próximo ano.


E eu estou aqui com esta conversa toda, com dúvidas e opções de escolha em cima da mesa, mas há aqueles pais que pela "simples" decisão de terem filhos, têm mesmo de trabalhar mais. Não para mudar de carro, porque alguns nem carro têm. Não para comprar roupa de marca, porque nem sabem onde se vende. Mas pela simples razão de necessitarem do básico para sobreviverem. E também há os que começam a parentalidade a dois e terminam a solo - quando ficam sozinhos, (alguns) têm mesmo de trabalhar mais. Há os que começam com um bom emprego e ficam desempregados - por vezes, o parceiro tem mesmo de trabalhar mais. Há tantos factores externos... Mas em podendo optar, aplaudo que não se dê grande importância a roupas, a carros, a casas, a brinquedos, porque o (bom) tempo que se passa junto é que fica no nosso guardador de memórias.


Última hora: só para baralhar isto mais um bocadinho, ligaram-nos do colégio que desistimos o ano passado. Temos vaga, só não sabemos se para iniciar em Maio ou em Setembro, temos hipótese de ir a uma reunião na quinta feira... Mas não vamos. Está escolhido: começa amanhã.

A brincar é que a gente (pequena) se entende #20 - Explorando Expressões

Expressão motora, expressão dramática, expressão plástica, expressão musical: tudo numa só atividade, tudo interligado, com continuidade e fluidez, lúdico, divertido...


Quantas áreas cabem nesta atividade? Quantos conceitos poderão ser explorados nesta atividade? Depende (também) da imaginação de cada um. Será muito difícil fazer isto em sala de aula?

Versão diferente e mais completa:

 

terça-feira, 11 de abril de 2017

Adeus meu querido mês de Março de 2017 / Olá Abril de 2017

Adeus meu querido mês de Março. Passaste bem, gostei de te ver, foste um bom mês, mas agora já só penso em Abril. E nas férias que ele me traz. E nas mudanças que nele ocorrerão. 
Abril, águas mil: pela parte que me toca é permitido chover nos dias 17, 18, 26, 27 e 28 de Abril. Nos restantes dias solicito o envio de dias de Verão. Agradeço, desde já, a concretização deste meu pedido. 

 Imagem retirada daqui.

"Ai e tal, ele tem cada conversa!" e outras coisas

Alguns exemplos que originaram este tipo de conversa são, na minha opinião, coisas básicas (não pensem que o miúdo já discute as principais notícias do dia). Não são de hoje, mas foram os exemplos de que me lembrei:
1) Acharam interessante que o miúdo, a propósito de uma conversa que antecedeu uma visita à igreja, questionasse se as figuras eram de vidro.
2) Ficaram surpreendidos porque o miúdo, após a leitura de uma história (acho que foi este o contexto), referiu que o gelo derrete quando aparece o sol.
3) Alguém considerou pertinente que o miúdo o rectificasse quando lhe disse que o porquinho mais velho decidiu construir uma casa de pedra. Tijolos - retificou ele, e argumentou. Neste caso, acho que elogiaram mais o poder de argumentação/a explicação do que que propriamente o conteúdo.
Alguém me disse que o miúdo dá luta... Porque argumenta. Acho vantajoso ter capacidade de argumentação, mas estas não são conversas fora do comum.

