segunda-feira, 23 de novembro de 2015

O mundo ao contrário

Ando para aqui a ensinar-te que não se bate; que devemos partilhar o que temos; que devemos dar abraços e beijinhos em vez de palmadas; que as pessoas ficam felizes quando lhes dás beijinhos e abraços e quando lhes sorris e dizes "Olá"; que és importante e amado; que podes sentir medo, mas que é importante que aprendas a enfrentá-lo, temos de arriscar para alcançar; que devemos ser verdadeiros connosco e com os outros; que devemos respeitar os outros e a sua natureza; que é bom ajudar os outros... E o mundo continua a contrariar tudo o que te quero transmitir; o mundo de hoje é, precisamente, o contrário do que procuro ensinar-te. Tantos a levantar a voz contra ajudar os outros; tantos a desrespeitar os outros; tantos a ver só um lado da moeda - o seu; tantos a matar em vez de abraçar e sorrir; tantos com medo; tantos a odiar em vez de amar. Desejo que ouças falar do que se está a passar no mundo numa aula de História. Que faça parte do passado; que mesmo recente, seja, definitivamente, passado.
Não me interessa saber qual é a raça ou a nacionalidade de cada bebé que vive no meu país, são todos bebés, são crianças como a minha. Talvez fosse preferível a raça/nacionalidade de cada um não ser reconhecível: nem através da fisionomia, nem através do vestuário, nem através dos costumes, nem através de documentos identificativos. Mas porque não? Que graça teria olhar à nossa volta e ver apenas o reflexo de nós mesmos? O que é que teríamos para aprender? Que experiências teríamos para partilhar? Não podemos ter medo, certo? Temos de respeitar as diferenças, não é? Então, resta-nos assumir que somos todos diferentes. Há coisas em comum, sempre haverão, mas no geral somos mesmo todos diferentes. Faremos sempre parte de alguns grupos e seremos sempre excluídos de outros. Assim é a vida, assim é a natureza. O que pode acontecer é que, por vezes, deixamos de pertencer a determinados grupos por reconhecer que existem outros melhores. 
Já que há tantas coisas neste mundo que são exatamente o contrário do que te quero transmitir, então, também há finais de histórias conhecidas que quero contrariar. No final da história contada por mim, o Lobo Mau passa a ser apenas Lobo, aprende a caminhar ao lado da Capuchinho Vermelho sem segundas intenções, sem ameaças, sem outro propósito que não o de caminhar e usufruir do caminho. 

Créditos de imagem: ILUSTRANA

Filho, não tenhas medo de ser diferente. Não tenhas medo de quem é diferente. Não tenhas medo de ir e vir, desde que o ir e vir não prejudique ninguém. Não tenhas medo de caminhar entre a multidão e de abraçares quem quiseres. Não tenhas medo de dizer o que pensas, o que gostas e o que não gostas. Não tenhas, nunca, medo de viver. Sê livre, com deveres cumpridos de forma espontânea, com direitos gozados, com alegria, com confiança, com respeito por ti e pelos outros, com a consciência tranquila. Vive bem, meu amor. Como alguém desejou um dia, tem um destino bonito. Vive sem medo.

domingo, 22 de novembro de 2015

Reflexões profundas (ou não) #11 - A Era do Pai

Oh gente enganadora, com que então os rapazes preferem sempre as mães! Tenho a dizer que a Era do Pai teve início lá em casa. Quer o pai, quer ir na carrinha do pai, quer que o pai o vista, quer brincar com o pai, quer comer com o pai, quer fazer chichi com o pai, quer que seja o pai a tirar-lhe os macacos do nariz, quer que o pai lhe tire a fralda cheia de cocó (yupiiiiiii), quer perfume como o pai, quer colocar os óculos porque o pai leva óculos. Não quer a mãe. Já me mandou, inclusive, para a casa do vento... Perguntei-lhe se queria mesmo que eu fosse para a dita casa (é que nem sei onde vive o vento); disse-lhe que, assim sendo, ia. Ele respondeu que não (yupiiiiiii). Posso ir de férias, é isso? Não estava preparada para isto. Acho que é normal, mas não estava à espera, o que é que querem!?
Vá lá que na única noite em que o deixámos a dormir sozinho no quarto dele, ele chamou pela MÃE!!! Ah, um dia desta semana, em que o fui deixar à Ama à hora de almoço, também não me queria deixar e acordou da sesta a chamar por mim. Hajam prémios de consolação para a mãe. E vivas à Era do Pai. :) 

