terça-feira, 11 de setembro de 2018

Cara ou coroa: um jogo de sorte ou azar

A iniciar um novo jogo, um jogo de sorte ou azar: é assim que me sinto desde que decidimos inscrevê-lo na Escola Pública.

Começa logo com o sítio onde tiveste a sorte ou o azar de comprar casa.

Passa por teres referências da escola A e/ou B. Por teres a sorte de conhecer alguém que trabalha nas ditas escolas. Por conheceres alguém cujos filhos frequentam essas mesmas escolas. Por teres referências para optares de acordo com o que valorizas.

Passa pela sorte ou pelo azar de o responsável pela distribuição das crianças pelas escolas do Agrupamento perceber o que está a fazer. Ou pelo menos ter o profissionalismo de ler o Despacho Normativo em vigor - tenho a certeza de que o responsável aqui da minha zona o leu... pelo menos parte dele, depois da minha reclamação na qual transcrevi excertos do mesmo.

Passa pela sorte de a criança ser colocada na escola que preferes, numa turma em que encontrará caras conhecidas, alguns amigos, algumas referências.

Passa pela sorte de a dita escola ter um/a bom/boa coordenador/a ou pelo azar de o/a mesmo/a ser intragável.

Passa pela sorte ou pelo azar de a escola em que o teu filho entrou ter boas ou más instalações. Boas ou más infraestruturas. Boa ou má cozinheira. Boa ou má comida.

Por fim e no topo da hierarquia, aquela variável que te faz ganhar ou perder o jogo: o/a educador/a - já sei que é uma educadora. Será boa? Será má? Estes adjetivos são redutores, mas isto é (só) um jogo. Aquele que pode ser considerado o jogo da infância do teu filho, mas para muitos apenas mais um jogo.
Quem diz educadora, diz professora, auxiliares e afins. 

E ainda que te prepares para o jogo, trabalhes o raciocínio, tenhas astúcia, facilidade na resolução de problemas que envolvem a lógica, elimines obstáculos, podes ganhar ou perder. (Parece que) nada depende de ti. E não depende, afinal isto é tão somente um jogo de sorte ou azar. É como jogar à moeda: cara ou coroa?
Eu, que fiz questão de visitar várias escolas, falar com coordenadoras, ouvir testemunhos, que avaliei e selecionei o que me pareceu melhor, sei que há coisas que não estão nas minhas mãos. Sinto-me a ter de fechar os olhos e a acreditar... na sorte. Consciente de que podia não ter feito nada do que referi antes e ter a sorte da boa educadora.

Vou esperar pela reunião geral e pela reunião com a educadora, vou esperar pelo primeiro dia, vou esperar pelo sorriso do meu filho, pelo seu discurso no regresso a casa, pelo brilho nos olhos a caminho da escola.
Fui ingénua, não pensei que me custasse tanto esta mudança, apesar de a ter previsto aqui. A educadora que ele teve tornou esta mudança ainda mais difícil.
Tal como escrevi aqui, eu sou pela Escola Pública, mas pela Escola Pública com qualidade.


P.S. 1 Se eu escolher cara e me calhar coroa, faço as malas e o miúdo regressa à escola em que esteve até ao final do mês de Agosto e só sai de lá aos 18 anos. Em relação ao orçamento mensal, que se lixe, é confiar na sorte.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Será que? Não faço ideia.

Será que vou deixá-lo com a tranquilidade com que to deixei a primeira vez? Recordo agora que me enviavas fotografias nos primeiros dias para me tranquilizar.

Será que vão conseguir entendê-lo? Compreender as suas dificuldades, as suas facilidades e as suas preferências?

Será que vão valorizar o seu progresso como tu fizeste?

Será que lhe vão dar um beijo repenicado e um abraço de manhã?

Será que me vão enviar uma mensagem a dizer que, apesar de não ter febre, não está bem?

Será que lhe vão reconhecer as necessidades nos dias em que o mau feitio impera?

Será que volto a confiá-lo num passeio ou numa ida à praia como o confiei a vocês?

Será que vão aguçar a sua curiosidade e o seu gosto pelo conhecimento do mundo, de novos lugares e de novas lendas como tu o fazes?

Será que os mapas de Portugal e do Mundo que lhe comprámos à conta do teu trabalho, continuarão a fazer sentido?

Será que cantará o Hino de Portugal num café qualquer como fez no outro dia? Será que dirá: foi "a minha professora" que me ensinou.

Será que vai ver, com os amigos da escola, jogos de futebol quando Portugal jogar num Europeu ou num Mundial?

Será  que vai continuar a perguntar-me com tanto interesse como é que se escreve isto ou aquilo?

Será que vai sentir saudades da horta, da vista, do espaço, dos amigos, da comida, das brincadeiras, das piscinas de Verão, das pessoas? Das pessoas, que são o mais importante de tudo...

Será que definirão, em conjunto, algumas regras? Aquelas que sabemos que são necessárias?

Será que se sentirá tão integrado num grupo como se sente aí?

Será que teremos proximidade suficiente com a educadora para conversarmos sobre o que achamos importante para o bem estar do miúdo?

Será que as novas aprendizagens lhe pesarão? É que apesar de teres proporcionado a aprendizagem/descoberta de tantos conteúdos, não senti que isso o sobrecarregasse. Ele sempre demonstrou gostar. Foram muitas descobertas/aprendizagens com sentido (para ele/eles). A culpa é tua.

Será que vou saber o que o meu filho vai fazendo ao longo do ano? Contigo eu sabia. Contigo, eu até podia aplicar as novas descobertas no nosso dia a dia, sempre que fosse adequado.

Será que vou ouvi-lo dizer "isso não se faz aos amigos", reconhecendo imediatamente que a frase foi trabalhada e discutida contigo.

Será?

Sei pouco do que nos espera lá à frente (em setembro). Sei bem o que ficou para trás. Sei das saudades que já temos. E a culpa é tua, da tua companheira de equipa, "a tua copiloto", de toda a equipa que faz parte desta escola.

Sei que posso fazer muito do que aqui foi escrito (de maneira diferente, claro), posso até fazer tudo e mais; sei que sou a mãe e que sou responsável pela sua educação, pelos valores que lhe transmito com exemplos; sei que o meu papel não é de mera espetadora; sei muita coisa (às vezes parece que não sei nada).
Mas também sei que ele passa cerca de 8 horas na escola; sei que ele tem 4 anos quase 5; sei que agora, mais do que as formalidades exigidas pelo sistema, é tempo de ganhar boas bases e oportunidades para descobrir o mundo... descobrir o mundo com interesse... é tempo de gostar de descobrir e de gostar de aprender. Convosco eu sabia que ele tinha tudo isto. Por isso, a saída é difícil. A culpa é vossa.

O nosso obrigado e até breve (não conseguimos dizer adeus).

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

À conversa com o meu filho #20 - conversas diversas, muitas sobre o mesmo

- Mãe, o Cristiano Ronaldo existe mesmo?

- O Eusébio morreu? Porquê? Conheceste o Eusébio? Ele era o capitão do Benfica?

- O Cristiano Ronaldo um dia vai morrer? Quando ele morrer, eu posso ser o Cristiano Ronaldo...

- Mãe, se ninguém morresse não havia estrelas.

- Pai, já não quero ser padeiro, quero ser jogador de futebol.

- Mãe a minha festa é sobre futebol.
- Filho, tinhas dito que querias uma festa da saga Star Wars...
- Não mãe, essa é a minha festa dos 6 anos. A dos 5 anos, é a festa do futebol. 

- Mãe quando o Cristiano for de Portugal, eu sou de Portugal. Agora sou da Juventus.

- Mãe, Portugal vai jogar com o Benfica???
- Filho, há vários campeonatos...
Acho que vou fazer um projeto com o miúdo sobre futebol; o pai diz que vai começar a ler jornais desportivos. Não faço ideia se tem jeito para o jogo, mas a avaliar pela dramatização quando marca (ou não) um golo, relator desportivo é uma (forte) possibilidade. Tem potencial.

- Mãe, já não quero ter irmãos.
- Ai não?

