quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Adeus meu querido mês de Dezembro

Adeus meu querido mês de Dezembro. Foste especial, foste um mês de comemorações, foste cheio de momentos que queremos guardar, repetir, perpetuar. Aproveitámos-te bem, não mudes nunca.

No primeiro fim de semana do mês almoçamos numa quinta de amigos de uns amigos nossos. Gente que recebe com simplicidade, gente que, mesmo não nos conhecendo, nos deixa à vontade. A quinta tem ovelhas, porcos, cães, coelhos, gatos, galos e galinhas. Ele adorou. Jogou matraquilhos pela primeira vez. Jogámos à bola e à apanhada. Ouviram-se gargalhadas e sentiu-se o cansaço de tanta correria.

No segundo fim de semana aconteceu o tradicional almoço de Natal. Grandes e pequenos, todos à mesma mesa. Boas e más disposições a dividirem as atenções. Ele correu que se fartou (mentira, não se fartou), brincou. Depois de almoço, peguei em 4 crianças e fomos ao parque; pelo caminho, apanhámos flores e folhas; pisaram-se as folhas de Outono; andaram de baloiço; subiram e desceram escorregas; brincaram com a areia e subiram à casa do Parque. Comprei espadas (1 €) e uma embalagem de bolas de sabão (0,50€) para oferecer aos mais pequenos. Foi divertido e, ao contrário do almoço de Halloween, não houve birras pelo mesmo brinquedo.
A festa prolongou-se e jantámos com um casal amigo. Gostei de ver o meu filho brincar com o filho deles. Eles têm a mesma idade, estava tudo à espera que se chateassem por quererem as mesmas coisas, mas não. Eles entenderam-se, eles brincaram, eles partilharam. Ele gostou de estar na casa do amigo. Foi um dia cheio.

No terceiro fim de semana fizemos o nosso passeio de Natal, porque, como já disse, quero mais tradições, mais recordações e menos consumições. Em primeiro lugar, porque não há hipóteses de grandes consumos; depois, porque há coisas bem mais interessantes do que comprar.

No quarto fim de semana, que foi prolongado, foi o Natal e ele casou os meses. Fez 27 meses no dia 27. Cantámos-lhe os parabéns.

No quinto fim de semana, que também será prolongado, vamos comemorar o ano novo. Vamos para o campo brincar e comemorar com amigos. Ele associa este nosso passeio à história "Rato do campo e Rato da cidade", de que falei aqui. Gosto de guiar as suas descobertas e associações, através de exemplos reais. Procuro transmitir-lhe conhecimentos e orientar aprendizagens que tenham significado para ele. Vou levar este livro para lermos a descrição da vida no campo, no próprio campo.

E 2015 chega ao fim. E aqui está mais uma hipótese de iniciar ou recomeçar alguma coisa que valha a pena; apesar de termos 365 ou 366 dias por ano para o fazer, os recomeços de Ano Novo são especiais e mais intensos.
Adeus Dezembro; Olá Janeiro.
Adeus 2015; Olá 2016.
Adeus ano de conflitos (a vários níveis, inclusive a nível mundial); Olá Paz, esperamos por ti em 2016.

Imagem daqui.
Feliz Ano Novo! 

Reflexões profundas (ou não) #17 - Constatações e desejos

Nesta casa não houve calendário do advento. Acho a ideia interessante, apesar de não a considerar uma tradição familiar. este calendário nunca esteve presente nas minhas comemorações natalícias. No entanto, no próximo ano não me escapa, mas não quero cá calendários com um chocolate em cada dia... Eu sou lá pessoa de ter uma caixa de chocolates aberta 24 dias; abro a caixa num dia e, no máximo, no dia seguinte não há nenhum chocolate para contar a história. E não me venham dizer que isso é para o miúdo, que eu nem sou pessoa de lhe dar doces (sim, sou dessas). Se bem que ele, este Natal, comeu um chocolate às escondidas. E mais umas mini fatias de bolo. Parece-me que o meu reinado tem os dias contados.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Reflexões profundas (ou não) #16 - A traição e as dores de acordo com o género