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Ser velho e outras coisas

No outro dia, falava com alguém sobre outro alguém bem mais velho do que nós que tem Alzheimer. Já ouvi e falei sobre isto várias vezes, mas não de forma aprofundada. Naquele dia, não sei porquê, senti um aperto no peito ao falar daquela senhora velha (que nem sequer conheço) que não se lembra do passado, que não reconhece os filhos, que é vazia de recordações. Pensei em voz alta na aflição que deve ser ter aquela doença. Perante estes pensamentos, a pessoa com quem dialogava respondeu: Ela não sofre, ela não se lembra. 
Esta resposta só me inquietou ainda mais. Ela não sofre. Ela não tem saudades de quem não se lembra. Não guarda mágoa de quem a magoou. Não sente falta do que a sua mente não recorda. Então, o que é que ela é? Uma pessoa sem passado? Um DVD sem nenhum filme para ver? Uma máquina fotográfica sem cartão de memória? Um livro sem história, feito de páginas em branco? E o que é que vai recordar nos últimos minutos de vida? E para onde foram as vitórias que alcançou e as dificuldades que enfrentou que, para ela, nem uma miragem são? E a vida? E a vida que ela teve? E o amor? Ela lembrar-se-á do que é o amor? E guardará amizade por alguém?
O facto de não reconhecer os filhos e não sorrir pelo maior amor que se pode sentir foi, sem dúvida, o que mais me inquietou. Não é de ser velho que se tem medo, é das outras coisas. 

Reflexões profundas (ou não) #10 - A enganar o miúdo desde 2013

Como é que eu explico a um miúdo de 2 anos que a versão original do José Barata Moura é "Olha a bola Manel" e não "Olha a bola Mateus"? Eu adaptei a versão original à realidade lá de casa, cantava-lhe esta última versão quando ele era bebé. Agora é ele que a canta... Resta-me esperar que ele descubra sozinho e que me processe se achar que é caso para isso.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

No "quintal" da tua antiga casa

Vivias em Lisboa quando decidiste regressar ao teu país. Nunca senti que fosse uma escolha tua, uma vontade sentida. Senti-te muitas vezes com saudades dos teus, mas não me lembro de ver aquele brilhozinho nos olhos quando falavas em regressar. Acho que foi o facto de termos ficado desempregadas, a falta de oportunidades e a desesperança que ditaram o teu regresso. O vosso regresso. Tenho pena. Já não estavas cá quando o meu filho nasceu, logo tu que torceste tanto para que eu tivesse um bebé. Disseste-me muitas vezes, muito antes de eu decidir ser mãe, que devia ter um filho logo, que seria uma excelente mãe e que adoraria a experiência. Não te enganaste. Adoro ser mãe. Sempre te admirei, mas foi precisamente no papel de mãe que a minha admiração por ti despoletou. Hoje, queria ter-te mais perto, convidar-te para um almoço, ver-te chegar a um qualquer café de Lisboa, falar sobre os miúdos (os teus e o meu). Hoje, queria coisas simples, mas impossíveis, pelo menos para já.
Vivias perto da Gulbenkian, costumavas dizer que aquele Jardim era o quintal da tua casa. Que privilégio ter aquele quintal. Que privilégio estar a 5 minutos a pé daquela paz e poder usufruir daquela natureza. Era o teu quintal, eu fui lá no Sábado passado e lembrei-me de ti; eu e o meu filho, só os dois; fomos almoçar ao vegetariano que me apresentaste, lembras-te? E depois, andámos por lá a passear e a traquinar. Ele, para além da longa caminhada que o fez dormir uma sesta de 4 horas, fez das suas: Disse-lhe baixinho que queria ir à casa de banho, intenção esta que ele replicou em alta voz, de forma aldrabada, quando passámos por dois polícias: "a mamã quer fazer cocó"; olhámos para a escultura de Apolo e ele perguntou, com o dedo em riste, "o que é aquilo" e concluiu em voz alta que "aquilo" é a pilinha - ora que porra, se sabia porque é que perguntou; andou por lá aos pontapés a uma bola, numa das vezes aquele círculo perfeito que rebola foi travado por um "montinho" de dejetos (não sei se de cão, se de gato, se de quê); tentei fingir que aquela bola não era nossa, que tinha fugido, que o cão a tinha levado, mas ele quis a bola; o raio da bola, depois de "higienizada" com toalhitas, voltou connosco; molhou a camisola num chafariz; não se atirou para dentro de nenhum lago por sorte; mas apanhou e atirou pedrinhas com entusiasmo e com um sorriso nos olhos. Ele sim, com aquele brilhozinho nos olhos que não vi em ti quando partiste de cá. Espero que já o tenhas recuperado.
Hoje, partilho isto contigo, desta forma, porque não to consigo dizer pessoalmente na área da restauração das Twin Towers (Sete Rios) à hora de almoço... Lembras-te? Eu, tu e elas! Hoje, partilho isto contigo, desta forma, porque, como canta Sérgio Godinho, "há uns anos fiz um amigo e coisa mais preciosa no mundo não há". Saudades de ti.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Nos últimos dias...