- Tiras uma camisola das tuas preferidas do cesto da roupa suja, esticas a dita em cima da cama e dizes: está lavada. Posso levar esta?

- Mãe estás a ler? Mas não falas? Podes ler para mim?
- Filho, estou a ler um livro para adultos em pensamento, só para mim, sem ser em voz alta. Lê também um dos teus.
- Mãe, eu não sei ler.

- Mãe ensinas-me a ler?

- Mãe, o 100 é maior do que o 1000? Mãe o 10 é o primeiro número com 2 algarismos. Mãe, olha o 100.

- Mãe, quero a minha privacidade, eu limpo-me sozinho (na casa de banho).
- Maaaaaaaaaaae, ajuda-me, tenho as mãos sujas (ainda na casa de banho).

- Mãe, adoro-te, és a melhor mãe do mundo.

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Regressar, rabiscar e escrever num "sítio" que já me fez muito feliz: este (ao reler o que já escrevi)

Filho, a ausência de riscos, rabiscos e escritos dos últimos meses deve-se a menos tempo, menos vontade, outras prioridades... cada uma destas coisas e todas elas ao mesmo tempo. Mas continuo com vontade de ter um caderno para anotar algumas das coisas que vais dizendo e fazendo, para o caso da memória me trair e de eu me esquecer do que é a vida contigo.

- Todos os dias, quando te vou buscar à escola, queres ficar no parque. Nada de novo. Foi sempre assim.
- Em Fevereiro/Março deixaste de querer dormir na escola, apesar de eu achar que a sesta te faz falta. Com esta mudança, na maioria dos dias, adormeces às 20h00. Continuas a acordar às 7h, às vezes antes, mesmo quando te deitas mais tarde.
- Valorizas, cada vez mais, os amigos e as coisas que tens.
- Gostas de folia: não te cansas das festas que vão acontecendo aqui e acolá.
- Foste a Coimbra com a escola. Assim que surgiu a comunicação, aceitei sem receio; depois fiquei com o coração nas mãos, mas senti que sim, que podias ir. Foste e gostaste.
- Foste à praia com a escola. Desta vez confiei e, mais uma vez, senti que sim, que era altura de ires (com aquelas pessoas). Adoraste.
- Queres  escolher a roupa que vestes (camisolas, principalmente): camisolas de alças como o porquinho mais velho (o porquinho mais velho tem vindo a perder terreno na tuas preferências, mas ainda falas dele); a t-shirt de Portugal com o número 7; a do Benfica; as da saga Star Wars.
- Quando me viste chorar porque me enganei no caminho e não chegámos a tempo de ver uma peça de teatro, disseste-me para ter calma, que às vezes acontece, pediste-me para contar até 10.
- Queres fazer a tua festa num sítio com insufláveis. Lá se vai a minha intenção de fazer uma festa ao ar livre, como tem sido até aqui.
- Jogas à bola com entusiasmo, acho que a euforia do Mundial te contagiou. Jogas no parque, na escola e em casa. Na rua dás pontapés nos obstáculos que vais encontrando - é claro que a vida útil dos teus ténis diminuiu consideravelmente. Os teus joelhos estão encardidos, mas tu andas feliz.
- Vimos juntos o primeiro jogo de Portugal,  vibrámos os dois quando Portugal marcou o primeiro golo deste Campeonato. Depois chegou o pai e o trio ficou completo.
- Assististe aos jogos do Mundial com muito entusiasmo: pelos jogadores portugueses, pelo Cristiano Ronaldo, pelo Pepe, pelo Rui Patrício e companhia; apreendeste a respeitar o adversário e avisaste, logo no início do último jogo de Portugal, que o Uruguai era uma equipa muito forte; aperfeiçoaste o trabalho em equipa; descobriste que há números com 2, 3 ou mais algarismos - a caderneta do Mundial proporcionou a descoberta. Precisamos de aperfeiçoar as regras de futebol: reclamas falta e penalti como quem bebe um copo de água.
- À conta da caderneta, aperfeiçoaste a técnica de colar autocolantes (alguns moram na tua cama); passaste a entender melhor os números; descobriste novas bandeiras e novos países.
- Passámos 4 dias na Galé no início de Julho e o drama de quem tem de se despedir das (mini) férias repetiu-se. Tu continuas a querer viver nas férias. Eu e o pai jogámos à bola contigo todos os dias.
- Passámos um fim de semana em Melides no final de Julho: numa casa de Madeira, com piscina, com uma cama de rede. Queremos uma casa daquelas. Nesta casa tu e o pai dormiram na sala e adormeceram a ver o Campeonato de Hóquei.
- Vibraste com a vitória da equipa portuguesa no EURO sub-19 e já percebeste que há outras equipas para além da "principal" e que há muitas outras modalidades desportivas, igualmente importantes.
- Não tarda muito vamos iniciar o nosso campeonato de férias grandes de 2018,  no sítio do costume. E esse sim, temos de vencer: observar, driblar, passar, rematar, marcar, ganhar, comemorar... Tudo. Vamos lá viver nas férias mais 15 dias (daqui a menos de 15 dias).

Dedicaste-te à rega depois de Portugal sair do Mundial, mas não deixaste a camisola.

Talvez não seja boa ideia subir as escadas a fazer cambalhotas...

Piscina, jogar à bola e apreciar a paisagem... já me parece boa ideia.

sexta-feira, 9 de março de 2018

Eu, mãe e encarregada de educação, à conversa com o/a (imaginário/a) futuro/a professor/a do meu filho... ou a carta que (me) escreveria se fosse professora

Começo por te dizer que não quero intrometer-me no teu trabalho. Não me leves a mal por redigir sugestões -  julgo que não te sentirás ameaçada, creio que acreditas em ti e nas tuas convicções. Desculpa se, em algum momento, for incorreta. Não é essa a minha intenção. Redijo esta carta como mãe de um futuro aluno teu, apenas isso. Sou importante na vida do miúdo e quero saber o que se passa no percurso escolar dele, mas eu sou a mãe. O/A professor/a és tu. Acredito que és capaz de fazer muito mais do que te vou pedir. Mas também sei que há quem não o seja (por medo, até). Preciso de saber com o que posso contar. Tenho esse direito como mãe, da mesma maneira que tu tens os teus direitos como professor/a, nomeadamente o meu respeito pelo teu trabalho.

Se a escola em que trabalhas está entre as 230 que puderam testar, através de projetos-piloto, as mudanças propostas pelo Ministério da Educação no âmbito da flexibilidade curricular, é para ti que escrevo. Se não está, também é para ti. Porque acredito que em qualquer uma das situações, tu podes muito.

Conversa com os Encarregados de Educação e explica-lhes que a Educação está a mudar. E que essa mudança é necessária e é para um bem comum: o futuro. Ainda nem todos se aperceberam desta realidade, mas acho que a necessidade de mudança já reside em todos nós - de maneiras diferentes, é certo. Fala-lhes dos teus receios e das práticas, inerentes a essa mudança, que pretendes implementar. Pergunta-lhes se estão dispostos a ajudar. Diz-lhes que és tu quem gere as tuas aulas (não é possível agradar a todos), mas que precisas do apoio de todos.
Podes pedir a cada um para escrever aquela que acha que será a maior dificuldade do filho. Podes pedir sugestões de melhoria a implementar na turma/na escola. Podes pedir a cada um uma prática a manter (se for caso disso). Dá-lhes tempo para pensarem nas respostas. 
Com a análise das respostas consegues conhecer um pouco melhor o grupo de pais que tens. Se puderes e se te fizer sentido, implementa uma ou mais ações de melhoria, em conjunto.
Lembra-te que recebeste formação para ser professor/a, mas nenhum de nós a recebeu para ser encarregado/a de educação - eu ainda estou a definir o meu papel nesta relação, quero participar sem ser intrusiva.
Sei que alguns encarregados de educação conseguem ser intragáveis. No meu trabalho, que nada tem a ver com Educação, também os encontro - não neste papel, existem em todo o lado, não é nada pessoal.