Consigo encontrar justificação para as questões/as respostas/os argumentos que o miúdo utilizou nos exemplos acima referidos, bem como para muitas das situações que me relatam. Aqui estão elas:
1) No JI em Dezembro esteve um presépio com figuras de barro (acho que que eram de barro, confesso que não sou tão boa a identificar materiais como o miúdo, mas isso é um problema meu e não uma super característica dele), disse-lhe várias vezes, "filho, não podemos mexer nestas figuras porque podemos parti-las sem querer, não são nossas". Em casa disse-lhe várias vezes, "agarra bem o copo porque é de vidro". Quando a educadora lhes pediu para não tocarem nas figuras que iam encontrar na igreja, quando lhes pediu para terem cuidado, quando lhes disse que as figuras se podiam partir, o miúdo pegou nos conhecimentos que tinha acerca do verbo partir e aplicou-o - não, não o conjugou -, assumindo que se era para ter cuidado, se as figuras se podiam partir, é porque possivelmente eram de vidro.
Ele identifica alguns materiais, como o vidro, a madeira, o ferro, porque já falámos sobre isso em situações concretas. E sabe que o vidro quebra porque realizou uma experiência em que o comprovou: partiu um copo. Apanhou um valente susto, mas teve de o fazer para perceber o que é isso de partir um copo e o que é isso ser de vidro. Este meu miúdo tinha tudo para se chamar Tomé, é um defensor nato da expressão "ver para crer".
2) Temos um livro que comprámos no Pingo Doce que fala disto. Há excertos do texto que não gosto, confesso, mas é engraçado, é uma fábula e fala precisamente disto.
3) Ele já ouviu a história de "Os três porquinhos" milhões de vezes, em todas elas a casa que o porquinho mais velho constrói é de tijolos. Dizerem agora que a casa é de pedra é pôr em causa a palavra da sua mãezinha que tantas vezes lhe contou a história... O miúdo insurge-se, claro. E argumenta. Para o número de vezes que já viu/ouviu esta história o que não lhe faltam são argumentos.

Mistério desvendado: o miúdo não aprendeu a ler sozinho, não sabe fazer compras on-line (isto é que me dava jeito, detesto), nem falou sobre a teoria da relatividade. Lamento desiludir-vos, mas encontro (quase) sempre o motivo que o leva a fazer determinado comentário/a ter determinada conversa. É claro que ele diz coisas que me surpreendem, na medida em que adquire, cada vez mais, conhecimentos fora da esfera familiar, mas julgo que o segredo é a variedade de situações a que as crianças estão expostas.

Fico feliz por me gabarem o miúdo. Todas as mães ficam, mas a verdade é que ele ficou exposto a situações em que foi confrontado com (quase) tudo o que provocou/provoca a conversa do título deste texto. Ele vai buscar conhecimentos prévios e relaciono-os com a situação atual. Confesso que o que vou fazendo com ele, as histórias que lhe vou lendo, as explicações que lhe vou dando acerca das coisas têm (quase) sempre em consideração questões que ele coloca, situações com que nos deparamos, o feedback que ele me dá e não propriamente a idade que ele tem. Nem sei dizer muito bem o que é adequado para a sua idade. Claro que não o ponho a ver um filme com legendas (ele não sabe ler), mas não sei definir muito bem e de forma generalizada o que é adequado a uma idade ou a outra. Talvez por acreditar (em parte) na Teoria de Bruner: qualquer ideia ou problema, se devidamente estruturada/o, pode ser apresentada/o de uma forma suficientemente simples para que qualquer aluno a possa/o possa compreender de uma forma reconhecível. Partindo deste princípio é claro que a instrução, a forma como é comunicada a informação, é um aspeto fundamental no processo de aprendizagem. A instrução não pode ser, de maneira alguma, reduzida ao débito de informação. Há educadores/professores muito bons na instrução, na forma como transmitem a informação: uns escolhem um livro, um filme, uma peça de teatro ou um passeio para apresentar o tema e suscitar a curiosidade das crianças; alguns apresentam o mesmo tema mais do que uma vez, de forma diferente, com exemplos reais para reforçar a conclusão e validar a aprendizagem; outros partem de conversas/questões/vivências dos alunos para lançar o debate, chamando-os a testemunhar e a participar... Outros não. Infelizmente ainda há os que apenas lêem slides - espero que estes sejam uma espécie em vias de extinção, ou então que se adaptem ao meio rapidamente.
 Imagem retirada da Internet: fonte desconhecida