Terminámos a semana passada com uma ida ao parque. Começámos o fim de semana passado com uma ida à Quinta. Iniciámos a semana com uma gripe. Terminamos esta semana com vontade de aproveitar o bom tempo que se faz sentir. Chamam-lhe o Verão de S. Martinho. 
Dizes muitas coisas, as tuas frases são mais completas. Argumentas. Defendes-te das acusações. Pedes "escupa" com o charme que te caracteriza e eu tento ser firme e resistir. Continuas a não conseguir verbalizar as frustrações, por isso a tua mão salta para a frente com muita facilidade quando as coisas não correm como esperas, no entanto, por vezes, consigo intervir a tempo, de maneira a perguntar-te se estás chateado, de maneira a que me digas com palavras o que te chateia. Quando te estou a vestir e te chateias, levantas a mão na minha direção. Agarro-a, olho-te nos olhos e digo que não, digo que isso não se faz. Tu evitas olhar-me nos olhos, reconheces que fazes mal e pedes-me desculpa. Eu digo que estou chateada contigo, mantenho um ar sério e continuo a vestir-te. Só depois de terminar o que tenho a fazer é que volto a conversar contigo. Tu , entretanto, olhas-me com atenção, tentas meter conversa comigo, falas de outras coisas. Eu resisto e no final arremato com "agora já está, não era necessário ter-me zangado contigo, sabes que a mãe tinha mesmo de te vestir, não sabes?". Eu desculpo-te, fazemos as pazes. Acho que percebes a mensagem. Às vezes verbalizo: Não gosto do que tu fizeste, mas gosto de ti.
Quando me zango contigo de manhã dizes que queres a Carmo. Espertalhão. Ela foi contigo ao parque, puxaste um brinquedo das mãos de uma amiga até consegui-lo, até magoá-la. Perguntei-te o que tinha acontecido, respondeste que fizeste mal e que a menina estava a chorar. Pedi-te para lhe pedires desculpa e para lhe dares um beijinho quando a encontrasses. Não sei se te vais lembrar, acho que isto tem de ser feito na hora.
Continuas a não ser muito adepto de beijinhos, mas, com jeito e paciência, já vais dando beijos e abraços. Às vezes, não muitas, dizes "Olá" a desconhecidos, eles olham-te, cumprimentam-te e sorriem. 
Na visita à quinta tirámos algumas fotografias. Ao olhar para elas no visor do telemóvel reparei que cresceste muito. Eu, que até acho que aproveito bem o tempo contigo e que te acompanho, de repente achei que tinha perdido alguma coisa. Do Verão até agora tiveste um pico de crescimento, pelo menos para mim.
Na quarta feira subimos a Avenida grande da nossa terra a pé. Corrias, escondias-te, aparecias e corrias na minha direção. Eu baixava-me e recebia-te de braços abertos.
Tu seduzes-nos com o teu sorriso, com o brilho do teu olhar vivo e com o teu ar traquina. Nós não te resistimos. Quando não acordas sozinho, acordamos-te com beijinhos, festas e olhares apaixonados. Continuamos apaixonados por ti, a verdade é essa. Acho que todos os pais sentem isto (ou quase todos). E ainda bem.
Fim de semana estamos a caminho e queremos aproveitar-te. Sol mantém-te por cá.