Irritam-me as pessoas em geral, e os homens em particular (em particular porque foi um homem que fez um comentário a este respeito mais do que uma vez), que dizem "ai coitadinho que foi traído, ela era isto, ela era aquilo". Dizem isto com um ar de sofrimento e com uma solidariedade que deviam utilizar para abraçar boas causas. Quando é o contrário, quando são elas a ser traídas, não passa de uma constatação, não há compaixão, não há lamentações profundas e não há acusações infundadas. 
Ele é coitadinho, porque foi traído; e ela, que traiu, é uma grande ca(?)ra. Ela, quando é traída, tem um feitio muito especial, também tem culpa; a culpa, afinal, é sempre dos dois. Parem de me aborrecer, pode ser? Sim, sim, estamos em época de festividades, mas há coisas que me aborrecem o ano inteiro. 
O que é que vocês, pessoas a quem esta "reflexão" pode ser dirigida, acham? E que tal pararem de avaliar e catalogar dores e sofrimentos de acordo com o género e começarem a falar apenas de traição (se isso for tema que vos interesse, claro). Da dor que a traição pode causar. É isto que vos atormenta, certo? O problema é que vocês não sabem expressar muito bem os vossos sentimentos, não é?

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

À conversa com o meu filho #3

No domingo, nostálgica pela aproximação da segunda feira, ou melhor, pela aproximação do dia em que tenho de o deixar para ir trabalhar, olhei-o nos olhos e disse-lhe: Filho, vou ter saudades deste momento. Vou ter saudades tuas, vou ter saudades de como és agora. É que és mesmo maravilhoso. 
E chorei. Agora ando assim, emociono-me por dois motivos: por tudo e por nada, sendo que este motivo é o meu TUDO.

Na segunda feira, a AMA abre a janela e diz-lhe que está frio.
Ele responde com ar de desdém: Então fecha a janela!

Eu ralho com ele.
Ele procura-me através do olhar, olha-me nos olhos, estica-me os braços, diz "mamã, oh mamã" e encosta a cabeça no meu peito. Safado!

Às dez da noite, a caminho de casa, ele vê a biblioteca; diz várias vezes que quer ir à biblioteca. Quando chegamos a casa faz uma birra porque está cansado, mas tenta resistir ao sono; ainda está eufórico com as brincadeiras que teve com a prima. Eu agarro-o, encosto-o ao meu peito e balanço o seu pequeno corpo embrulhado no meu, enquanto lhe conto uma história. Ele adormece em cinco segundos. Eu gravo a sensação de o aconchegar no meu peito, na minha memória, no meu guardador de recordações, no meu coração. E fecho-o para que nada desta memória se perca.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

E um Feliz Natal aconteceu...

Tal como desejei, dancei, cantei, brindei e sorri. Fui feliz e vi os outros felizes. Também chorei - sim, foi um choro de tristeza, infelizmente; estes choros, por vezes silenciosos, fazem-me ver as coisas de outra forma, alertam-me, trazem-me clareza, mas passam. E o Natal continuou e reinou. 
Nós - eu, ele e ela - fizemos pinturas no dia 24 de manhã; eu e ele lemos-lhe a história do Pai Natal, ela ainda não conhecia a "nossa história" deste Natal; cantamos e dançamos; almoçamos juntos nos dias 24 e 25.
Apareci na casa da minha irmã no dia 24 de manhã com uma carta do Pai Natal, endereçada aos dois e restante família, mas direcionada, objetivamente, a ela (ele quer lá saber desses pormenores); com o objetivo de justificar a retirada de todos os embrulhos que foram colocados debaixo da árvore de Natal da minha mãe (é suposto os presentes aparecerem no dia 24, entendido?). A carta dizia:

Deixei aqui, por engano, presentes de Natal que não são vossos. O papel de embrulho e o formato dos presentes são muito parecidos e eu, com tanto trabalho, enganei-me. No entanto, não se preocupem, eu e os Duendes já os viemos buscar e estamos a trabalhar muito para que possam receber os vossos presentes na noite de Natal. Deixaremos os presentes à vossa porta nessa noite. 
Desculpem a troca de presentes,
Beijinhos e abraços para todos.
O Pai Natal.