Textos que falam de aprendizagem significativa:
 - A brincar é a que a gente (pequena) se entende #7 - Ensaios sobre a realidade: aprendizagem com significado.
- A brincar é que a gente (pequena) se entende #13 - Dia de aulas ao ar livre

sexta-feira, 7 de abril de 2017

À conversa com o meu filho #13 - Eles que se entendam

No parque perto da nossa casa, ele costuma brincar com uma menina. Ontem, ela fez uma birra porque queria o carro que ele tinha. Ele ouviu-a chorar, olhou-a de soslaio, mas não cedeu.
O pai da menina a intervir por um lado: filha tens de saber esperar, o teu amigo agora está a brincar, tens de ter paciência. Eu a intervir por outro: filho estás com esse carro há algum tempo, a tua amiga está chateada, possivelmente cansada, é importante partilhar, emprestas o carro à tua amiga? Ele "emprestou", mas salientou que, depois, ela teria que o devolver - o carro não é de nenhum deles, é do parque.
O pai da menina pediu-lhe para agradecer, ela não agradeceu. O pai da menina disse-lhe que ela era feia... O miúdo encheu o peito de ar, virou-se para o senhor com um ar muito prepotente e disse-lhe: Ela não é feia, feio és tu. Baixei ligeiramente a cabeça e disse baixinho: eles que se entendam!

Estão chateados um com o outro, uma pessoa vai cheia de boa vontade promover um pacto de paz, quando chama a atenção de um deles o outro revolta-se.
É preciso saber em que situações se deve intervir, é preciso saber (só) observar, é preciso deixar que eles resolvam os seus conflitos, é preciso deixá-los crescer e aceitar que se vai ser (apenas) espectador em muitas situações... Algumas nem isso.

De acordo com os relatos efetuados milhares de vezes pela minha mãe (repetir a mesma história 1000 vezes é algo intrínseco às mães), eu e a minha irmã fizemos isto muitas vezes. Uma coisa sou eu chatear a catraia, outra, totalmente diferente, é aparecer alguém a querer fazer o mesmo. Cada um com a sua função, para desatinar com ela estou cá eu... E vice versa. O miúdo deve ter seguido a mesma lógica.

quarta-feira, 29 de março de 2017

Gosto tanto de quadros e diplomas de mérito! (ironia) / O livro da vida

Essa coisa de se dizer que uma criança/pessoa é inteligente/muito inteligente tem muito que se lhe diga. Há vários tipos de inteligência e dizer que uma criança tem aptidão para uma coisa, não a livra de não ter jeitinho nenhum para outra. Talvez a minha opinião sobre este assunto seja apenas para justificar o facto de nunca ter sido considerada uma criança muito inteligente, mas fazem-me sentido as teorias que defendem a existência de vários tipos de inteligência.
O ano passado fui a uma festa de final de ano de um Jardim de Infância + 1º ciclo, na qual  foram entregues diplomas de mérito a algumas crianças. À minha frente duas mães conversavam:
Mãe 1: a minha filha vai ser chamada ao palco para receber um diploma de mérito, a professora avisou-nos. E a tua?
Mãe 2: a professora não me disse nada...
Mãe 1: a tua filha não esteve no quadro de mérito!?
Mãe 2: sim, no 2º e 3º períodos. 
Mãe 1: ahhh, a minha esteve nos 3 períodos, deve ser por isso.

Em primeiro lugar, não gosto de quadros de mérito - lá está, talvez porque no meu tempo de escola o meu nome só aparecesse no quadro de alunos com o nível de desinteresse mais elevado ou no dos alunos com o maior número de negativas. Em segundo, porque nunca percebo muito bem quais são os critérios nem qual é o (verdadeiro) objetivo. Em terceiro, quando os percebo acho (quase) sempre que são injustos. Neste exemplo concreto, a que se manteve estável o ano inteiro recebeu um diploma, a que evoluiu não. Se a criança tiver uma vocação notável para as ciências e for (apenas) razoável a Língua Portuguesa, apesar de se esforçar e de evoluir, não merece estar no quadro de mérito/receber um diploma de mérito? Segundo a justificação dada àquelas mães, não: tinha de ter boas notas em todas as disciplinas e em todos os Períodos... É pá, ninguém é bom a tudo... Bem, eu era má a quase tudo - não sou um exemplo de boa aluna, já o escrevi antes; só fui razoável a partir do 10º ano, quando já trabalhava...
Sei que alguns defendem que este tipo de iniciativas aumenta os níveis de motivação, mas acredito que aumenta apenas a motivação dos que veem lá o seu nome. E a motivação dos outros?
Não ignoro que há crianças com mais facilidade no processo de aprendizagem, crianças mais curiosas, crianças mais sociáveis, crianças mais extrovertidas, crianças com maior capacidade de resolver problemas, crianças com maior facilidade de adaptação, crianças capazes de gerir melhor as emoções... crianças expostas a ambientes educativos mais estimulantes... enfim, existem crianças muito diferentes entre si e todas essas diferenças influenciarão, certamente, o seu desempenho escolar, entre outros fatores. Logo, não compreendo porque é que existe esta necessidade de comparar e premiar quando, à partida, não estão todos no mesmo patamar. Na verdade, muitas vezes, nem sabemos quais são os motivos que estão por trás de um bom ou mau desempenho escolar.