Não tenhas medo de alterar a organização da tua sala de aula, de a adaptares ao tipo de atividades que queres desenvolver: em "U", em pequenos grupos, todos à volta da mesma mesa? Por mim, podes experimentar e mudar consoante as necessidades do teu grupo. Se me pedires ajuda para colocar as mesas na rua para que os miúdos observem e desenhem a paisagem (ou parte dela) que têm à disposição, eu ajudo.

Não tenhas medo de ir para a rua falar de plantas, de seres vivos e não vivos, do movimento aparente do sol, das fases da lua, das espécies... Não tenhas medo que eles dispersem. Define e transmite as regras antes de ires para a rua: hoje a ida para a rua tem este ou aquele objetivo ou a nossa saída é livre, depois falaremos acerca do que cada um escolheu fazer. Assim, dás voz aos teus alunos.
Haverão dias em que a dispersão, que por vezes te assusta, pode permitir a recolha de muito material para trabalhares no futuro: se apanharem pedras, fala-lhes de rochas; se andarem de baloiço, fala-lhes de roldanas e de molas; se brincarem na areia, orienta-os para a pesagem da mesma; se encontrarem uma "Joaninha", fala-lhes de insetos... Não te preocupes, eu não vou reclamar se o miúdo chegar a casa com a roupa encardida ou se ele me disser que brinca muito todos os dias.
E se chegares à sala de aula e não explicares formalmente para que serve um compasso e optares por lançares o desafio "para que serve isto?" - vou adorar. (Contaram-me que uma escola fez isto, adorei a ideia do ensino pela descoberta; colocaram vários compassos no chão e questionaram, "isto serve para quê?"; houve exploração, discussão e conclusão). .

Se algum aluno mostrar interesse por algum assunto que não dominas, não te apavores. Não tens de saber tudo. Pergunta a opinião a outros alunos. Regista as ideias que são apresentadas. Chama-lhe Tempestade de Ideias e esquematiza o que julgam saber sobre o tema.
Depois, lança o desafio: vamos descobrir mais sobre isto? Formem grupos. Definam o que querem saber. Definam tarefas: quem pesquisa na internet; quem recorta imagens de revistas; quem procura um livro sobre o assunto; quem entrevista alguém (na escola, um vizinho, o sr. do talho, a tia...). Já pensaste nas áreas que podem ser trabalhadas com este tipo de atividade?
Cada grupo trabalha no sentido de cumprir a tarefa pela qual é responsável. Cada grupo apresenta, aos colegas, as respostas/descobertas/dúvidas que vão surgindo.
Em grande grupo, definam como vão apresentar os resultados/as respostas/as descobertas finais: numa cartolina, num filme, uma entrevista, uma peça de teatro? Iniciem um projeto e apresentem-no aos Encarregados de Educação. Ou a outra sala. Todos aprendem mais.

Se me disseres que não vais usar os livros escolares, definidos pela escola em que lecionas, seguindo a ordem de páginas ou o programa definido, abraço-te - desculpa o abuso. Se me disseres que o Livro de textos será construído pelos alunos com a tua orientação, abraço-te dez vezes. Não sei se gostas de abraços. Eu não gosto muito de abraços (só de algumas pessoas), mas entusiasmei-me com esta ideia.

Não mandes trabalhos de casa diariamente, eu gosto de aproveitar os finais dos dias com outras coisas. E isto sou eu, que consigo ir buscar o miúdo cedo. Já pensaste nos pais que chegam tarde?

Não desistas do meu filho nas maiores dificuldades. É nesse momento que ele precisa mais de ti. E eu também. 

Quando o meu filho ficar muito elétrico, tenta perceber se está cansado, se tem sono. Ele exterioriza o cansaço assim. Pergunta-me o que quiseres para o conheceres melhor.

Se achares que o meu filho precisa de uma festa, de um abraço, de um beijo ou de colo, sente-te à vontade para o fazeres. Se o fizeres com outra criança que precisa, não sintas que tens a obrigação de o fazer com todos. Sabes melhor do que eu que não precisam todos das mesmas coisas ao mesmo tempo.

Ainda não sei se o meu filho vai conseguir memorizar com facilidade conceitos impostos. Mas peço-te que tentes perceber se sente dificuldades. Quero dizer-te que estou disposta a discutir e a dar continuidade a alguma estratégia que implementes no teu espaço e no teu tempo, estou disponível para encontrar contigo uma alternativa. 

Se achares que o meu filho age mal muitas vezes, fala comigo. E com ele, claro. Diz-me em que situações o faz. A educação do meu filho, apesar de existirem por aí umas circulares que dizem o contrário, não é só da minha responsabilidade. Quando tu o chamas à razão, quando o orientas para o cumprimento de algumas regras, quando lhe dás o teu exemplo, também estás a educá-lo. E eu agradeço-te por isso. Nem imaginas o quanto.

Se pretenderes criar uma nova área no vosso espaço, pede-me ajuda. Não tenho jeito para expressão plástica, nem muito tempo. Mas se fores concreta, eu chego lá e estou disponível. 

Acho mesmo que a profissão que abraçaste é a base para um futuro melhor, acho que o poder que tens nas mãos vai muito além de políticas implementadas e obsoletas e interesses desajustados. Tens o poder de fazer coisas bonitas, de ajudar pessoas a ser e a fazer melhor. Ainda que pequeninas em tamanho, são pessoas grandes pelas oportunidades que nos dão: são uma oportunidade para o mundo. Tens a capacidade de mostrar, de fazer descobrir, de fazer sorrir, de fazer aprender, de fazer ensinar, de fazer partilhar. E também tens a oportunidade de receber: tudo isto e muito mais.


Carta inacabada...

quinta-feira, 8 de março de 2018

Reflexões profundas (ou não) #35 - Livros com descontos, estou tramada.

Escrevi aqui que, com as promoções de Natal e com os descontos de 50% da Editora Livros Horizonte, temi tornar-me compradora compulsiva de livros infantis. Pensei que se seguia um período de calmaria a contrastar com a ventania que se tem sentido nos últimos dias. Só que não. A wook diz que me devolve 100% em cartão do que comprar hoje. E é isto, estou neste momento num processo doloroso de seleção, uma vez que a minha lista de desejos tem cerca de 100 livros (99 para ser mais precisa). 
Já percebi que não terei um desconto de 50%, mas 33% de desconto não é nada mau - sim, quando vi a publicidade pensei que conseguia comprar livros com 50% de desconto, mas já percebi que não. 

Inicialmente pensei: 
-compro hoje um livro de 10€,
-ganho 10€ em cartão, 
-daqui a 15 dias mando vir um livro de 10€. 
-e no fim das contas compro 2 livros, que têm o valor de  20€, por 10€ (50% desconto)... Só que não é assim. 

Eu comecei por dizer que quase me tornei compradora compulsiva, logo tenho o dever de ter desenvolvido um pouco mais a minha capacidade de análise:
-compro hoje um livro de 10€,
-ganho 10€ em cartão,
-daqui a 15 dias mando vir um livro de 10€, mas não posso utilizar os 10€ do cartão (condições da campanha: Aplicável numa ou em várias encomendas até ao limite de 50% do valor total dos livros da encomenda) - ou seja, só posso utilizar 5€ do cartão e pago os restantes 5€.
-então escolho outro livro de 10€, utilizo os restantes 5€ do cartão e pago os restantes 5€ (não sou menina para deixar o cartão da wook com 5€ esquecidos)
-no fim das contas compro 3 livros, que têm o valor de  30€, por 20€ - 33% de desconto não é nada mau... E continuo tramada.

quarta-feira, 7 de março de 2018

Grandes livros para pequenos leitores #29 - A princesa baixinha

Amanhã é dia 8 de Março, dia Internacional da Mulher. Ainda não pensei no que te vou dizer sobre este dia, não sei o que vais ouvir na escola... Mas, hoje, vou contar-te esta história.