Ela mostrou a carta à mãe e ao tio, que a leram, novamente, em voz alta. Ficou comprovado que não fui eu que inventei aquelas palavras, estava escrito, o Pai Natal escreveu-lhe mesmo. Em resposta, eu e ela escrevemos uma carta ao Pai Natal a pedir que deixasse os presentes no dia 25, se pudesse, claro, uma vez que ela não estaria cá no dia 24 à noite.
O Pai Natal deixou presentes à porta da casa da avó na noite de 24 e na tarde do dia 25. Deixámos um prato com bolos para o Pai Natal no parapeito da janela da casa da avó. Bateram à porta e ouviu-se um Ho-Ho-Ho. Fizemos um grande alarido em torno disso e corremos todos em direção à rua. Vimos a cara de espanto dele no dia 24 e a dela no dia 25. Abrimos a porta. Encontrámos os presentes à porta, tal como o Pai Natal prometeu. Muitos! O Pai Natal e os Duendes comeram os bolos que deixámos no parapeito da janela. Na noite de 24 éramos 11 à mesa; no dia 25 éramos 6. Na noite de 24 a euforia foi dele; no dia 25, e apesar de ser com a luz do dia,  foi a vez dela. Os dois acreditaram que o Pai Natal passou por ali, que deixou presentes para todos, satisfazendo os desejos mais secretos de cada um.
Ele ficou encantado com o facto de o Pai Natal lhe ter devolvido o cavalo que tinha perdido; ele diz a toda a gente que o Pai Natal encontrou o seu cavalo que estava debaixo de um carro (ele perdeu-o na rua quando estava com a Ama e ela, possivelmente, deu-lhe esta justificação). Para além disso, ainda ganhou um outro cavalo que se tornou amigo do "primeiro"; agora, leva os dois para todo o lado; o primeiro é o Trovão, o amigo é o Kikas - este nome é um bocado desadequado a um cavalo preto e imponente, mas foi batizado assim.
No dia 25 de manhã, acordámos a querer prolongar a magia do Natal. Montámos uma tenda que lhe ofereceram na sala (não lhe entregámos todas os presentes ao mesmo tempo), com este livro embrulhado lá dentro e ao som da música de Natal que temos ouvido repetidamente nos últimos dias. Assim que chegou à sala, fixou o olhar na televisão, no vídeo da música que lhe é familiar, à espera que o boneco do Pai Natal aparecesse a dizer adeus. Só depois é que viu a tenda. Adorou, mas o primeiro impacto não foi o que estávamos à espera - toma lá que é para não serem parvos, o miúdo valoriza o que ele quer, não o que vocês querem. No dia 25, já com a prima, foi a vez de desembrulhar a guitarra que lhe comprámos. Ela recebeu um microfone. Temo que formem uma banda e que me obriguem a tocar pandeireta... Assim de repente, não encontro vocação na minha pessoa para tocar mais nada (sem ofensa às pessoas que tocam pandeireta; parece-me mais fácil do que tocar guitarra ou cantar; talvez até nem seja...).
Ela, quando viu a quantidade de prendas à porta de casa da avó ficou eufórica, recebeu muitos presentes. Um deles, foi o que ela pediu ao Pai Natal na escola.  Eu vi o brilho dos seus grandes olhos. Fiquei feliz por lhe termos proporcionado isto. Os últimos dias para ela não foram fáceis, mas naquele instante, estava tudo bem. Está tudo bem e vai ficar tudo ainda melhor. O Pai Natal existe. Mesmo.
Os dois receberam trotinetes e a tarde do dia 25 foi passada na rua, com manobras de diversão (e tentativas de manobras, no caso dele); com plateia a assistir (eu e a minha irmã; o pai, o tio e o avô dele) e com palmas de incentivo.
É isto meus amores, queremos aplaudir-vos, quer seja pelo que conseguem alcançar facilmente, quer seja pelas tentativas que falham. Foi um Feliz Natal, não há dúvidas que foi, principalmente porque vocês existem e dão um significado muito especial a esta comemoração. 