Atenção, defendo que a criança deve experimentar a "sensação" de frustração (é inevitável), convém inclusive que saiba lidar com com ela. No entanto julgo que essa aprendizagem pode passar por dificuldades que sente em realizar alguma tarefa, por exemplo; pode passar por não conseguir realizá-la, até. 
O meu filho não consegue atirar e "encestar" a bola com tanta eficácia como a prima (não acertou num determinado alvo que eles próprios definiram de forma espontânea - observei na última ida ao parque). Ficou chateado por não conseguir (porque se comparou com ela). Expliquei-lhe que a prima é mais alta do que ele, já fez "aquela brincadeira" mais vezes do que ele, talvez por isso consegue fazê-lo com mais facilidade do que ele. Não fingi que ela não consegue fazê-lo (ela consegue fazê-lo), nem assumi que ele vai conseguir fazê-lo já na próxima tentativa (porque não sei; ele até pode vir a estar em igualdade de circunstâncias e não conseguir). Posso apenas incentivá-lo a tentar. Agora, imagine-se que, depois desta justificação e depois de ele tentar e não conseguir, oferecia uma "prenda" à prima. Porquê? Com que objetivo? Ou imagine-se que depois de ele tentar várias vezes e conseguir, oferecia uma "prenda" à prima - porque ela conseguiu fazê-lo mais vezes. Porquê? Para quê?

Escrevi aqui sobre um livro que nos diz precisamente que isso de ser o melhor/o maior pode ser muito relativo.

Uma alternativa a isso dos quadros e diplomas de mérito:
Incentivar a criança a construir um livro no qual ela registe, através de desenhos, textos, colagens ou fotografias, o que vai aprendendo ao longo do ano (Livro da vida de Célestin Freinet, por exemplo). Algumas páginas podem até incluir o "Antes e o Depois" - o que o aluno (pensa que) sabe antes e o que o aluno descobre depois. No final do ano letivo, uns dias antes das aulas terminarem, pedir às crianças para escolherem uma das aprendizagens: uma muito importante para si, a sua preferida. Debater com as crianças as escolhas efetuadas, enumerar os motivos. No final do ano, promover uma festa/um lanche/um passeio com as famílias e permitir que cada aluno fale da sua aprendizagem preferida. Ou realizar uma exposição com todas as escolhas... E não há qualquer problema que vários alunos escolham a mesma aprendizagem. É verdade que não gostamos todos de amarelo, mas há muitos a gostar de amarelo. O objetivo não é demonstrar a diversidade de aprendizagens, mas sim deixar a criança escolher e descrever os motivos da sua escolha. O objetivo pode ser: "dar voz" à criança, deixar a criança avaliar a sua própria aprendizagem, promover a retrospetiva e revisão das aprendizagens efetuadas, incentivar a criança a justificar as suas opções...
No final, até se pode emoldurar a aprendizagem preferida de cada criança e oferecer a cada uma o que para si tem mais significado.
E o livro? O livro construído pela criança é, certamente, o melhor barómetro da sua aprendizagem.

Era bom poder deixar (um pouco) de lado os livros que falam por nós, mas que dizem pouco de nós...

e começar a escrever um com as páginas todas em branco... com a nossa história, com as nossas descobertas... na escola ou em casa.

 Imagens retiradas daqui.