Era uma vez uma princesa muito baixinha. Alguns, mais maliciosos, duvidavam até que fosse uma princesa de verdade. O seu avô também fora um homem muito baixo, no entanto isso não o impediu de combater contra os inimigos - segredou-lhe a avó. Assim, nasceu na princesa a vontade de fazer coisas importantes: atravessou bosques, montanhas e desertos, enfrentou um dragão, desatou nós apertados de sacas de farinha enfeitiçadas, afastou condores e regressou a casa como... uma grande princesa. 
A Princesa Catarina é forte e corajosa, tal como qualquer um o pode ser: seja menino ou menina. É isto que te quero dizer amanhã: qualquer um, seja menino ou menina, pode ser forte ou frágil, corajoso ou medroso, alto ou baixo...

É um livro de Beatrice Masini e de Octavia Monaco, da Editora Livros Horizonte.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Então e atividades depois da escola??

Nenhuma... A não ser que contabilize:

- brincadeiras no parque;
- idas a espetáculos em família (não tantas como gostaríamos, mas algumas);
- pinturas diversas em casa, incluindo paredes, mesas e móveis (já não acho muita graça, confesso);
- músicas tocadas a vários instrumentos (mal tocadas, é certo, mas com exploração instrumental);
- cambalhotas em cima da cama com a mãe e ataques de cócegas (fazer-lhe cócegas e ouvir-lhe o riso é terapêutico, às vezes é uma forma de adocicar o final dos dias);
- brincadeiras de faz de conta;
- concentração visual com o visionamento de séries de televisão... pois, por aqui também se vê televisão, mas com restrições;
- expressão dramática (se ele tem jeito para isto);
- passeios de bicicleta com mãe a correr atrás dele;
- molhar-se no sistema de rega (propositadamente);
- saltar nas poças de água - comprei um fato e já tem botas de borracha, faltava a chuva. Agora não falta nada;
- histórias e mais histórias: nos últimos meses temi tornar-me compradora compulsiva de livros infantis, mas o raio das promoções de Natal e os descontos de 50% publicitados por uma editora que me é querida foram os culpados. Estou em processo de recuperação. Não estou curada. Nem sei se algum dia estarei.
- idas ao parque... Já escrevi isto, não já? Ele precisa muito de parque (e eu de rua). Os fins de semana sem parque ou sem passeios na floresta (não é bem uma floresta, mas é assim que a designamos) são mais complicados de gerir.
...

E depois de tudo isto, tenho de escrever que não sou contra as Atividades extracurriculares. Pelo contrário, eu até acho que devíamos pensar em inverter papéis: AEC's com a duração dos períodos letivos e estes com a duração das AEC's, principalmente quando aqueles implicam a inércia dos corpos pequeninos em cadeiras desconfortáveis demasiado tempo e quando as crianças sentem um interesse verdadeiro por estas atividades. Assim, este texto não significa que seja contra a existência de AEC's; está relacionado apenas com o facto de o miúdo não ter demonstrado grande entusiasmo nas atividades que experimentou na escola. E por eu, por conveniência monetária e de disponibilidade, não ter insistido.
A Educadora do meu rapazinho explora os domínios da Educação Física, da Educação Artística, Inglês, Matemática, Linguagem Oral e Abordagem à Escrita, Conhecimento do mundo, Formação Pessoal e Social, etc... Ele, espontaneamente, também explora estas áreas nas brincadeiras que tem. Não sinto que tenha de completar os dias dele com mais atividades, a não ser que ele demonstre gosto/vocação/aptidão por uma determinada área. Por outro lado, também prefiro a interação que as atividades acima descritas nos proporciona. Faz-me participar mais no dia a dia do miúdo. No entanto, estou disposta a proporcionar-lhe uma atividade para além da escola... mais tarde, se ele gostar e se não nos sobrecarregar demasiado (a todos os níveis).
Acho que a Natação é uma hipótese a considerar (fez em bebé, mas desistimos): quando vamos à piscina recreativa, ele gosta... e eu também.
Gostava que ele experimentasse uma Arte Marcial: o miúdo gosta de brincadeiras que envolvem empurrões e moches, acho que lhe aumentaria a capacidade de autocontrole sobre o seu corpo / a sua força/energia. Não é alto para a idade, não é gordo, mas tem força. Contactei uma Academia e adorei a primeira abordagem: podemos assistir a uma aula para percebermos se demonstra interesse, se imita o que vê; o miúdo não pode fazer uma aula experimental, mas sim 2, 3... 6, sem compromisso. Nestas idades algumas crianças sentem-se intimidadas nas primeiras aulas, são mais introvertidas, e uma aula experimental não é suficiente para se perceber se a criança gosta - foi esta a explicação. Não será para já, sinto que ele chega ao final do dia cansado e não quero sobrecarregá-lo, mas a ser, esta Academia parece-me a indicada. Por agora ficamos assim.

 Imagem retirada daqui - à procura de uma imagem para ilustrar esta divagação, acabei por encontrar um texto alusivo ao tema

Acho que esta imagem ilustra bem o que penso em relação às atividades extracurriculares: não em relação às atividades em si, mas sim ao facto de serem realizadas em períodos depois da escola, quando, muitas vezes, as crianças já estão exaustas.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Olá e adeus...olá e adeus... olá

Adeus Agosto de 2017: o mês do meu aniversário e do aniversário da minha tia-irmã. O mês em que iniciámos, já nos últimos dias, as nossas férias grandes de 2017.

Olá Setembro de 2017: o mês em que terminámos as nossas férias grandes de 2017. Adeus Setembro: o mês em que o miúdo lá de casa reiniciou a escola com os amigos do costume (não mudou de escola) e comemorou o seu 4º aniversário.

Olá e Adeus Outubro de 2017: este ano não foste mau. Mudaste, Outubro! Já não te suportava.

Olá e Adeus Novembro de 2017... já não me lembro de ti.

Olá e Adeus Dezembro de 2017: apareceste e partiste com a magia que te caracteriza. Com festas e com almoços felizes, com espetáculos para todos, com a primeira ida ao cinema do miúdo, com uma volta na Roda Gigante de Lisboa, com viroses para todos (mas por que raio os bicharocos teimam em visitar-nos nesta altura?), com prendas e surpresas para todos, com férias, com carrósseis. Foste mágico. Passados tantos anos voltei a amar-te. É oficial e já o assumo sem receio, voltei a amar-te, meu querido mês de Dezembro.

Olá e Adeus Janeiro de 2018: começamos contigo o novo ano e encerramos contigo as encenações de Natal. A árvore foi arrumada em Janeiro, no entanto o Pai Natal  só foi buscar o nosso presépio em Fevereiro. Para além do atraso, esqueceu-se de levar os Reis Magos, o que significa que vou ter de inventar uma história qualquer para justificar o desaparecimento deste poderoso trio. O miúdo recebeu a visita de uma nova virose.

Olá Fevereiro de 2018 e mais uma virose!? "Queridas", ninguém vos convidou. Detesto visitas inesperadas, deixem o miúdo em paz.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

À conversa com o meu filho #19 - Mãe, arranjei-te uma semente...

"De onde vêm os bebés" já foi tema de conversa lá em casa. Não falei da cegonha e acabei por ser directa. Referi este assunto aqui e aqui.

A semana passada surgiu a seguinte conversa à saída da escola:

- Mãe tenho uma semente para pores na tua barriga. - disse-me.
- O pai vai pôr uma semente na barriga da mãe? - retorqui, julgando ter percebido mal a afirmação.
- Não mãe, eu já tenho a semente, apanhei-a na escola, está dentro da mochila. 
- E o que é que faço com a semente. - pergunta estúpida, eu sei.
- Pões no pipi. E passado muito tempo, nasce um bebé da tua barriga. - esclareceu-me o miúdo com os seus 4 anos.

Há 2 semanas fez um desenho na escola com os dois irmãos, continua a dizer que não tem irmãos há muito tempo. No Domingo, no quadro de ardósia desenhou-nos(eu, ele e o pai) e... 13 irmãos.