domingo, 27 de dezembro de 2015

O menino que vestia livros

Era uma vez um menino que no dia em que nasceu, em vez de uma manta quente e macia, foi embrulhado em livros velhos. Os seus pais viviam num país distante, longe da família e dos amigos, com poucas hipóteses de comprar roupas macias e confortáveis, lençóis de algodão ou mantas quentes. Decidiram então, fazer das folhas de livros velhos, que outros dispensavam, a primeira roupa para o seu bebé. À medida que selecionavam os livros que utilizariam no fabrico da delicada roupa, iam descobrindo que o "Planeta dos Livros" é imenso. Até ali nunca tinham imaginado que existiam tantas espécies de livros; classificados por idades, de acordo com a ilustração, de acordo com o objetivo, de acordo com os materiais de que são feitos. A variedade era tão grande que eles sentiram necessidade de pesquisar mais sobre o novo (para eles) e admirável mundo desconhecido. Para os ajudar nesta tarefa, recorreram ao bibliotecário da Aldeia que lhes permitia longas estadias na Biblioteca. Desta forma descobriram, pesquisando, uma grande variedade de livros e conseguiram aprender, também através de um livro, a remendar e a costurar.
Todos os livros que outros não queriam, todos os livros cuja data de validade tinha sido ultrapassada (porque não eram adequados a determinadas idades ou porque estavam fora de moda), todos os livros desperdiçados por terem menos uma ou mais páginas, todos os livros com os cantos roídos, foram aproveitados pelos pais do menino que nasceu no país longínquo e que nada tinha para vestir no dia em que nasceu.
Os livros de tecido foram aproveitados para fazer o interior da roupa, para que o menino se sentisse confortável.
Os livros sem ilustrações foram utilizados para fazer as calças com um padrão mais sóbrio.
Dos livros profusamente ilustrados, fizeram-se camisolas divertidas e cheias de cores, para que o menino, através do seu olhar curioso, pudesse descobrir as cores. Das capas rijas, fizeram-se moldes para os sapatos e para um chapéu a condizer.
Depois do primeiro conjunto de roupa, os pais decidiram que, até encontrarem outra solução, iriam aperfeiçoar a técnica de utilização de livros para a realização de roupa. E assim foi: tornaram-se especialistas na arte de tricotar livros; inventaram uma nova moda; começaram a receber encomendas de todos os lados do mundo. Os embrulhos que colocavam na caixa do correio na altura do Natal, para os familiares e amigos distantes, levavam sempre uma lembrança personalizada tricotada com entusiasmo. Eram presentes originais e inesquecíveis, com mensagens personalizadas, únicos e feitos à medida de cada um.
O menino, devido ao contacto precoce com o mundo dos livros, cedo demonstrou aptidão para as letras e para o desenho. Quando cresceu, tornou-se num grande escritor e ilustrador e era conhecido mundialmente como o escritor que escrevia e vestia livros.

Filho, esta história é baseada em todas as vezes que nos pediste fita cola para arranjar os livros que rasgaste; é inspirada nas nossas visitas à biblioteca e em todas as noites que nos pediste, baixinho, para contar uma, duas, três ou mais histórias antes de dormires.
Arranjar livros já foi um dos teus passatempos preferidos. E rasgar também... De vez em quando, ainda o é. És o nosso mini-costureiro de livros.
Hoje, neste dia 27, fazes 27 meses. "Casas" os meses meu amor pequenino. Parabéns e obrigada por tornares tudo isto tão perfeito e com tanto sentido.