E eu temo ter decidido no passado dia 15 de Outubro (logo neste dia, bolas) que não terei mais filhos. Não que não queira, mas porque não há condições (diversas) para tal. Tenho pena, filho.
Acho que não seria capaz de ter mais um filho só por mo pedires, mas se pudesse e se sentisse que podia tê-lo, teria. E ficaria feliz por ti e por mim. Por nós.
Posso dizer-te que tens uma prima, posso dizer-te que acredito (desejo muito) que podem vir a ser como irmãos, posso dizer-te que ter irmãos é muito bom ou que ter irmãos não é assim tão extraordinário. Se me restringir à minha experiência posso dizer-te duas coisas: tenho uma irmã pela qual sinto um amor imenso especial; tenho um irmão que não te conhece... Uma coisa eu sei, acredito na relação que tens com a prima que tanto adoras.

Fonte desconhecida
Ela é mais alta do que tu (também é 3 anos mais velha), mas tu dizes que vais ser maior do que ela... Vejo os dois com a mesma grandeza! Que sejam primos-irmãos, meus amores!

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Quando for grande quero desenhar assim...

Gostava de ter vocação para o desenho, para as artes manuais em geral. Gostava mesmo. Mas, como uma vez alguém escreveu (não me lembro quem, mas já vi isto escrito em algum lugar), tenho umas mãos que parecem uns pés.
O meu filho de 4 anos desenha monstros, praias e pedregulhos em série. Qualquer conjunto de curvas e contracurvas aleatórias (ou não) desenhado por um lápis é nomeado de praia, monstro, pedregulho ou qualquer coisa do género. Quando orientado, lá faz qualquer coisa menos abstrata, mas temo pelo peso da herança genética. Será que lhe proporcionei poucas oportunidades para desenhar e pintar? - questiono. Às vezes penso que sim, acho que podia ter feito mais; outras, acho apenas que estou a respeitar o seu gosto e ritmo.
Está numa fase em que quer pintar, desenhar, cortar, (tentar) escrever o nome. Eu vou atrás da vontade dele e instigo-o. Ele mostra-me as pinturas e os desenhos que faz orgulhoso à espera da minha aprovação, mas não lhe digo que está muito bonito por tudo e por nada: digo-lhe que reparei na mistura de cores, pergunto-lhe porque só utilizou determinada cor, peço-lhe para descrever o que desenhou, por vezes incito-o a acrescentar algo, mas não elogio por elogiar. Elogio o esforço e alguns resultados finais. Quero que ele desenhe por gosto, por um objectivo pessoal, que se esforce para conseguir desenhar o que quer, sem necessitar de aprovação externa constante. Se não ficar bem à primeira, fica à segunda ou à terceira - se sair à mãe será mais complicado, não sei se irá lá à terceira, mas....terá de se esforçar mais.

E eu? Eu não sei se já sou crescida o suficiente para dar como um dado adquirido a minha (falta de) vocação para as artes ou se ainda vou a tempo de melhorar alguma coisa... Talvez apanhe o comboio do miúdo e deite mãos à arte. Consciente de que vou fazer isto por mim, muito possivelmente sem receber qualquer elogio. Mas se me divertir com isso, valerá a pena.

Esta ilustração foi realizada pelo autor do livro "O mundo ao contrário". Não sei se foi realizada a pensar num público alvo, tendo em conta uma faixa etária específica (ou várias), por exemplo... Mas acuso-me já, conheço várias personagens: Popeye, Lucky Luke, Les aventures de Tintin, Snoopy...

Autor: Georg Barber, mais conhecido por ATAK

Gostava de saber conjugar cores de forma harmoniosa, mesmo quando são cores fortes; gostava de ter capacidade de passar para o papel o que a minha mente visualiza; gostava de desenhar um círculo que não parecesse um pentágono ou uma linha reta sem desvios. Basicamente, gostava de ter jeito para isto. E lembro-me agora que quando tirei a licenciatura, quando me dedicava, até conseguia realizar algo com sentido estético, mas também me lembro que tinha mesmo de me esforçar muito. E demorava imenso tempo a realizar os trabalhos. Vou rever o que fiz e analisar o que posso fazer com o miúdo quando ele me convidar a desenhar com ele.
Vou sugerir ao miúdo que feche os olhos, que pense num objecto e que o desenhe no quadro de ardósia. Sem exageros, vou tentar que  miúdo tenha mais jeito do que eu para as artes... Se ele alinhar e gostar, claro. Há sempre a hipótese de o miúdo ter herdado alguma vocação do pai. Ainda tenho esperança.

Mas, por exemplo, isto eu consigo fazer...

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Grandes livros para pequenos leitores #28 - O mundo ao contrário

Filho, este livro foi um dos presentes do teu 4º aniversário e tem esta dedicatória:
"Um dia, inevitavelmente, vais crescer mais. E ainda bem, é esse o percurso natural da vida. Vais perceber por ti que a natureza tem coisas perfeitas (o crescimento de uma criança é uma delas), mas que dela também fazem parte coisas imperfeitas, coisas que estão frequentemente fora do lugar, no lado contrário do que é suposto. Hoje não vou escrever sobre elas. Hoje espero apenas conseguir dar-te as bases para identificares o que está ao contrário; as bases para tentares contrariar o que de errado encontrarás neste nosso mundo; as bases para conseguires agir bem e por bem; as bases para seres e fazeres feliz.
Por agora dedico este livro àquela brincadeira tão nossa de te pegar ao colo, inclinar-te para trás com o apoio dos meus braços e proporcionar-te o mundo ao contrário, o mundo de pernas para o ar. Costumas pedir-me para fazer isto frequentemente. E eu faço-o orgulhosamente, como se fosse uma brincadeira que só nós é que conhecemos - não somos os únicos, mas fingimos que somos.
E agora temos uma outra brincadeira: vamos descobrir o que está ao contrário neste livro? vamos descobrir o que está no sítio errado? o que tem o tamanho errado? vamos tentar colocar as coisas nos sítios certos? Pode ser um passo para perceberes o lado certo e o lado errado das coisas...
Muitos parabéns neste dia tão especial da nossa vida, o dia 27 de Setembro".

Um livro mágico que nos leva a procurar o que está fora do sítio. Um livro com ilustrações extraordinárias que nos leva a refletir sobre o que seríamos e sentiríamos se invertêssemos papéis. Um livro muito bem pensado. Um livro de ATAK, da Editora Planeta Tangerina.


A propósito da minha resistência ao circo - já fomos uma vez, mas não tenho vontade de repetir; os avós do miúdo perguntaram-nos há dias se queríamos ir ao circo com ele, a nossa resposta foi imediata e negativa:


Este livro permite-nos colocar no lugar do outro, refletir sobre o que sentiríamos se estivéssemos no lugar do outro, inverter papéis (depois de lermos este livro pela primeira vez, o meu filho fez de conta que era o pai e eu a filha), realizar desenhos e pinturas ao contrário...
Este livro é um álbum ilustrado sem qualquer texto a completá-lo, o que nos permite dar azo à imaginação. Quando chegamos a esta página, podemos completá-la com "e naquele mundo longínquo onde tudo acontecia ao contrário, os animais iam ao circo ver as acrobacias que os homens conseguiam realizar" ou "naquele mundo criado ao contrário os homens faziam a vez dos animais no circo de Natal... será que gostavam?"... O texto que inventamos depende dos objetivos que definimos, da ocasião, das crianças que nos ouvem.

Uma das propostas que integrou as Atividades de Verão na escola do meu filho: crianças deitadas no chão debaixo de uma mesa; folhas de papel brancas coladas na parte de baixo do tampo da mesa; desenhos e pinturas realizadas ao contrário - chamaram-lhes "pinturas do avesso". A postura da criança ao realizar a atividade é contrária à habitual, a perícia manual é trabalhada. Será que foi muito difícil?

 Imagem retirada daqui

Depois, aumentaram o nível de dificuldade: pintaram assim e desenharam com um lápis entre os dedos dos pés:

 Imagem retirada daqui

O mundo ao contrário: um livro com tantas possibilidades educativas. 
Há 2 anos escrevi um texto com este título.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

As férias que eu quero incluir na normalidade dos dias

As férias já lá vão, mas tal como o ano passado foram regeneradoras. Estivemos uma semana sozinhos (os três) e foi perfeito, mesmo contabilizando todas as imperfeições com que nos deparámos: o miúdo com febre na antevéspera da partida, a antibiótico na véspera e com anúncio de mau tempo. Apanhámos mau tempo no dia da chegada e no dia seguinte, dias estes que coincidiram com o início do antibiótico - não nos importámos porque tínhamos indicação para não irmos à praia nestes dias. A partir daí foi sempre bom. Centrámo-nos no facto de termos umas boas férias e conseguimos. Regressámos ao sítio onde já fomos felizes e fomos felizes novamente. As discussões não passaram de simples trocas de ideias. Vivemos aqueles dias sem pressa, tomámos o pequeno almoço devagar, fizemos as refeições sem olhar para o relógio. Abstraímo-nos da internet e da imensidão dos canais de televisão. Soubemos de poucas notícias. Fizemos puzzles, jogámos ao dominó, jogámos à bola e fizemos teatro de fantoches. Encontrámos a água do mar tépida. Reencontrámos o barco queimado e o sítio secreto. Passeámos pela ilha no meio de transporte que escolhemos para estas férias (ele passeou, a nossa função foi mais a de puxar o dito meio de transporte). O miúdo esteve afoito e entrou no mar sem receio. Recuou um pouco quando a prima chegou, talvez porque a viu mergulhar, nadar bem e depressa. Aos poucos voltou ao normal. Ele recebeu uma grande surpresa a meio das férias: a prima. A partir daí as brincadeiras a três passaram a ser, maioritariamente, a dois. Os dois, juntos, andaram de trotinete, brincaram e discutiram, fizeram cabanas na praia, observaram peixes no mar, apanharam berbigão, colecionaram conchas e pedras, dormiram juntos. Deslumbro-me quando os vejo crescer em cumplicidade.
Fui para a Ilha 15 dias a pensar que iria a Lagos, que iria subir ao interior para visitar uma praia fluvial, que daria um pulo até Espanha. Mas, tal como aconteceu o ano passado, não senti qualquer necessidade em sair daquele pedaço de terra. Pelo contrário.
Regressámos à nossa casa e eu não senti a tristeza que senti o ano passado: sei que serei feliz quando regressar. Queremos regressar à Armona no próximo ano e viver a liberdade e a descontração que ela nos proporciona. O miúdo sentiu ambiguidade no regresso: as saudades de casa e o querer viver nas férias.
O regresso à normalidade dos dias fez-me ter (mais) consciência de que vivemos de forma pouco saudável (a todos os níveis). Estou agora a tentar trazer para a realidade dos nossos dias o estado de espírito das férias. Isto tem de ser possível, bolas!
Querida Armona, até para o ano!

A música do regresso:

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

4 anos: como foi e as saudades que eu vou ter... ou as saudades que eu já tenho

Se me pedires uma palavra para descrever o teu 4º ano de vida, eu peço-te 4: amor. fantasia. negociação. superação. 

amor, porque está sempre presente, porque vem antes de tudo o resto, porque é o maior de todos os sentimentos, porque faz parte do que somos enquanto mãe e filho, porque com ele tudo se consegue, porque ao mesmo tempo que está no topo da nossa relação é também a base dela. Porque comecei a amar a ideia de te ter muito antes de te ter. Porque quis o destino que as nossas vidas fossem costuradas a fio de amor: fio forte, inquebrável, invisível, que une dois pedaços de matéria independentes com uma força indestrutível. Incluo no amor a palavra gratidão: obrigada vida por este filho, obrigada filho por este amor, obrigada amor pela oportunidade de te (re)descobrir. 

fantasia, porque foi o ano em que mais fantasiaste, em que mais fantasiamos. Posso até dizer que foste um verdadeiro Peter Pan na sua terra do nunca, nas suas histórias irreais, envolto na sua fantasia. Também foste o porquinho mais velho, personagem de eleição que adotaste e que interpretaste na perfeição. Foste pirata sempre que vestiste o fato de Carnaval ou saíste de casa com o chapéu da caveira, espada na mão e pala no olho. Foste gato das botas quando em pleno mês de Agosto quiseste calçar as botas de borracha. Foste lobo e monstro sempre que nos assustaste. Foste palhaço com as tuas frases cheias de graça e de humor. Foste advogado quando argumentaste com convicção. Foste e és uma fantasia realizada, imaginada nos mais doces e secretos sonhos. 

negociação, porque muito negociámos. Consequentemente discutimos e argumentámos. Muito ensinei e muito aprendi nesta dança de exigir e de ceder, de dar e receber, de pedir e satisfazer, de compreender o que eu quero e de respeitar o que tu queres.

superação, porque não foi um ano fácil. Foi trabalhoso, cansativo, desafiador, mas superado.

Não sei como estabeleci esta mudança de etapa na minha cabeça, mas sinto que é aqui que deixas de ser bebé, pelo menos apenas bebé. Talvez situe esta idade num plano intermédio de bebé-menino, porque o meu coração não consegue ainda aceitar que o bebé que foste fica para trás, nas páginas já escritas, na história já vivida e construída. A história dos teus 4 anos de vida e dos meus 4 anos de mãe fundem-se e eu agradeço esta fusão. Desejo que, apesar dos pontos e das virgulas da nossa história, o texto seja fácil de ler, de viver, de entender. E que provoque em nós e naqueles que nos rodeiam um sorriso aberto e sincero. Quero viver bem e quero que vivas bem. Quero que gargalhemos juntos muitas vezes.
Haverão capítulos em que terei uma participação regular, em que a (minha) assiduidade importa, na medida em que farei falta. Outros em que deixarei os papéis de maior relevo para te dar espaço e oportunidade de construíres a tua personagem e a tua história (a verdade é que já estás a construí-las). Outros ainda em que serei apenas leitora. Estará tudo bem, tudo tem o seu tempo, o seu ritmo, o seu espaço. Independentemente do papel que eu tenha nos diferentes capítulos, lembra-te só que o amor que por ti sinto é crescente. Não consigo quantificar esse crescimento, mas sei que quanto maior for a história, mais te amarei. Que ela seja longa, queremos longevidade.
Passados 4 anos não consigo deixar de te olhar em silêncio e sorrir como de uma aparição divina se tratasse, com aquele encanto ingénuo e infantil que as surpresas boas nos trazem. A verdade é que ser tua mãe tem sido um privilégio. Foste, sem dúvida alguma, a melhor surpresa, a surpresa da minha vida, o amor de uma vida toda, apesar dos 37 anos que nos separam.
Cativaste-me desde o primeiro segundo, meu amor: a fazer-me sorrir desde as 16h29m do dia 27 de Setembro de 2013. E todos os dias me conquistas mais. Desde 2013: ano em que engravidei, ano em que me descobri grávida, ano em que te descobri menino, ano em que me nasceste e que nasceste para o mundo. Tudo em 2013.

Feliz aniversário, meu menino de amor, traquina e explorador.  Desejo com o coração que tenhas um feliz 5º ano de vida. Todos os anos peço o mesmo, adotei esta frase como sendo minha, mesmo não sendo: que tenhas um destino bonito.

Coisas que te escrevi nos 2º e 3º aniversários:
- A carta que te escrevi por ocasião do teu 3º aniversário.
- As cartas que te escrevi por ocasião do teu 2º aniversário: esta e esta.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Grandes livros para pequenos leitores #27 - Onde perdeu a Lua o riso?

Mais uma história da biblioteca: "Onde perdeu a lua o riso?". Este livro tem um texto curto e simples, que ganha vida com as imagens expressivas que o ilustram.
Daniel questiona onde perdeu a Lua o riso: uma vez, outra e outra... Porque reconhece a importância de rir. Faz-lhe confusão não saber do riso de Lua. E quando a mãe não lhe sabe dizer onde ele está, o menino parte à procura do riso da irmã.
Onde terá a Lua perdido o riso? "Na barriga da cabra? Sobre o bico da pata? Entre os ovos das galinhas? Debaixo do escano da cozinha?"
O meu miúdo memorizou o texto correspondente a cada ilustração: à medida que vai folheando o livro, vai contanto a história em voz alta.
No final lê-se: "...uma lua barriguda morria de riso...". O miúdo é literal e faz beiço porque a Lua morreu de riso. Quer ver a Lua rir à gargalhada, mas não que morra de riso. Se rir é uma coisa tão boa, por que raio morre a  Lua (ainda que seja de riso). Lá lhe expliquei que neste caso a palavra "morrer" tem outro significado, quer dizer outra coisa, quer dizer que ela ri muito, muito, muito.  Termino esta história a fazer-lhe cócegas. E a ouvi-lo rir. E hoje, dia 24, é dia de "comemorar a rir".

É um livro de Miriam Sánchez e Federico Fernández, da editora Kalandraka.


quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Reflexões profundas (ou não) #34 - Dirty Dancing tem 30 anos!?

Dirty Dancing tem 30 anos!? Deve ser para me lembrar que amanhã completo mais uma volta de vida. 
Vi este filme dezenas de vezes, deve ser a cassete de vídeo mais vista de sempre (na minha casa). 


Vi esta cena tantas, tantas, tantas vezes.


Dizer que o Patrick Swayze foi o responsável por tantas visualizações deste filme será injusto, mas.... Também gostei muito de o ver na série "Norte e Sul". Em todas as brincadeiras alusivas à representação desta série, eu era a Madeline. Sim, só porque ele era o Orry Main.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Logo, quando chegar a casa, quero pedir-te desculpa

Logo, quando chegar a casa, quero pedir-te desculpa: fui brusca contigo esta noite.
Posso dizer-de que estou cansada. Que há mais de uma semana que acordas às 6 e pouco da manhã. Que perdi a conta ao número de vezes que acordaste esta noite: primeiro na tua cama, depois na minha, por quereres fazer xixi no bacio, por fazeres xixi na cama, por quereres água ou por não conseguires respirar em condições. Por tudo e por "nada" - digo eu, que por nada é que não foi. Que andas chato, birrento, a lamuriar-te vezes a mais. Que às vezes demonstro que estou cansada elevando o tom de voz, que estou farta de te ouvir fazer birras. Que às vezes estás cansado, que agora estás doente, que outras é só porque sim. Que o meu cansaço se arrasta. É verdade que é um cansaço físico, mas não só. Estou cansada, principalmente, por ainda não ter aprendido a lidar com as diferenças que existem entre nós: entre a energia que se excede em ti e a que me falta a mim; entre o meu cansaço e a tua luta contra o teu; entre as tuas escolhas e as minhas. Posso dizer-te muita coisa, encontrarei muitas desculpas para me justificar. Mas, por agora, só quero mesmo pedir-te desculpa. Desculpa, filho.

 Imagem retirada da Internet: fonte desconhecida

Estou na hora de almoço. Já pensei em ti muitas vezes, deve ser a culpa. Estou para aqui a pensar que se eu estou cansada, tu deves estar de rastos. E que ainda assim, foste à escola. Estou a pensar que, logo hoje, tenho tanta coisa para fazer. Hoje, que tenho tanta pressa em abraçar-te, vou sair mais tarde.
E tu, querido dia, não podes negar que és segunda feira. Mas não te esqueças que és só o começo, o final escolho eu.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Novamente à conversa "comigo mesma": o que é isso da igualdade de oportunidades?

Falo comigo muitas vezes, a verdade é esta.
Há algum tempo que questiono o que é isso da igualdade de oportunidades/de direitos. Isso existe? Ou será apenas um trio de palavras arrumadas estrategicamente para agradar a maioria.
É claro que todos os seres humanos deveriam ter as suas necessidades mais básicas satisfeitas e deveriam viver com dignidade. Estou a falar de coisas que vão para além dessas necessidades básicas, até porque a definição de "viver com dignidade" já pode conter alguma subjetividade. No caso da educação estou sempre a questionar o que é e em que consiste a igualdade de oportunidades, já escrevi sobre isso aqui.

Alguns direitos que considero essenciais (não estão enunciados por ordem de importância):

Todos têm o direito de ter filhos. 
Claro que sim. Mas a verdade é que uns conseguem, outros não. Umas engravidam só de pensar (isto é uma metáfora, não acreditem nisto), outras sujeitam-se a inúmeras frustrações consecutivas que se traduzem, muitos vezes, num sem número de tratamentos. Uns podem, outros não. Uns conseguem ter um filho, outros conseguem ter quatro filhos. Uns querem ter, outros não querem.

Todos têm o direito de sentir segurança e amor.
Basta lembrar alguma família menos funcional em que a segurança e demonstração de amor são conceitos abstractos ou inexistentes. Nestas situações, por vezes, até pode aparecer alguém a querer ajudar, a querer colmatar falhas, mas nem sempre estas tentativas são bem sucedidas: há pessoas que aceitam; outras não sabem aceitar; outras não querem aceitar. Como se faz para que todos tenham a oportunidade de sentir isto? Todos precisam disto na mesma quantidade?

Todos têm o direito a ter uma casa.
Sabemos muito bem que nem todos têm. E há quem diga que muitos não querem ter.

Todos têm o direito à Educação.
Claro que sim. Mas todos têm direito à educação que querem? E, já agora, todos querem?

Todas as crianças têm o direito de frequentar uma Escola Pública de qualidade a partir dos 3 anos.
Claro que sim. Mas a verdade é que uns querem, outros não. Nem todos os que têm 3 anos conseguem frequentar o ensino público. E os que frequentam, nem todos estão na sua primeira opção, aquela que é mais benéfica para si. E o que é isso de uma escola Pública de qualidade? E os que precisavam de uma Escola Pública antes dos 3 anos? Possivelmente têm de fazer uma triagem logo no primeiro ponto relativamente ao número de filhos.
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Todos têm o direito de usufruir de um Plano de Vacinação, independentemente das suas possibilidades financeiras. 
Claro que sim. Mas a verdade é que uns querem, outros não. Uns querem administrar todas as vacinas à sua descendência, outros, com algum dinheiro extra, conseguem administrar as que se encontram fora do Plano Nacional de Vacinação. 

Todos têm direito a um Plano/Seguro de Saúde.
Claro que sim. Mas algumas crianças são acompanhadas por pediatras, outras por médicos de Clínica Geral no Centro de Saúde (não retirando o mérito aos médicos do Centro de Saúde, mas neste momento não há Pediatra no Centro de Saúde da minha área de residência, por exemplo - não me digam que o médico de Clínica Geral faz o papel do pediatra: então porque é que existe a especialidade?.

Todos têm direito a uma alimentação saudável.
Claro que sim. Mas sei bem a diferença de valores entre os produtos biológicos e os "não biológicos", por exemplo.

Todos deviam ter direito a muita coisa. Isto da igualdade de oportunidades, apesar da boa intenção, dá muito que falar: escrevi sobre coisas que considero essenciais (segurança, amor, saúde, alimentação, educação...), mas até nestes pontos não estamos todos de acordo. A verdade é que não queremos todos as mesmas oportunidades. A verdade é que é muito, muito difícil que todos tenham acesso às mesmas oportunidades, por vários motivos. Como é que fazemos?

Eu queria ter 2 ou 3 filhos e ter disponibilidade financeira e mental para os acompanhar. Queria ter tempo para eles. Queria trabalhar no que gosto, sair cedo e ganhar para os gastos. Queria viver feliz, sem discussões domésticas mesquinhas e sem importância que me consomem. Queria poder comprar tudo na mercearia biológica da minha terra. Queria poder administrar todas as vacinas que, apesar de todos os pontos de vista discutidos, me sossegam a alma; pelo menos fico mais sossegada com elas administradas do que sem elas. Queria ficar com o miúdo a tempo inteiro até aos dois anos (isto já lá vai, ele vai fazer 4), parcialmente até aos 4 e não estar mais do que 6/7 horas diárias longe dele. Mas também queria ter 1 hora diária para fazer o que me apetece, de modo a garantir o alinhamento dos chácaras (seja lá o que isso for, acho que um bom alinhamento faz sempre bem). Queria tirar o mestrado na área da Educação. Queria escolher a educadora e a escola do meu filho. Queria ter um papel ativo na educação do meu filho. Queria ter uma auto-caravana e substituir alguns dias de escola do miúdo por viagens nesta casa ambulante sonhada. Queria ter uma saúde de ferro e poder dispensar as visitas aos médicos (dispensava as minhas e as dos meus). Queria viajar fora de Portugal de quando em vez e viajar muitas vezes cá dentro. Queria uma casa simples e arrumada com um espaço exterior. Queria um carro económico (não sendo muito, muito económico, até ficava com o que temos). Ou então vestia a vontade do meu filho que gostava mesmo era de viver "nas férias"... Talvez seja só porque precise muito de férias, mas desconfio que me habituava facilmente a este cenário hipotético.
Para dizer a verdade, eu queria que investissem em práticas e políticas que nos fizessem viver bem e felizes, sendo que este "viver bem e feliz" fosse feito à medida de cada um: sim, eu queria ganhar menos, consequentemente trabalhar menos (apesar de ganhar pouco), ter mais tempo para o que me faz bem à alma, ter menos bens materiais (talvez tivesse de desistir da auto-caravana; desistia antes de viajar fora de Portugal), abdicar de coisas que (para mim) são secundárias. Quem quisesse trabalhar mais, ganhar mais, viajar mais, ter um carro melhor, uma casa maior, força. Os sonhos de uns não têm de empatar os sonhos dos outros. Nem os sonhos de uns são melhores dos que os dos outros. Cada um com os seus.
Estas são algumas das minhas vontades e representam o que valorizo. Cada um tem as suas vontades, as suas preferências, os seus sonhos. Teremos todos a oportunidade de os cumprir? Bem, pelo menos todos temos a oportunidade de tentar. Ou não... que isso de se dizer que querer é poder, não é bem assim. Apesar de o querer ser muito importante, nem nisto, a que chamamos oportunidade de tentar, há igualdade.

a fugir de um dia de escola (dito normal)... 
 Imagem retirada daqui

Alguém que me conhece bem diz que tenho de resolver os problemas que tive com a escola que frequentei e com a aluna que fui. Tem razão. Não anulando as minhas opiniões sobre o assunto "Educação", não devo assumir que o meu filho terá os mesmos problemas/as mesmas dificuldades. Esforçar-me-ei por não fazê-lo.  
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Esta divagação pode conter muita utopia, mas estamos em Agosto, não tarda muito estou a completar mais uma volta de vida, falta pouco para ir de férias... Apetece-me divagar.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Birras de felicidade

Escrito assim até se pode pensar que estou louca, que uma birra não traz felicidade a ninguém, apesar de sabermos que faz parte do crescimento, que é importante para o desenvolvimento, blá, blá, blá (sem desvalorizar o blá, blá, blá). A questão é que o miúdo anda tão, mas tão feliz, que não sabe bem como gerir tamanha felicidade. Ou melhor, não sabe gerir a excitação, o cansaço e o sono que se acumulam com tanta felicidade.

Perante uma semana com muitos motivos para andar feliz da vida, fez birras, andou agressivo. Bateu-me, bateu na avó, bateu no pai, levantou a mão à tia ou bateu-lhe mesmo (não percebi bem), empurrou uma menina no parque, bateu na prima (ela ignora que ele lhe bate, mas... eu não lido bem com isto). Fez birra porque não quis levar as crocs, fez birra porque quis vestir sempre camisolas de alças, fez birra porque quis comer sempre papa... Fez birras. Muitas. A tia acha que lhe deu muito mimo, acha que a culpa é dela. Não, não é. Ele anda efectivamente feliz, porque adora ir ao parque com as duas (tia e prima), gosta de jantar com elas, gosta do mimo da tia e das brincadeiras com a prima. Só temos de lhe agradecer por isso e pelo tempo que lhe dedicou. Mas ele não está bem. Está muito, muito cansado.

Falámos com a auxiliar da sala dele: não quer dormir a sesta, é sempre o último a adormecer, não dorme mais do que meia hora. Nestes dias, em que muitos miúdos estão de férias, ele brinca e corre muito mais do que o normal na escola. Depois da escola, brinca mais do que o habitual porque tem a adorada prima à sua disposição, deita-se mais tarde, anda excitado com tantas possibilidades de diversão. Parece-me que quer aproveitar o melhor de todos os lados, mas não consegue lidar com o cansaço que sente, acho até que o tenta contrariar. 

Na quarta feira à noite houve birra digna de palco (salvo seja, tomara eu esquecer-me que ela existiu, quanto mais elevá-la a este nível). Eu contrariei o que achei que tinha de contrariar, mas comecei a pensar em estratégias. Porque não fiquei bem comigo mesma, porque achei que podia ter feito de forma diferente.


Quando consigo prever, ou colocar na equação dos dias, que as coisas podem correr menos bem, consigo criar estratégias simples que funcionam com ele (e comigo): digo as coisa num tom calmo, meigo até, mas firme, sem grande manobra de divagação; digo-lhe o que vamos fazer e oriento-o nesse sentido. Quando não consigo prever, quando estou muito cansada ou apressada, eu própria faço birra e a coisa culmina com o aumento de cansaço para os dois. No fundo, acho que o desenvolvimento desta minha capacidade, de previsão ou contemplação de birras no dia a dia, pode funcionar  como um controlador de stress. Só preciso de aperfeiçoar a técnica. :)
No dia seguinte à birra monumental, o adormecer foi tranquilo, com uma história contada num tom de voz baixo e com regras: é hora de ouvir a história, só ouvir; de te virares para o teu lado preferido; de sossegares; se estas condições não estiverem reunidas, eu não posso ler. Só leio uma história. Depois, desejei-lhe boa noite e beijo-o. Apaguei a luz. Deitei-me ao seu lado. Deu umas voltas e adormeceu. Dormiu a noite toda. Com ele resultou.
Quando se levantou e veio na minha direção, ainda com um olho aberto e outro fechado, peguei-o ao colo e deixei-o acordar calmamente. Beijei-o, passei-lhe as mãos pelo rosto, perguntei-lhe se tinha dormido bem. Já quase a sair de casa, disse-lhe que tinha de levar as crocs, porque tinha jogos com água na escola. Disse-lhe que tinha uma camisola para vestir que, por acaso, era de alças. Perguntou-me se podia comer papa - não podia, a papa acabou e eu nos próximos tempos não vou comprar mais (já lho disse e já lhe expliquei o motivo, não repeti mais a justificação), comeu iogurte com cereais. Dei-lhe o abraço e o beijo do costume e pedi-lhe que ajudasse o pai (depois de eu sair ele fica só com o pai, é ele que o leva à escola na maioria dos dias). Ajudou. O final do dia de quinta feira correu bem e o início de sexta também. No sábado e no domingo fez sestas de quase 3 horas na tranquilidade da nossa casa.
Conversei com ele sobre o facto de andar tão cansado e de ter feito tantas birras, sugeri que tentasse descansar mais na escola. Disse-me que não gosta de dormir na escola, que quer dormir na Ama. Hoje levou um boneco para o ajudar a adormecer na escola. Vamos ver como corre.

Ele ainda precisa de dormir à tarde, mas não descansa na escola como em casa. Isto é um problema. Ele fica elétrico, fica completamente desnorteado. E nós, se não encontrarmos estratégias ou se não conseguirmos que ele descanse mais, também. Um dos motivos de não o inscrevermos num JI Público foi precisamente o facto de não poder dormir a sesta, mas mesmo no privado e com esta possibilidade, estamos a deparar-nos com esta dificuldade. Vou voltar ao meu horário normal (tenho feito horas extraordinárias) e penso que isso ajudará.
Lembro-me de a minha sobrinha passar por uma fase semelhante (um pouco diferente), em que todos os colegas da turma conseguiam ver um filme, por exemplo, e ela não. Não conseguia estar quieta. A educadora (do JI) acabou por sugerir que alguém a fosse buscar às 15h00 (que ela não ficasse na escola depois das 15h para as atividades), se fosse possível. No caso dela, com 5 anos, foi possível e resultou: ela precisava de dormir a sesta. E quando isto não é possível e os comportamentos fora do normal se mantêm e se arrastam no tempo? Quais são as dificuldades e os problemas que daqui advêm? Muitos, penso eu.